Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Um apelido para o bom jornalismo

Por Luiz Weis em 18/05/2009 | comentários

“Leitores preferem jornal a internet”, exulta o Estado desta segunda-feira, 18, em título de página inteira no caderno de economia.

É o que deu uma pesquisa encomendada à consultora PricewaterhouseCoopers pela Associação Mundial de Jornais, com sede em Paris. O levantamento ouviu 4.900 pessoas de alto poder aquisitivo em sete países ricos. Tem, portanto, as vantagens e limitações de sua amostra.

Nesse grupo, pelo menos, a maioria das pessoas não se incomoda em pagar por seu jornal, apesar da popularidade dos diários gratuitos, e não se incomodaria em pagar para ler material jornalístico na internet. Em muitos países, mas não no Brasil, geralmente não é preciso assinar um periódico para ter acesso à sua versão online.

Para surpresa de ninguém, a preferência pela leitura em papel varia na razão direta da idade, passando de 60% dos entrevistados na faixa de 16 a 29 anos a 73% na faixa de 50 a 64 anos. A recíproca é verdadeira: a preferência pela tela cai conforme a idade.

O interessante são as razões por que os entrevistados preferem uma coisa a outra. Quem escolhe jornal valoriza antes de mais nada a “profundidade” do conteúdo (27% de citações). Quem escolhe tela, o acesso a vídeos (26%).

Curiosamente, um dos benefícios mais festejados do jornalismo online, em comparação com a modalidade dita convencional – a interatividade – foi apontado por apenas 9% dos leitores que dão prioridade à internet.

[A íntegra da pesquisa pode ser lida aqui].

A associação que encomendou o estudo destaca, entre os seus resultados, a constatação de que os jornais tradicionais ainda têm uma base de leitores firme e relativamente fiel. O vínculo é o da confiança. A credibilidade de um jornal conta mais do que o meio físico em que ele circula – uma boa notícia para o jornalismo de qualidade.

As conclusões do levantamento conferem com a avaliação do estudioso americano de mídia, Tom Rosenstiel, apresentada numa reunião de ombudsmans dias atrás em Washington e citada na Folha de domingo pelo ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva.

Segundo Rosenstiel, que dirige o respeitado Projeto para Excelência no Jornalismo, o problema da imprensa americana está menos na perda de público do que na perda de receita publicitária. A rigor, somando as versões impressa e eletrônica, “os jornais americanos nunca tiveram tantos leitores como atualmente”, relata Lins da Silva.

Os dados de Rosenstiel mostram que embora os jornais americanos tenham ficado substancialmente mais caros nos últimos cinco anos, “o decréscimo de sua circulação tem sido comparativamente pequeno.”

Parece claro, portanto, que se vem fazendo uma grande confusão entre crise do negócio jornalístico e crise de credibilidade do jornalismo – salvo quando a primeira passa a faca nas redações a ponto de comprometer a qualidade do seu trabalho.

Aqui no Brasil, por conta da azia dos adeptos do presidente Lula com o que seria o facciosismo da imprensa em relação ao seu governo, a internet tem sido saudada como a alternativa progressista à desacreditada mídia velha.

Por partes. Critique-se a imprensa brasileira pelo que ela merece. O seu grande pecado não é o de ser dura com este governo: é o de não ter sido igualmente dura com o governo que o antecedeu. E, embora seja óbvio que a internet proporciona uma diversidade de opiniões incomparavelmente maior que a das outras mídias, em matéria de informação agregada sobre uma ampla gama de assuntos de interesse público ainda não surgiu no Brasil um site noticioso em condições de concorrer vantajosamente com qualquer dos principais diários.

E, pelo mundo afora, o melhor da imprensa na internet ainda é também o oferecido pelas organizações jornalísticas estabelecidas que souberam associar o que o ofício tem de melhor no seu modo de produção (seleção, apuração, certificação, edição e hierarquização das notícias) e na abrangência do seu conteúdo ao aproveitamento da profusão de recursos disponíveis no meio eletrônico – do espaço ilimitado ao dinamismo no jogo de textos, fotos, vídeos, sons, animações, lo que se quiera, enfim, para atrair e estimular o envolvimento do público.

O jornalismo convencional não deve ser fustigado por ser o que é, mas sempre que não for suficientemente o que precisa ser – uma janela panorâmica e translúcida para o mundo. Aliás, a expressão “jornalismo convencional”, além de depreciativa, é enganadora. Sugere que a sua estrutura, os seus procedimentos e os requisitos profissionais a eles associados tornaram-se obsoletos devido ao advento de um paradigma superior, o da internet.

Do ângulo mais importante, o da função social do jornalismo, o problema não mudou de figura. Seja qual for o meio em que apareça e as peculiaridades de cada um deles, a informação como matéria-prima para a vida coletiva e o exercício da democracia continuará a depender do rigor com que for apurada, conferida, situada e analisada, e da clareza e da atratividade com que for apresentada. Se se quiser dar um apelido a isso, talvez o melhor seja mesmo jornalismo convencional.

O pior da mudança climática

Os jornais noticiaram discretamente, isso quando noticiaram, um estudo científico da University College de Londres sobre os prováveis efeitos do aquecimento global para a saúde das populações humanas.

Passou batida, por exemplo, a relação entre os desastres ambientais já em curso e o surgimento de novas cepas virais, tanto mais ameaçadoras quanto maior a sua capacidade de migrar de uma espécie animal para outra, como é o caso da impropriamente chamada gripe suína. Salvo engano, só o meticuloso Washington Novaes, que escreve às sextas no Estado, produziu um artigo específico a respeito.

Os pesquisadores do instituto londrino calculam que cerca de 300 milhões de pessoas “a mais do que o normal” contrairão malária por causa do aumento exponencial dos mosquitos transmissores da doença, provocado pelo aumento da temperatura.

Doenças como a dengue – cujo estrago no Brasil foi assunto de uma competente matéria do Globo de domingo – também se propagarão com mais facilidade pelo mesmo motivo.

“Os ricos viverão em um mundo mais caro, inconveniente, desconfortável e mais imprevisível”, dizem os autores do estudo. “Os pobres morrerão.”

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