Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Um ‘rolezinho’ dos leitores de jornais

Por Carlos Castilho em 22/01/2014 | comentários

Se há um segmento da sociedade brasileira que está precisando tornar visíveis os seus desejos e necessidades, este é o dos consumidores de jornais, revistas, telejornais e páginas noticiosas na web. O mundo mudou e as demandas da população também, mas a imprensa continua agarrada a um modelo que mostra evidentes sinais de desgaste. 

Temos hoje um déficit crescente de dados e informações capazes de dar à sociedade elementos para a tomada de decisões numa conjuntura cada vez mais complexa e interconectada. Opções relativamente simples – como comprar um equipamento doméstico – dependem cada vez mais de dados que permitam a escolha do produto certo, no preço adequado. Um estudo norte-americano mostrou que metade dos consumidores locais compram produtos inadequados por falta de informação.

Se formos estender a demanda de informações para questões mais delicadas como relações humanas, saúde e problemas legais, a carência de dados é ainda mais dramática porque cada caso é especifico de um determinado contexto social e individual.

O problema existe porque a imprensa precisa associar a oferta de conteúdos informativos à venda de publicidade comercial para sobreviver como negócio lucrativo. Nada contra existência de empresas, só que esse modelo de negócios não consegue suprir a demanda por dados e informações ligadas às necessidades da população, sem depender de patrocínios e anúncios.

No caso da polêmica sobre os rolezinhos, a cobertura da imprensa revelou-se deficiente não porque os repórteres e editores sejam despreparados, mas porque a publicidade dos shoppings força as empresas a buscar abordagens que não comprometam receitas futuras. Nessas condições o público fica sem elementos reais para poder posicionar-se diante de uma questão que provocou insegurança na classe média urbana de várias capitais brasileiras.

Estamos diante de uma situação em que os consumidores de informações acabarão sendo levados a promover o seu próprio rolezinho para que as empresas jornalísticas percebam o que a luta por sobrevivência financeira não as permite ver claramente. É a busca de visibilidade dos leitores para a demanda insatisfeita por dados e informações para o dia a dia das pessoas. Dados e informações que permitam às pessoas fazer opções de acordo com suas necessidades e contexto social, em vez de suas escolhas serem condicionadas pela publicidade.

Também nada contra a publicidade, que é necessária e insubstituível. O problema é os publicitários identificarem claramente o que é propaganda visando negócios e a que está voltada para necessidades reais da população. A guerra publicitária das operadoras de telefonia e de televisão é um exemplo de como a confusão proposital de dados e informações transforma uma opção de compra num desafio que pode acabar na escolha inadequada às necessidades do consumidor.

A primeira coisa que a imprensa deveria fazer para atender à insegurança informativa da população é procurar, de forma sistemática e continuada, ensinar as pessoas a lidar com a informação. São raríssimos os indivíduos que tornaram rotineira a checagem de dados e informações de qualquer natureza. Na era da abundância informativa, não dá mais para confiar numa única informação. Lidar com a informação implica uma série de hábitos e valores novos que ainda não foram incorporados ao dia a dia das pessoas. Hábitos tanto na hora de dar uma informação quanto na de usá-la. O problema não está só nos espertalhões ou irresponsáveis, mas na crescente diversificação das percepções de um mesmo problema.

Antes da internet, como havia poucos canais de comunicação, a informação era escassa e geralmente limitada a um número muito reduzido de fontes. Na era digital, tudo isso mudou. Milhões de pessoas passaram a publicar suas percepções e um mesmo fato, dado ou evento passou a ser percebido de forma diferenciada e não necessariamente falsa. É a velha questão do copo meio cheio ou meio vazio reproduzida dezenas ou centenas de vezes para uma mesma situação. Não se trata mais de distinguir apenas entre o certo ou errado, mas principalmente entre o melhor e o pior para uma determinada situação pessoal ou de grupo.

Aprender a lidar com a informação é talvez o nosso grande desafio em tempos de ação coletiva de vários segmentos sociais, todos buscando visibilidade pública num contexto cada vez mais complexo. Os leitores precisam cobrar isso da imprensa. 

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