Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Um apelido para o bom jornalismo

Por Luiz Weis em 18/05/2009 | comentários

“Leitores preferem jornal a internet”, exulta o Estado desta segunda-feira, 18, em título de página inteira no caderno de economia.

É o que deu uma pesquisa encomendada à consultora PricewaterhouseCoopers pela Associação Mundial de Jornais, com sede em Paris. O levantamento ouviu 4.900 pessoas de alto poder aquisitivo em sete países ricos. Tem, portanto, as vantagens e limitações de sua amostra.

Nesse grupo, pelo menos, a maioria das pessoas não se incomoda em pagar por seu jornal, apesar da popularidade dos diários gratuitos, e não se incomodaria em pagar para ler material jornalístico na internet. Em muitos países, mas não no Brasil, geralmente não é preciso assinar um periódico para ter acesso à sua versão online.

Para surpresa de ninguém, a preferência pela leitura em papel varia na razão direta da idade, passando de 60% dos entrevistados na faixa de 16 a 29 anos a 73% na faixa de 50 a 64 anos. A recíproca é verdadeira: a preferência pela tela cai conforme a idade.

O interessante são as razões por que os entrevistados preferem uma coisa a outra. Quem escolhe jornal valoriza antes de mais nada a “profundidade” do conteúdo (27% de citações). Quem escolhe tela, o acesso a vídeos (26%).

Curiosamente, um dos benefícios mais festejados do jornalismo online, em comparação com a modalidade dita convencional – a interatividade – foi apontado por apenas 9% dos leitores que dão prioridade à internet.

[A íntegra da pesquisa pode ser lida aqui].

A associação que encomendou o estudo destaca, entre os seus resultados, a constatação de que os jornais tradicionais ainda têm uma base de leitores firme e relativamente fiel. O vínculo é o da confiança. A credibilidade de um jornal conta mais do que o meio físico em que ele circula – uma boa notícia para o jornalismo de qualidade.

As conclusões do levantamento conferem com a avaliação do estudioso americano de mídia, Tom Rosenstiel, apresentada numa reunião de ombudsmans dias atrás em Washington e citada na Folha de domingo pelo ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva.

Segundo Rosenstiel, que dirige o respeitado Projeto para Excelência no Jornalismo, o problema da imprensa americana está menos na perda de público do que na perda de receita publicitária. A rigor, somando as versões impressa e eletrônica, “os jornais americanos nunca tiveram tantos leitores como atualmente”, relata Lins da Silva.

Os dados de Rosenstiel mostram que embora os jornais americanos tenham ficado substancialmente mais caros nos últimos cinco anos, “o decréscimo de sua circulação tem sido comparativamente pequeno.”

Parece claro, portanto, que se vem fazendo uma grande confusão entre crise do negócio jornalístico e crise de credibilidade do jornalismo – salvo quando a primeira passa a faca nas redações a ponto de comprometer a qualidade do seu trabalho.

Aqui no Brasil, por conta da azia dos adeptos do presidente Lula com o que seria o facciosismo da imprensa em relação ao seu governo, a internet tem sido saudada como a alternativa progressista à desacreditada mídia velha.

Por partes. Critique-se a imprensa brasileira pelo que ela merece. O seu grande pecado não é o de ser dura com este governo: é o de não ter sido igualmente dura com o governo que o antecedeu. E, embora seja óbvio que a internet proporciona uma diversidade de opiniões incomparavelmente maior que a das outras mídias, em matéria de informação agregada sobre uma ampla gama de assuntos de interesse público ainda não surgiu no Brasil um site noticioso em condições de concorrer vantajosamente com qualquer dos principais diários.

E, pelo mundo afora, o melhor da imprensa na internet ainda é também o oferecido pelas organizações jornalísticas estabelecidas que souberam associar o que o ofício tem de melhor no seu modo de produção (seleção, apuração, certificação, edição e hierarquização das notícias) e na abrangência do seu conteúdo ao aproveitamento da profusão de recursos disponíveis no meio eletrônico – do espaço ilimitado ao dinamismo no jogo de textos, fotos, vídeos, sons, animações, lo que se quiera, enfim, para atrair e estimular o envolvimento do público.

O jornalismo convencional não deve ser fustigado por ser o que é, mas sempre que não for suficientemente o que precisa ser – uma janela panorâmica e translúcida para o mundo. Aliás, a expressão “jornalismo convencional”, além de depreciativa, é enganadora. Sugere que a sua estrutura, os seus procedimentos e os requisitos profissionais a eles associados tornaram-se obsoletos devido ao advento de um paradigma superior, o da internet.

Do ângulo mais importante, o da função social do jornalismo, o problema não mudou de figura. Seja qual for o meio em que apareça e as peculiaridades de cada um deles, a informação como matéria-prima para a vida coletiva e o exercício da democracia continuará a depender do rigor com que for apurada, conferida, situada e analisada, e da clareza e da atratividade com que for apresentada. Se se quiser dar um apelido a isso, talvez o melhor seja mesmo jornalismo convencional.

O pior da mudança climática

Os jornais noticiaram discretamente, isso quando noticiaram, um estudo científico da University College de Londres sobre os prováveis efeitos do aquecimento global para a saúde das populações humanas.

Passou batida, por exemplo, a relação entre os desastres ambientais já em curso e o surgimento de novas cepas virais, tanto mais ameaçadoras quanto maior a sua capacidade de migrar de uma espécie animal para outra, como é o caso da impropriamente chamada gripe suína. Salvo engano, só o meticuloso Washington Novaes, que escreve às sextas no Estado, produziu um artigo específico a respeito.

Os pesquisadores do instituto londrino calculam que cerca de 300 milhões de pessoas “a mais do que o normal” contrairão malária por causa do aumento exponencial dos mosquitos transmissores da doença, provocado pelo aumento da temperatura.

Doenças como a dengue – cujo estrago no Brasil foi assunto de uma competente matéria do Globo de domingo – também se propagarão com mais facilidade pelo mesmo motivo.

“Os ricos viverão em um mundo mais caro, inconveniente, desconfortável e mais imprevisível”, dizem os autores do estudo. “Os pobres morrerão.”

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/05/2009 Rosângela Maria Pessanha de Souz

    Um apelido para um bom Jornalismo?

    ‘O Evangelho’ : Boa Notíca, Verdadeira e Íntegra.

  2. Comentou em 24/05/2009 Wendel Anastácio

    E o desespero continua…..
    Como ainda continuo pesquisando, transcrevo aquí para conhecimento, parte do diálogo havido no 25º Congresso Nacional de Radiodifusão do dia 19 do corrente.
    ‘Tem uma tempestade em curso e já começou a pingar. Vem ai uma tempestade de tecnologia e pessoas mais ansiosas e apressadas já pensam: `Vou vender minha rádio´, `, Vou vender minha TV´, `Não vou migrar pra TV digital porque a banda larga vai acabar comigo´. Não dá para a gente desistir e pensar que vamos nos molhar e já perdemos’, afirmou o vice-presidente de Relações Institucionais das Organizações Globo e consultor da Abert, Evandro Guimarães, tentando acalmar os ânimos dos participantes.
    É…, realmente estamos mudando, ou melhor o mundo está mudando!
    Só espero ainda estar vivo para saborear estas mudanças.
    Chega de ‘ditadura midiática’, e seus alarmimos de Pandemias, para tentar se manter no foco.
    E repito: Não votei na mídia para me representar, e não dou a ela este direito!

  3. Comentou em 22/05/2009 Cristiana Castro

    Weis, vc sabe melhor que qq um de nós o que está acontecendo. O velho modus operandi perdeu seu lugar e, é muito bom que tenha perdido, tanto para nós, leitores qto para vcs, jornalistas. Se, por outro lado, o s jornalões se descobriram muito bem, obrigado, ótimo. Ficamos como estamos, a direita no impresso e qq coisa que não seja ultra conservadora de direita na web. Weis, eu leio três jornais impressos, por dia, e qdo vou comprar na banca, já sei o que vou ler, não há mais nada ali, não tem nada disso de profundidade, quem vai se iludir com isso? Ler é um hábito, eu mesma, tenho o hábito de acordar e comprar os jornais, mas isso não significa nada além de pagar 2,50, não busco ali nada além do que já sei de antemão, será publicado. Aqui é diferente, tá vivo, tá quente, é real, é a opinião pública ou, pelo menos, uma parcela dela. As pessoas querem se manifestar, nós ainda temos a web, e o resto? Todos os dias passo pelo dissabor de ler, passivamente, um edital ou uma coluna, é horrível, nunca mais vamos precisar passar por isso, nem nés e nem vcs. Cá entre nós, existe alguma coisa melhor que ler um comentário sobre um texto teu? Positivo ou negativo o comentário, o texto é teu, e chamou a atenção. A gente está livre da orientação dos jornalões e os jornalistas estão livres da seleção de cartas do leitor. O OI é um vício ,o jornalão é um hábito.

  4. Comentou em 21/05/2009 Paulo Silva

    ‘Critique-se a imprensa brasileira pelo que ela merece. O seu grande pecado não é o de ser dura com este governo: é o de não ter sido igualmente dura com o governo que o antecedeu.’
    Meu caro, ninguém critica a imprensa brasileira por ser dura contra este governo; se fosse só isto, ótimo! Critica-se a imprensa por ser leviana, manipuladora, seletiva, mentirosa e golpista. Estampar uma ficha falsa da ‘terrorista’ e pré-candidata na primeira página de um jornal, só para dar um exemplo, não é ser duro, é praticar um crime. Portanto, a imprensa não está sendo dura, está praticando crimes reiteradamente, desde 2003. Só isto!

  5. Comentou em 21/05/2009 Wendel Anastácio

    Senhores internautas;
    Para ‘confirmar’ o artigo do Sr. Weiss, trancrevo matéria do próprio OI, cujo título é ‘Mídia em Crise’, para que os Srs., tirem suas conclusões.
    Meu Slogan: Não votei na mídia para me representar, e não dou a ela este direito!

    ‘MÍDIA EM CRISE
    AP apresenta plano de demissão voluntária

    em 20/5/2009

    A Associated Press está oferecendo planos de demissão voluntária que incluem US$ 500 para cada ano de serviço e aumentam os benefícios em até 16% na aposentadoria para centenas de empregados veteranos, segundo declaração do sindicato News Media Guild. Embora os planos tenham sido oferecidos há três semanas, a AP não os tornou públicos e o sindicato divulgou apenas uma nota no seu sítio’.

  6. Comentou em 21/05/2009 Wendel Anastácio

    ‘Aqui no Brasil, por conta da azia dos adeptos do presidente Lula com o que seria o facciosismo da imprensa em relação ao seu governo, a internet tem sido saudada como a alternativa progressista à desacreditada mídia velha.’
    Meu amigo, não se engane e muito menos aos outros. Não só no Brasil, como também nos EE.UU,e principalmente na eleição de Obama, você pode tirar prova de como está se tornando importante a internet.
    Não só o País está mudando. O mundo está mudando, e aqueles como você que ainda acreditam em contos de carochinhas, verá que é para melhor, pelo menos na informação.
    Falar que a crise dos grande jornais, não é afetada pela internet, é mera ingenuidade.
    Sem querer ser radical demais, diria que esta crise deve-se quase que exclusivamente ao descrédito de parte da imprensa, e não só no Brasil, como também no mundo
    Seus erros são claros, e enquanto ela querer pautar os Poderes Constituídos da Repúbica, irá cada vez mais perdendo espaço.
    Se ao contrário, se ater aos seus princípios morais, quais sejam o de bem informar, fiscalizar e denunciar, ao invés de se arvorar em juízes, talvez consiga um pouco mais de crédito. Digo mais, críticas, ultimamente ela nem tem merecido, e só seria justo se este alguem fizesse por merecer, e isto, ela nem capaz tem sido. ‘Não votei na midia para me representar, e não dou a ela este direito’.

  7. Comentou em 21/05/2009 alfredo sternheim

    ‘O seu grande pecado não é o de ser dura com este governo: é o de não ter sido igualmente dura com o governo que o antecedeu.’ O grande pecado não é ser apenas dura com o governo atual, mas tendeciosa e desrespeitosa. O episódio Larry Rotther é uma prova, a insistência na hiposete do terceiro mandato e a ausência de uma maior vigilância no desperdício de dinheiro público no poder legilsativo sãopecados mais graves e atuais da n/imprensa. Só por ONgs (duas), soubemos como o Congresso pouco produtivo é uma bagunça. O grande pecado d aimprensa escrita é não se aprofundar em ameças e denúncias como a do senador Heráclito, quando disse que ir fundo naa questão das passagens aéreas iria envolver jornalistas. Ficou por isso mesmo. Outro pecado, não vi indignação em articulistas (a não ser noOI) sobre colunistas políticos terem emprego no senado (caso de R.Noblat). A imprensa se omite diante de problemas locais graves (o caos no transporte urbano de SP, a insegurança pública, o mal atendimento na agência central do INSS em SP), mas gasta muito espaço para tudo que possa chamuscar o governo federal. Isso faz com que muitos desistam de assinar jornais que não tem a profundidade apontada por vários, muito menos a ética interna. Haja visto o caso escandaloso da CBM, de Nelson Tanure (Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Editora Peixes), com suas dívidas aos que nela atuaram

  8. Comentou em 20/05/2009 Ana Luíza Madeiro

    ‘A informação como matéria-prima para a vida coletiva e o exercício da democracia continuará a depender do rigor com que for apurada, conferida, situada e analisada, e da clareza e da atratividade com que for apresentada.’ Concordo plenamente, de nada adianta termos uma mídia tão vasta e rica se o conteúdo, muitas vezes, não constrói. O jornalismo convencional traduz-se por qualidade jornalística, independente do veículo onde as notícias serão publicadas.

  9. Comentou em 20/05/2009 Eduardo Fernandes

    Há muita bobagem sendo escrita, tanto no impresso quanto na nova mídia, a internet. Mas há também muita coisa boa. Os leitores, muitas vezes, não têm competência para separar o joio do trigo. O advento da internet trouxe mais possiblidades no que se refere à variedade de formas textuais. Mas também trouxe perigos.
    A confiabilidade e tradição dos jornais impressos conseguirão segurar essa velha mídia por bastante tempo. Um adendo: a concentração ao ler um impresso é bem maior. O computador, por meio da internet, nos oferece tantas informações que nos deixam meio perdidos. O impresso, por ser mais limpo, na maioria das vezes, não possuem esse problema.

    Obs: Os textos do observatório nos dão ânimo para seguir no jornalismo!

  10. Comentou em 20/05/2009 dante caleffi

    Gostei do penúltimo parágrafo.

  11. Comentou em 20/05/2009 Max Suel

    Do texto: ‘Critique-se a imprensa brasileira pelo que ela merece. O seu grande pecado não é o de ser dura com este governo: é o de não ter sido igualmente dura com o governo que o antecedeu’. Seria porque neste governo atual os escândalos se multiplicam ? Houveram tentativas de sufocar a liberdade de imprensa ? Pensamento, palavras e obras no sentido de enfraquecer as instituições e aviltar a democracia ? Por que tratar igualmente coisas desiguais? este governo está é sendo muito bem tratado por extensa parcela do jornalismo. (por sabujice, interesse vil e afinidade ideológica).

  12. Comentou em 20/05/2009 Ney Lima

    Com relação ao assunto final e à frase final, os pobres morrerão ‘primeiro’. A gripe suína mostra que não há discriminação: muitos dos países chamados desenvolvidos foram afetados e muitas pessoas de boa situação sócio-econômica. Não devemos nos descuidar achando que seremos naturalmente os escolhidos de Deus…

  13. Comentou em 20/05/2009 Ilca Marqueiz

    Luiz,

    O que seduz é o texto impecável, a qualidade, o conteúdo. O formato não importa tanto e hoje há lixo em todos os formatos. Ainda bem que existe o Observatório para resgarar o prazer da leitura.

  14. Comentou em 20/05/2009 Ademário Iris da Silva Junior

    Há um bom tempo eu deixei de comprar jornais em papel. Leio os que
    são gratuitos pela internet, mas não todos, obviamente, em
    português, inglês e espanhol (esta última língua um pouco menos,
    infelizmente). Na internet há muito mais diversidade, além de poder
    pesquisar rapidamente assuntos que desconheço, mas que estejam
    ligados à reportagem, confirmar detalhes veiculados no texto, ou
    ainda ver a opinião dos leitores sobre o assunto.
    Isso é incomparável e os jornais comuns não podem oferecer isso.

  15. Comentou em 19/05/2009 Ferreira de Oliveira

    Os grandes meios de comunicação no Brasil não cumprem a sua nobre missão de informar e, ao contrário, pretendem arrogantemente formar a opinião da população e impingir a todos seu modelo de mundo. Enquanto os grandes jornais, revistas e canais de TV insistirem em tomar posições partidárias, escolher inimigos para destruir e aliados para proteger prefiro me informar pela Internet.

  16. Comentou em 19/05/2009 wilson oda

    Eu penso que nada substitui o prazer de se ler um jornal tomando um café da manhã, por exemplo. O grande problema, entretanto, é o conteúdo dos grandes jornais: é como eu, japonês, tudo igual. Não existe pluralidade de opiniões. Se você ler o estadão, a folha, revista epoca, veja, etc, etc, etc,
    é tudo mais do mesmo. Agora, eu só leio jornal, porque ganhei uma assinatura de presente, mas bem que eu gostaria de voltar a ler jornais por prazer.

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