Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Terceirização de repórteres e jogos jornalísticos mudam a cara da imprensa na era digital

Por Carlos Castilho em 25/05/2007 | comentários


Para quem ainda dúvida que o jornalismo já não é mais o mesmo, aqui vão três notinhas pescadas na Web, que podem dar um nó na cabeça de muita gente, de coleguinhas a leitores:




1) Repórteres indianos fazem cobertura local em cidade americana, pela internet.


2) A moda atual entre os antenados é responder entrevistas por email ou colocar as respostas no blog pessoal, antes de passa-las ao repórter.


3) O título mais acessado no site jornalístico da MSNBC é o de um jogo chamado Newsbreaker , onde a captura de manchetes vale pontos.


O jornalismo na era digital tem destas coisas que parecem modismos passageiros, mas que no fundo indicam tendências no mercado da informação.


A terceirização jornalística já é um fato na maioria dos países, embora aqui no Brasil ela ainda seja muito reduzida. Tornou-se moeda corrente as empresas jornalísticas alugarem profissionais por tarefa para economizar custos sociais dos contratos trabalhistas. É quase um corolário da tese das redações mínimas que passou a ser um verdadeiro dogma na maioria dos jornais, emissoras de radio e de televisão.


As empresas de telemarketing dos Estados Unidos descobriram a mina de ouro da mão de obra barata na Índia há quase uma década. A mesma preocupação com a minimização de custos levou o jornal Pasadena News Star , de Pasadena, Califórnia a recorrer aos mal pagos repórteres indianos para cobrir temas de uma cidade localizada do outro lado do mundo.


Os três jornalistas indianos contratados deveriam monitorar, através da Web, os blogs, páginas institucionais, fóruns de moradores e sites de relacionamentos de moradores de Pasadena, para garimpar notícias locais que seriam publicadas tanto na versão impressa como na versão online do jornal.


A contratação dos repórteres indianos  gerou um grande ti-ti-ti entre os jornalistas americanos, a tal ponto que o Pasadena News Star resolveu adiar o projeto porque a pressão foi grande. Mas o editor James Macpherson admitiu que a idéia não foi abandonada, pois a diferença salarial é enorme. Um repórter indiano, formado na badalada escola de jornalismo da Universidade da Califórnia em Berkeley, custa, na Índia, US$ 7.200 dólares anuais (ou seja, 1.120 reais mensais), enquanto um norte-americano cobra dez vezes mais.


Se para o jornal Pasadena News as distâncias não importam, para personalidades muito requisitadas para entrevistas, o contato direto também já é dispensável. O diretor da faculdade de jornalismo da Universidade de Nova Iorque, Jay Rosen, agora só responde entrevistas por correio eletrônico ou pelo seu blog pessoal. Rosen queixa-se que os repórteres descontextualizam suas respostas e que não tem mais tempo para tantos pedidos da imprensa.


Howard Kurtz, crítico de mídia do jornal The Washington Post resolveu investigar o tema e descobriu que o professor Rosen não é uma exceção. O mesmo expediente já está sendo usado por um grande número de empresários, consultores renomados e por especialistas procurados a todo instante para dar entrevistas. As chamadas fontes agora não precisam mais dos repórteres porque tem seus blogs pessoais para dizer tudo o que desejam.


Mas em matéria de quebra de paradigmas na imprensa, nada supera o jogo criado pela MSNBC. Não é a primeira vez que o jornalismo vira tema de videogames, mas, se não me engano, nunca antes um veículo jornalístico usou este recurso para atrair leitores.


O Newsbreaker não chega a ser um jogo empolgante, mas ele pode estar abrindo caminho para uma tendência que vai se infiltrando aos poucos na comunicação através das narrativas não lineares em projetos multimídia.


O componente lúdico começa a ser estrutural no desenvolvimento de histórias mudando o caráter dos jogos. De divertimento eles passam a ser também formas de descobrir a realidade.


São apenas três histórias , das muitas que circulam na nova realidade digital, que a cada dia quebra mais paradigmas na arena da comunicação.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/06/2007 ailton amaral

    Já ha algum tempo tenho percebido que a mídia, principalmente a grande mídia, tem características de imprensa marrom no Brasil; não tem nada que se fale nos jornais, tvs, documentários, programas de radio, que se aproveite de verdade;
    Uma coisa é um jornalista ser entrevistado e dar sua opinião, outra é escrever artigos ou reportagens tendenciosas, julgando pessoas, atos e ações.
    Quando coloco que essa situação é generalizada, não é por acaso, se pegarmos as próprias redes defendendo seus interesses e em guerra com o concorrente e jornalistas defendendo seus empregos, esquecendo a que vieram.
    Às vezes sinto que a corrupção não está somente no setor público, mas entranhada em toda sociedade. Isso faz com que quem trabalhe com comunicação tenha mais responsabilidade, mas ao contrario, passam a fazer parte da grande massa que ajudam a atolar o país em miséria e falta de informação.
    Pouquíssimos são os jornalistas que se dão ao luxo de olharem com respeito pelo leitor, o jornalista que deveria isentar-se pra oferecer informações mais confiáveis. Aqui no Brasil, como no filme “o quarto poder” temos redes e jornalistas tentando derrubar quem não faz parte de suas relações. Por varias vezes vemos manifestações populares serem deturpadas, informações escondidas e posições pessoais e corporativas colocadas em primeiro plano, em detrimento da sociedade.

  2. Comentou em 25/05/2007 Marcelo Cardoso

    Contratar repórteres para escrever sobre uma cidade do outro lado do mundo e ainda por cima baseado em testemunhos de terceiros é ´o fim da picada´, no entanto, creio que tal tendência será seguida ou até ´aperfeiçoada´ nos demais países.
    Esta prática só reforça o que, de certa forma, já ocorre aqui nas redações tupiniquins: muito se escreve com base em telefonemas, e-mails enviados por assessorias e documentos que chegam pelo correio.
    O repórter – ferramenta básica na observação e interpretação da informação – não precisa mais estar em contato íntimo com sua fonte. Basta clicar um botão e a fonte chega até ele na velocidade em que viajam os byts.

  3. Comentou em 25/05/2007 Ubirajara Oliveira

    acrescente-se a estas a nossa história: todos os comentários que postamos em blog vão para o nosso ‘POLITICA COMO VOCÊ VÊ’ como uma forma de ampliar a crítica, e manter viva a nossa posição política. com isso evitamos o simples bate-boca, e a provocação ou defesa do interesse político-partidário.
    http://politicacomovcve.blogspot.com

  4. Comentou em 25/05/2007 Eduardo Vasques

    Castilho, tudo bem?
    Gostaria de saber como vocês enxergam o papel da assessoria de imprensa e agências relações públicas nessas novas formas de comunicação. Se a fonte passa a ser o contato direto, por meio de blogs ou não, qual a função das agências? Como elas poderiam controlar/administrar esse processo? Além disso, acha viável esse modelo no Brasil dos ‘barões da comunicação’? Pra que contratar indianos se os salários de redação daqui já são de fome?

    http://perolasdasassessorias.wordpress.com

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