Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Um jornalista político sob a ditadura

Por Luiz Weis em 27/05/2009 | comentários

Além de um punhado de erros factuais, a notícia da morte do jornalista e advogado D’Alembert Jaccoud no Estado desta quarta-feira, 27, não dá ideia de que, pelo rigor e a integridade, ele foi um dos melhores repórteres e comentaristas políticos das décadas de 1960 e 1970 no Brasil. Pressões do regime militar tiraram D’Alembert de dois jornais, a Folha e o Jornal do Brasil.


No caso do JB, as pressões vieram diretamente do chefe da Casa Civil do governo Médici, João Leitão de Abreu. Praticamente banido da imprensa, D’Alembert foi exercer a advocacia. Ele era já formado em direito quando se tornou jornalista.


Não sem relutância, aceitou ser resgatado para o ofício no começo dos anos 1970 por iniciativa de Zuenir Ventura, diretor da sucursal carioca da revista quinzenal Visão, quando ela passou a ser dirigida por Luiz Garcia (hoje, como Zuenir, colunista do Globo). Baseado em Brasília, D’Alembert ajudou a fazer da Visão uma publicação respeitada pelo seu nível, densidade e independência – apesar da ditadura. O seu editor cultural, a propósito, era Vladimir Herzog, que morreria torturado no DOI-Codi em 1975.


Quando o dono da Visão, o publicitário Said Farhat, a vendeu ao empreiteiro Henri Maksoud, em 1974, Zuenir, Garcia e D’Alembert se demitiram. Mais tarde, D’Alembert assumiu a chefia da sucursal de Brasília da revista Veja.


Dela foi demitido em 1978 por motivos políticos – a direção da revista em São Paulo estava em guerra com o diretor da sucursal, o veterano modernizador de jornais Pompeu de Souza. A Veja apoiava o general João Batista Figueiredo à sucessão do presidente Geisel. Pompeu simpatizava com a candidatura do general dissidente Euler Bentes Monteiro à eleição indireta daquele ano .


A posição de Pompeu em nenhum momento tornou menos isenta a cobertura política comandada por D’Alembert. Já a direção da semanal não se inibia em editar com mão pesada as matérias apuradas em Brasília – naquele tempo, a Veja ainda não tinha adquirido a merecida fama de ser o mais faccioso órgão da grande imprensa nacional.


Exemplo de distorção foi o que saiu da matéria com que D’Alembert e equipe tiraram a limpo as dúvidas sobre a adesão do MDB à candidatura Euler. Um cuidadoso levantamento junto aos diretórios do partido nos Estados os levou a concluir que a sigla caminhava para apoiar o general no colégio eleitoral.


A versão canetada da reportagem admitiu que os defensores dessa linha eram maioria na agremiação. Mas, na contramão dos fatos, bancou com arrogância que “tudo vai correndo como deveria correr e que, no fim, acontecerá o que deveria acontecer. Ou seja: muito vai se falar, muito vai se brigar, mas o MDB deverá acabar sem candidato”.


O MDB acabou lançando Euler, como D’Alembert antecipara. E ele acabou fora da Veja e do jornalismo – dessa vez, sem volta.


Morreu domingo de câncer, pouco antes de completar 75 anos.

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  1. Comentou em 29/05/2009 Olga Bardawil

    Mais do que uma alternativa profissional, na min ha opinião, a advocacia foi para o D´Almbert uma forma de se manter ‘na trincheira’ quando as portas do jornalismo e tornaram estreitas demais para ele. Foi uma questão de coerencia. Eu disse isso a ele, alguns anos depois, quando nos encontramos num jantar. Mas ele discordou, com aquele seu jeito manso, afirmando que não se sentia um soldado. ‘Sou mais lavrador’. disse sorrindo.
    Dá pra imaginar a alegria do velho Pompeu ‘lá em cima’.

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