Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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TV Pública: Para não deixar a peteca cair

Por Carlos Castilho em 22/05/2007 | comentários


A discussão foi grande e a divisão de opiniões no início do mês não foi menos intensa, mas a cada novo desdobramento do debate fica claro que ainda falta um bocado para chegarmos a um consenso sobre o que entendemos por TV Pública.


Isto é essencial porque o processo ainda vai durar algum tempo, porque o assunto é complexo e dá margem a muitas interpretações e percepções diferentes.


Por isto, vou tentar desenvolver mais algumas idéias sobre o assunto, para colaborar na busca coletiva de uma definição sobre a TV pública, que ainda não sabemos que queremos, parafraseando o falecido publicitário Carlito Maia.


Para começar, se a televisão é pública, significa que sua preocupação principal é com o público, ou seja, voltada para o interesse dos cidadãos e cidadãs deste país. Isto quer dizer, por exemplo, que uma tv pública deve priorizar a discussão, investigação e prestação de serviços sobre temas que fazem parte da agenda dos seus usuários.


Esta agenda é formada por questões como desemprego, segurança pública, saúde, educação, aposentadorias, salário mínimo e acesso a terra, só para mencionar as mais freqüentes na lista de preocupações identificada por quase todas as pesquisas de opinião pública.


Acontece que esta agenda de preocupações não coincide integralmente com as prioridades do governo e das emissoras comerciais, porque ambos têm agendas próprias. As emissoras do governo normalmente priorizam as realizações e projetos da presidência da República, dos poderes legislativo e judiciário. Estas instituições, normalmente, estão mais preocupadas em formar opinião do que em escutar opiniões.


Já a rede das televisões privadas se preocupam em manter e ampliar a sua lucratividade, portanto sua agenda está dominada por interesses comerciais e políticos. É só ver as manchetes de jornais, rádios e televisões num dia qualquer para perceber que a mídia oficial tem, geralmente, manchetes diferentes das publicadas pela midia comercial. E ambas deixam num segundo plano a agenda de preocupações do público.


Nada contra o fato de o governo e as empresas terem seus interesses e sua agenda própria. O problema é que o público fica sem canais para expressar seus desejos e necessidades.


É justamente isto que começa a tornar-se a grande queixa da chamada sociedade civil e é aqui que se encontra o grande diferencial da uma TV de interesse social ou público.


Uma televisão publica deve obrigatoriamente ser independente, tanto em relação ao governo como em relação às empresas de comunicação social, porque só assim ela vai poder cumprir o seu papel.


Quando o governo promete criar uma televisão pública federal ele corre o sério risco de acabar frustrando os cidadãos e cidadãs porque é quase certo que os interesses da máquina administrativa federal acabarão prevalecendo sobre os interesses das pessoas comuns.


O muito difícil imaginar que o governo tomará a iniciativa de escancarar a corrupção nas polícias civil e militar, por exemplo, sem que seja provocado por algum grande escândalo.


Da mesma forma que as emissoras privadas não se interessam em dissecar a contabilidade dos bancos comerciais para exigir uma redução nas tarifas cobradas aos correntistas.


A construção de uma TV pública passa por uma complexa busca de consenso entre organizações da sociedade civil. Este é talvez o ponto crítico do projeto, porque só os interessados e beneficiados diretos é que poderão dar formato adequado à expressão da agenda do público.


As organizações sociais estão dispersas e se caracterizam por uma grande diversidade, mas se elas não assumirem o desafio da TV pública estaremos todos perdendo uma oportunidade única.


O I Fórum Nacional sobre TVs Públicas foi um primeiro passo. Quem vai fazer esta televisão voltada para o cidadão e, principalmente, quem vai financia-la? São duas perguntas cruciais cujas respostas ficam para próximos posts, para que este texto não fique quilométrico.


Conversa com o leitor:
Vocês podem achar que este post não tem novidade nenhuma, o que em parte é verdade. Minha principal preocupação é não deixar a peteca cair, como diz o título. Estou tentando manter a discussão e troca de idéias sobre TV pública porque sem a participação de vocês, ela pode até sair do papel, mas muito provavelmente será tudo menos pública.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/05/2007 Fábio Pereira da Silva silva

    É pertinente a pergunta se a tv pública, terá o viés da imparcialidade, se vai tocar nas instituicões que estão por ai ursupando do nosso dinheiro, se vai tocar nos assuntos cruciais do país, para que possa esclarecer a sociedade da situação atual que se encontra o Brasil, para sairmos da miséria e pararmos de mendigar para outros países que não tem um terço do que temos de oportunidades e soluções mas usam seu potencial em benefício próprio.

  2. Comentou em 23/05/2007 Pedro Moura

    Ainda que o projeto do governo (baseado, como foi prometido, nas conclusões do Fórum) passe no Congresso, não há garantia que a prática do sistema incorpore essa agenda pública. Outra questão é como o formato da gestão será aplicada nos estados. Tudo isso supõe um nível de organização social capaz de negociar o controle, o que não será fácil.

  3. Comentou em 23/05/2007 Dante Caleffi

    Sugestão para a futura TV pública:Ali Kamel,para Diretor da emissora; Merval Pereira,como editor geral. Garantia de imparcialidade nas notícias e honestidade nas críticas.

  4. Comentou em 23/05/2007 Plínio Bortolotti

    Caro Castilho,
    Qual método v. acha que seria interessante para escolher a direção de uma TV pública sem a interferência estatal? Você acha possível uma TV pública mantida pelo governo e, neste, caso como se daria o financiamento para não permitir o velho ‘quem paga manda’, ou a sua interrupção quando algo desagradasse o financiador? (Oviamente eu entendo que o dinheiro é público, mas quem o manipula são os governantes.)

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