Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1014
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Truman Capote, glória e degradação

Por Mauro Malin em 13/11/2005 | comentários

O caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo publicou no sábado (12/11) reportagem sobre Truman Capote, um dos pais do “new journalism”. Diz que “estivesse vivo [morreu em 1984], estaria feliz, pavão que era. O escritor e jornalista é tema de duas cinebiografias, teve pela primeira vez todos os contos reunidos num livro, mais um volume só de cartas, ganha no Brasil uma reedição caprichada de sua principal ficção, Bonequinha de Luxo, e, nos EUA, o lançamento de seu primeiro romance, até então perdido”.


Bem, talvez não estivesse tão feliz. Em A Louca da Casa (2004), a jornalista e escritora espanhola Rosa Montero escreve que Truman Capote “é um exemplo perfeito de um grande escritor que, descerebrado pelo sucesso, termina escrevendo coisas horrendas”. Rosa louva o talento Capote, mas diz que ele se angustiou porque “provavelmente se traiu a si mesmo”. E descreve:


Nesses anos finais de de bloqueio e angústia, Truman tornou-se alcoólatra e engoliu todos os comprimidos do mundo. Estava drogado, embrutecido, enlouquecido, desesperado. Morreu aos 59 anos, deteriorado como um octogenário mal-cuidado”,


A razão, segundo Rosa Montero:


Já era muito conhecido (venceu como escritor ainda bem jovem) quando empreendeu o que seria sua opera magna, a reportagem romanceada A Sangue Frio, uma reconstrução magistral do absurdo assassinato de uma família de fazendeiros, o pai, a mãe e dois filhos adolescentes, por dois jovens de 20 anos meio idiotas, de vida tão triste e precária que nem sequer chegaram a desenvolver suficientemente sua consciência do mal. Capote pesquisou o caso durante três anos; conheceu os assassinos, que estavam na cadeia condenados à morte, e conviveu com eles. Escreveu a obra quase toda e depois esperou mais dois anos, até que os criminosos fossem executados, para fazer o capítulo final e publicar o livro. Durante todo esse tempo, Capote visitava e se correspondia com os condenados, que lhe mandavam cartas angustiadas pedindo-lhe para interceder por eles diante das autoridades, que pedisse um indulto, que os ajudasse a salvar o pescoço. Ele respondia com boas palavras e dizia que tinha chegado a sentir afeto por eles, mas no fundo mais escuro de si mesmo estava desejando que os juízes rejeitassem todos os recursos e os matassem de uma vez, para poder publicar o livro e desfrutar da glória, porque sabia que era a melhor coisa que já tinha escrito. Capote escreveu para sua amiga Mary Louise: ´Como você talvez tenha ouvido, o Supremo Tribunal rejeitou as apelações (pela terceira maldita vez), ou seja, pode ser que em breve aconteça algo num sentido ou noutro. Já tive tantas decepções que quase não me atrevo a esperar que seja agora. Mas deseje-me boa sorte!´ Truman não fez nada por Dick e Perry, e a verdade é que ficou horrorizado mas também alegre quando finalmente eles foram enforcados; e não creio que se possa chegar impunemente a essa miséria moral”. (Vale a pena ler os trechos seguintes, nas páginas 65/6; vale a pena ler o livro.)


Bom material para se refletir sobre os métodos usados para produzir reportagens de impacto.


A fonte de Rosa Montero é Capote, A Biography, de Gerald Clarke. Na tradução brasileira do livro de Rosa, da Ediouro, o título Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany´s) é grotescamente traduzido como Desjejum no Tiffany´s. Os tradutores ignoraram que o livro foi publicado no Brasil e seguiram o título da tradução espanhola – Desayuno en Tiffany´s.

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