Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Todos os lados do passado

Por Luiz Weis em 09/05/2005 | comentários

As reportagens históricas sobre a tomada de Berlim pelo Exército Vermelho, em 1º de maio de 1945, e a rendição incondicional da Alemanha, seis dias depois, pondo fim à Segunda Guerra Mundial, não poderiam omitir os padecimentos dos civis alemães, a começar dos estupros em massa de que foram vítimas mulheres de praticamente todas as idades.

A revista inglesa The Economist informou que, na Alemanha, “muito da cobertura de mídia do 60º aniversário do fim da guerra concentrou-se nos sofrimentos alemães”. Das edições de ontem dos principais jornais brasileiros, a do Globo deu amplo espaço à sina da população alemã “entregue à fúria dos soviéticos”, como diz um de seus textos. A matéria mais densa foi uma entrevista com o historiador inglês Antony Beevor, autor de um livro sobre a derrocada de Berlim.

Foram relativamente poucas, porém, as referências às barbaridades praticadas pelos soviéticos que também dessem aos leitores o benefício da perspectiva. Desse ângulo, a melhor passagem está em um artigo assinado por Renato Galeno.

“Em 14 de abril, um trem abarrotado deixava Berlim, com pessoas espremidas em grande alvoroço. Um soldado, com duas cruzes de ferro (medalhas por bravura) no uniforme, gritou para conter a histeria. Suas palavras provocaram um silêncio absoluto:

– Parem de se queixar. Temos de ganhar esta guerra. Se outros a ganharem e nos fizerem só uma fração do que fizemos nos territórios ocupados, em poucas semanas não sobrará um único alemão.”

A perspectiva é indispensável. Em 1944, Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema “Com o russo em Berlim”.

“O tempo que esperei não foi em vão. / Na rua, no telhado, espera em casa. / No curral; na oficina: um dia entrar / com o russo em Berlim.”

Do mesmo modo, a propósito da passagem do presidente Bush por Riga, a capital letã, a caminho de Moscou, a imprensa em geral – e não só no Brasil – lembrou a anexação dos países bálticos (Estônia, Letônia, Lituânia) pela União Soviética, acertada na Conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, com o resignado endosso americano, apesar da forte oposição britânica.

Mas não lembrou a participação de inumeráveis cidadãos desses países no trabalho sujo que nem mesmo a Wehrmacht se prontificava a fazer no Leste Europeu em geral e na URSS em especial, sob ocupação nazista.

Há duas semanas, os brasileiros que têm acesso às transmissões para a América Latina da TV 5 francesa puderam assistir, durante cinco noites consecutivas, às quase 12 horas do Shoah, o monumental e provavelmente definitivo documentário de Claude Lanzmann sobre o Holocausto, concluído em 1985.

Nele, um sobrevivente dos campos de extermínio, falando da entusiástica bestialidade com que ucranianos e os bálticos colaboravam com a SS na execução da Solução Final, observou que “os letões eram os piores de todos”.

Nem por isso, obviamente, a imprensa, ou quem quer que seja, deveria justificar a brutal e duradoura ocupação dos países bálticos pelas forças soviéticas. Mas as grandes datas, como o Dia da Vitória na Europa, dão à mídia justificadas razões para exumar todos os lados do passado. Mas em geral ela não o faz.

De uns tempos para cá, por sinal, historiadores e jornalistas alemães vêm pondo em evidência os imorais bombardeios aliados de alvos germânicos não militares — a destruição de Dresden com bombas incendiárias é o caso mais escabroso — e ainda, terminada a guerra, a expulsão de 11 milhões de alemães étnicos da Polônia, Prússia Oriental e da então Checoslováquia.

Como observa o historiador Beevor, no Globo, é uma forma de dizer “nós, alemães, fomos vítimas em 1945”. Mas o problema, acrescenta, “é que tendem a ignorar a ligação entre causa e efeito”. E quando muitos deles se declaram, também eles, ou seus pais e avós, vítimas de Hitler, as vítimas são os fatos.

Sob os soviéticos, os alemães, indistintamente, pagaram um preço terrível pelo nazismo. Mas aqueles que já tinham deixado de venerar o Fuhrer antes do Gotterdamerung de 1945 não o fizeram por haverem subitamente descoberto as monstruosidades alemãs nos territórios ocupados (amostras das quais puderam ser vistas na própria Alemanha e na Áustria anexada, ainda antes da invasão da Polônia).

Quando os ventos da guerra começaram a mudar, eles sabiam o que os aguardava. Nas palavras de Beevor (numa tradução, espero, um pouco mais arrumada do que a do Globo):

“Nas semanas que se seguiram a Stalingrado (o começo do fim do Reich de mil anos, em fevereiro de 1943), mesmo aqueles que tinham comemorado as vitórias sobre a França, Holanda e Bélgica, em 1940 — quando a maioria dos alemães apoiava Hitler — começaram a perceber que tinham sido enganados por Goebbels e que seus exércitos, seus filhos e maridos estavam morrendo, e assim o espírito da população, em ampla medida, mudou em relação ao regime nazista.”

Depois da guerra, dos julgamentos do Tribunal de Nurembergue e do breve período de desnazificação imposto pela ocupação aliada — a partir de 1947, o inimigo principal dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha passara a ser a URSS — a sociedade alemã ocidental, em parceria com os americanos, tacitamente tomou três decisões:

Lançar-se à reconstrução nacional, o que desembocaria no Wirtschaftswunder, o celebrado milagre econômico; aceitar os valores e as instituições da democracia anglo-americana, o que em pouco tempo daria resultados não menos miraculosos, considerando a autoritária cultura política do país; e esquecer o passado.

Por isso, embora desde a primeira hora as novas gerações da República Federal fossem educadas a crer nas superiores virtudes do regime democrático, só a contar do final da década de 60, graças à rebelião estudantil liderada por figuras como o já falecido Rudi Dutschke e o atual ministro do Exterior Joschka Fischer, e às pressões de intelectuais e escritores de primeira grandeza, como Gunter Grass e Christa Wolf, a terceira decisão começou a sucumbir.

Aos jovens já não bastava a democracia — ou, para um bom número deles, a “democracia burguesa”. Eles queriam saber os que os seus genitores fizeram à época do nazismo e o que o nazismo fez com os judeus. Novos processos foram abertos contra criminosos de guerra que haviam conseguido ficar impunes — e prosperar — durante bons 30 anos. E a verdade irrompeu com a força de um tornado.

Enquanto as elites japonesas faziam questão de olhar para o outro lado — isso quando não glorificavam os feitos do militarismo nipônico —, os seus equivalentes alemães, vencida a relutância inicial, encararam o passado e assumiram as suas culpas.

A estupenda nova Alemanha — a mais progressista das grandes nações do mundo — nasceu no dia 7 de dezembro de 1970, quando o então chanceler social-democrata Willy Brandt ajoelhou-se no sítio onde ficava o gueto de Varsóvia, na cerimônia de inauguração do memorial em homenagem ao mártires do levante judeu de 1943.

Quinze anos depois, no 40º aniversário do fim da guerra européia, o então presidente Richard von Weizsacker declarou que 8 de maio de 1945 não foi o dia da derrota da Alemanha, mas o da sua libertação da tirania.

Essa mesma Alemanha reviveu no domingo os 60 anos da queda de Berlim lembrando pungentemente, mais do que as vítimas das tropas russas, as vítimas da era nazista que “transformou a Europa inteira numa vala comum”, nas palavras do presidente Horst Kohler.

“Nós, alemães, rememoramos com choque e vergonha a Segunda Guerra Mundial desencadeada pela Alemanha, e o Holocausto, colapso da civilização pelo qual os alemães são responsáveis”, disse ele ainda. “Sentimos asco e desprezo pelos culpados desses crimes contra a humanidade e que desonraram o nosso país.”

A imprensa brasileira não achou importante destacar hoje expressões tão eloquentes e reveladoras. A Folha de S.Paulo, por exemplo, preferiu mostrar na primeira página um neonazista paramentado à la Hitler e, dentro, uma foto em que se vê a polícia separando o punhado de neonazistas que pretendia fazer uma contramanifestação em Munique de uma multidão de militantes esquerdistas prontos para atacá-los.

Essa mesma Alemanha inaugura hoje, no coração de Berlim, o novo memorial do Holocausto — uma instalação de 2.711 pilares desiguais de concreto, fazendo lembrar as lápides de um velho cemitério judaico.

Noticiam-se de vez em quando indícios de ressurgimento do anti-semitismo na Alemanha — categoria em que, facciosamente, há quem inclua as mais do que procedentes críticas alemãs ao tratamento que o Estado de Israel do truculento Ariel Sharon dá aos palestinos.

Mas não chegam ao Brasil notícias que retratam muito melhor a verdadeira Alemanha, como a dos jovens da cidade de Ulm, de 100 mil habitantes, às margens do Danúbio, que querem que se acrescente ao memorial das vítimas da guerra um outro só para os desertores do exército de Hitler, dos quais 22 mil foram executados.

Disse Johana Nimrich, de 18 anos, ao New York Times: “Impossível entender por que pessoas que participaram da guerra são homenageadas, mas aquelas que resistiram a participar, não.”

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