Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Tiraram o goleiro de campo

Por Luiz Weis em 16/06/2008 | comentários

Outro dia, Lawrence Downes, da equipe de editorialistas do New York Times, foi conhecer o Newseum, o museu de jornalismo de Washington. Na entrada, perguntou ao recepcionista: “Onde fica a seção de edição de texto?” O homem pareceu inseguro. “Tente internet, rádio e TV, no terceiro andar.” O jornalista se espantou. “Para edição de texto? Edição de texto de jornais?” O recepcionista foi conferir com um colega e voltou com a resposta: “História do jornalismo, no quinto.”


Downes estranhou. Afinal, como escreve hoje no Times, muitos dos editores de texto que conhece ‘continuam vivos e fazendo o que fazem”. Só que não havia nada sobre o seu trabalho no tal do quinto andar. Ele acabaria descobrindo que o museu não tem praticamente nada sobre como se fazem jornais hoje em dia. [Pena que ele não informe o que existe ali sobre como se faziam jornais no passado, mas isso é detalhe.]


O ponto é que o editorialista, ele próprio ex-editor de texto, acha que, bem pensadas as coisas, há uma certa lógica nisso. “A obscuridade e a impopularidade são parte do trabalho”, registra. “Editores de texto trabalham em horas tardias, podem ser irascíveis e nunca assinam matérias.”


Ele aproveita para dar uma versão compacta do que é edição de texto:


‘Depois que as notícias acontecem no caos e confusão do mundo real, viajam pela mente de um repórter, pelo olho de um fotógrafo, antes de se transformarem em arquivo de computador e passar por múltiplas camadas de edição. Editores de texto são responsáveis pela transição final para um objeto de tinta sobre papel. Eles aparam palavras, corrigem gramática, pontuação e estilo, escrevem títulos e legendas.”


Tem mais, no entanto. “Editores de texto são os últimos pares de olhos antes dos seus”, diz, dirigindo-se ao leitor. “São mais poderosos do que os revisores. Desembaraçam escritos retorcidos. São cirurgiões, removendo tumor de erros e irrelevâncias; são chefes de cozinha minimalistas, peneirando gordura.” E, beirando o lírico, define o sentido da atividade: “Garantir que o dia de trabalho da equipe de um jornal se transforme num objeto de beleza duradoura e excelência depois que for impresso.”


Muito disso na internet, onde tudo parece mudar a toda hora, é outra coisa.


De fato, até onde é possível fazê-lo sob a pressão do fechamento, o trabalho de um editor de texto – é ainda Downes quem observa –, é desacelerar, repensar as coisas, fazer as contas e formular perguntas irritantes”.


Na internet, frases alusivas com palavras buriladas não geram necessariamente citações no Google. “E como o Google transforma todo mundo em especialista, a coleção de sinônimos que o editor de texto tem na cabeça não parece importar mais.”


Na sequência, ele vai ao fundo da questão:


”A atividade não desapareceu ainda, mas está se distanciando rapidamente da ênfase em estilo e consistência. A senda para a perfeição, agora, passa pela velocidade, agilidade e criatividade no uso de multiplos e expressivos canais de informação em todas as suas formas e sons.”


O editor cuidadoso de ontem é o lançador esperto de hoje.


No mundo do que Downes chama “perpétuo presente do indicativo” – postar já, corrigir depois, atualizar constantemente –, editores detalhistas à moda antiga se tornaram um luxo a que só umas poucas grandes organizações jornalísticas se podem entregar.


Textos editados com zelo, em busca do ótimo na forma e no conteúdo, tendem a ser artesanais “como potes de mel vendidos em mosteiros e iates de madeira”. E o pior, lamenta o jornalista, é que “se os editores de textos desaparecerem da terra, ninguém irá notar”.


Pelo que lê todo dia, em papel e na tela, este ex-editor de texto que virou blogueiro concorda: poucos parecem notar o que aconteceu com a qualidade da informação jornalística desde que, à parte quaisquer outros fatores, tiraram de campo o goleiro do time, o último a impedir os gols contra de seus companheiros.

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