Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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Um breve contra o bom jornalismo

Por Luiz Weis em 21/07/2006 | comentários

Uma carta, na Folha de hoje, do diretor-executivo de Jornalismo da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, me faz retomar o tema da nota de ontem, ‘Nosso objetivo se chama Jornal Nacional’.

Na carta, para contestar texto da coluna Toda Mídia, do jornal, Kamel informa que a TV Globo fez um acordo com os partidos. Pelo trato, ‘merecerão cobertura diária das atividades de campanha, em tempos rigorosamente iguais, os candidatos que tenham ao menos 5% nas pesquisas eleitorais, ou alternativamente tenham ao menos cinco deputados federais’.

O jornalista acrescenta que, portanto, os quatro candidatos que preenchem uma dessas duas condições ‘têm tido tempos rigorosamente iguais em todos os nossos telejornais, com a exceção de apenas dois dias, em que dois deles não tiveram atividades públicas’.

Isso é bom para a Globo, que demonstra equanimidade, e é bom para os candidatos, que têm espaço cativo no noticiário em pé de igualdade com os outros.

Mas, por estranho que possa parecer, eu me pergunto se é bom também para o bom jornalismo.

Bom jornalismo é o que dá às notícias destaque – tempo no ar, espaço na página – compatível com a sua relevância, conforme a avaliação dos editores, com base em critérios presumivelmente objetivos, embora não necessariamente incontestáveis, determinados pelo que se entenda ser interesse público.

Assim, é um breve contra os princípios elementares do ofício, por exemplo, dar ao candidato A, que naquele dia só falou abobrinhas e só fez as expressões corporais clássicas dos caçadores de votos (comer pastel na feira, abraçar velhinhas, beijar criancinhas e muitos etc) tempo igual ao candidato B, que naquele mesmo dia fez, digamos, pesadas acusações ao candidato C, ou tomou uma decisão de inegável impacto.

Com isso, some de cena o que os americanos chamam ‘valor de notícia’ – que é o que distingue os fatos de real importância daqueles que não ‘infloem nem contriboem’ e dos factóides, pseudo-fatos construídos pelos marqueteiros e consultores de mídia para parecerem autênticos.

Em consequência, a igualdade formal de oportunidade de acesso à TV acaba tendo o efeito perverso de confundir, logo desinformar, o espectador-eleitor, quando lhe faltam os filtros necessários para separar, do que lhe é dado ver e ouvir, o ouro da pirita.

É, mas de outro modo, dirá alguém, o que impediria a todo-poderosa Globo de privilegiar certo(s) candidato(s) em detrimento de outro(s)? Basicamente, o sistema de freios e contrapesos embutido na tomada de decisões editoriais numa rede que, por sua presença descomunal na mídia, é vigiada atentamente pela concorrência, pelos interessados em receber dela tratamento limpo, pela blogosfera – e pelo povo que não é bobo.

A Globo, ou qualquer outra emissora, pode, ou não, querer ajudar um candidato. Mas, se quiser, é mais provável que não o consiga, do que o contrário – mesmo cobrindo as suas andanças e falações pelos padrões convencionais do jornalismo político fora do período eleitoral.

A razão profunda disso é que nos últimos 20 anos o Brasil mudou mais – e para melhor – do que nós mesmos, brasileiros, conseguimos perceber no dia a dia. Não parece razoável imaginar que, desejando ou não, a Globo ousaria levar ao Jornal Nacional nesta eleição uma versão facciosa de um debate eleitoral que tivesse promovido na véspera, para afundar um candidato e elevar o outro às núvens.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 30/07/2006 Patrícia Valiño

    Caro Luiz Weis, adoro seus textos aqui no OI! Mas vou discordar um pouquinho: acho PERFEITO a Globo dar tempos iguais para todos os candidatos, mesmo que um só tenha comido pastéis e outro tenha feito coisas importantes. Acho que assim nós vemos melhor quem é quem, por comparação. Se o candidato A sempre aparece no JN abraçando velhinhas e o candidato B sempre aparece fazendo alguma coisa útil, vamos rapidamente percerber que o candidato A é uma besta! Sem nenhum dedo do jornal nessa conclusão… Claro que, como na qustão dos tempos rigorosamente iguais que você colocou, existe o ‘framing’, então se a emissora resolver mostrar só as velhinhas do candidato A, desprezando possíveis coisas úteis que ele tenha feito, ele vai passar por estúpido para o público, e talvez ele seja um pouco menos estúpido do que pqrece… Complicado!

  2. Comentou em 25/07/2006 Marcos Poeta Silva

    Todo mundo tem lado. Eu tenho vc tem . A globo também tem. Sempre teve. E qual será o lado dela? Pq o AlKimin aparece sempre por ultimo dando a ultima palavra na genda política do Jornal Nacional?
    A propósito pq será que a justiça alterna a ordem dos candidatos no horário eleitoral? Quem responder certinho vai aparecer no jornal nacional hoje.
    He-he-he!

  3. Comentou em 22/07/2006 Ali kamel

    Diferentemente do que se pensa, a legislação eleitoral, feita pelos políticos visando à própria eleição, é ainda restritiva em relação ao rádio e à TV. As emissoras são obrigadas a convidar para debates partidos que tenham representação na Câmara dos Deputados, no início da legislatura, no dia da posse, mas com base no partido pelo qual os parlamentares foram eleitos. Confusa a fórmula? Explico-a: um partido que elegeu apenas um deputado em 2002 e viu este deputado migrar para um partido concorrente, antes da posse, terá direito a participar dos debates mesmo assim. Antes, era diferente. Este partido, sem deputados, pois o seu migrou para outra legenda, antes da posse, não teria hoje sequer um representante. Mesmo assim, o direito de participar do debate lhe está assegurado. Da mesma foram, a legislação proíbe que as emissoras emitam juízo de valor sobre candidatos e suas políticas. A rigor, esta imposição legal não tem reflexos na política da Globo que adotou como norma não emitir opinião sobre candidatos. Mas, não há como negar, trata-se de uma restrição à liberdade de imprensa. E, pior, dependendo do humor dos tribunais (regionais ou superiores), emitir juízo de valor pode ser algo muito amplo. Se um candidato, numa entrevista diz que sua prioridade é levar o homem à lua, no primeiro ano de governo, a rigor a emissora está proibida replicar que essa proposta é inexeqüível. C

  4. Comentou em 22/07/2006 César Buarque Pacheco

    ‘Em consequência, a igualdade formal de oportunidade de acesso à TV acaba tendo o efeito perverso de confundir, logo desinformar, o espectador-eleitor, quando lhe faltam os filtros necessários para separar, do que lhe é dado ver e ouvir, o ouro da pirita’.

    Acho que com isso o senhor Weis subestima o espectador, ainda que no fim do texto contradiga esta postura. Quando é que faltam os filtros necessários?

  5. Comentou em 22/07/2006 Sérgio Troncoso

    Em minha opinião,a mídia precisa ter uma ótica mais crítica do processo em si.As campanhas são feitas de promessas vazias por todos os candidatos sem excessão.Atrás do voto o sujeito diz qualquer coisa.Não adianta pedir apenas uma campanha com ‘propostas’,há que se ver o quão factíveis são,como operacionalizar o que está sendo proposto.Acho tambem que não faria mal nenhum obrigar os candidatos dizer a palavra ‘não’,ou seja,perguntar o que não fazer e por que.Tambem nós os eleitores somos culpados,sempre queremos um sujeito ‘firme’,que resolve e sabe ‘tudo’.As palavras talvez,vou tentar,não sei,são mortais eleitoralmente,pois o eleitor médio acha isso fraqueza,despreparo.O eleitor quer o sujeito machão,sabe tudo,que tem opinião sobre tudo,corajoso e arrogante,assim êle fica com a ilusão de que tudo irá ser resolvido por seu eleito,inclusive aquilo que quem tem a obrigação de resolver é exatamente o eleitor,pois no Brasil o sujeito faz escolhas erradas de vida,anda com quem não deve,para com o estudo sob falsos argumentos,acha que ética é coisa para os outros,é auto-indulgente.Vive achando que os outros são os culpados de suas mazelas,se não houver um culpado físico obviamente a culpa é dos governos.A saída é primeiramente individual,pessoas melhor preparadas e éticas,costumam fazer países melhores e mais éticos.

  6. Comentou em 22/07/2006 Jorge dos Santos

    A Globo elege ou derruba quem quer, segundo as suas conveniências.
    De forma direta ou subliminar, graças ao enorme universo de eleitores incultos e alienados, o molusco Lula, apesar de toda a sua incompetência e analfabetismo, estará reeleito se ela julgar conveniente aos seus interesses. Só dependerá dela e em face das vantagens futuras que lhes forem oferecidas.
    P.ex., elegeu e posteriormente derrubou Collor mobilizando os alienados.

  7. Comentou em 22/07/2006 Hélcio Lunes

    É apenas um critério Luiz Weis. É óbvio que se algum fato jornalistico ocorrer sera relatado! A Globo já é (sempre foi) criticada por suas coberturas. Imagine se não fixar algum critério. Lá vem a turminha do PT ‘o povo não é bobo abaixo a rede Globo’. Acho injusta essa crítica!

  8. Comentou em 22/07/2006 Ibsen Marques

    Creio que caiba a nós leitores/ouvintes avaliar se o que está sendo dito é ou não abobrinha. De qualquer forma é esperar demais da classe política que de suas bocas saia algo realmente sério, útil e/ou competente. Quanto ao fato de o Brasil estar melhor agora do que a 20 anos me vejo obrigado a discordar, pois, as denúncias dos últimos anos realmente espuseram as mazelas e corrupção do meio político, mas punição que é bom e que garantiria lisura e honestidade mínimos da classe política ainda, como afirma o dito popular, ‘necas de pitibiribas’

  9. Comentou em 22/07/2006 Antônio Goulart

    Luiz Weis escreve com propriedade: esse sistema de equidade da Globo fere o bom jornalismo. No meu caso, por exemplo, sempre que o apresentador anuncia ‘o dia dos candidatos’, mudo de canal, por pelo menos 30 segundos…

  10. Comentou em 21/07/2006 Odilon Rios

    Seu comentário gera reflexão, Weis, porque nao dá para acreditar que em nome do bom jornalismo tenha que se existir espaço igual na TV e no jornal (imagine contar linha a linha, na unha, cada ação do candidato pela opção da ´falsa igualdade´?). Será esse um critério válido? Acredito que as coberturas devam prezar as ações dos candidatos, suas propostas, dando o necessário destaque para cada lado, claro, conforme os fatos, sem encher as tradicionais linguiças. Mas, se formos nos entregar aos fantasmas da falsa igualdade, no lide das matérias vamos ter que começar por alguém… teríamos que fazer um sorteio diário? Tirar na moedinha? Ou na Porrinha?
    Boa reflexão, é bom aprender mais

  11. Comentou em 21/07/2006 Ana Heinsius

    A Globo, e principalmente o Jornal Nacional, transforma qualquer notícia numa novela, sempre pensando na família Simpson, apelando à emoção, mastigando os fatos para serem ‘melhor compreendidos’ , omitindo aqui, resumindo lá, o que ela faz é uma verdadera distorção da realidade. A essa manipulação, somasse a baixa escolaridade do povo e a pouca capacidade de crítica da maioria, e já está pronto o cenário para as novas eleições. Viva a democracia!!

  12. Comentou em 21/07/2006 Maria José Pila D´Aloia

    A lei Eleitoral só permite debates entre os candidatos. Aparição fora do horário elçeitoral gratuito não é permitido. Será que arrumaram uma brecha para burlar a lei eleitoral, se for vai chover denúncias nos Tribunais. Se os telejornais regionais e canais a cabo resolverem fazer o mesmo, os candidatos terão muito tempo para aparecer fora do horário permitido.

  13. Comentou em 21/07/2006 Valmar Hupsel

    De fato, a igual disponibilidade de tempo para todos os candidatos não contribui nem está de acordo com os princípios do bom jornalismo. Mas, de que outra forma se poderia evitar um possível favorecimento de este ou aquele candidato? Não é necessário lembrar que a referida emissora já tem precedentes nada elogiáveis nesta área.

  14. Comentou em 21/07/2006 Guido Gomes

    Não sei se vocês são burros ou ingênuos. A globo sempre fez propaganda de quem tá no poder. Sempre em benefício próprio. Diariamente ela faz campanha a favor do lula, mas apenas o observatório míope não vê isso.

  15. Comentou em 21/07/2006 Fernando Ferreira

    Weis, não subestime o poder da Globo. Se quiser, ela consegue qualquer coisa.

  16. Comentou em 21/07/2006 eduardo ramos ramos

    Os espaços equanimes são primícias de uma democracia realista, e quanto aos que comenterem os ‘deslizes abrobreiros’e ‘fantasias’, cabe a nós eleitores atentos, exercer o nosso direito coercitivo nas urnas.

  17. Comentou em 21/07/2006 EDSON LEMOS

    Discordo,pois a Globo quer determinar até quem pode disputar as convenções partidárias,sendo alguém que ameace ‘seus’ escolhidos,traz à tona fatos(guardados na manga,quando deveriam ser noticiados para ajudar o cidadão a conhecer melhor os homens públicos) afim de eliminar o provável candidato,que o digam Sílvio Santos em 1990 e Anthony Garotinho em 2006.

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