Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Um modelo de carta de leitor

Por Luiz Weis em 05/08/2007 | comentários

Cartas de leitores na mídia impressa e mensagens de leitores em sites e blogues existem para todos os gostos. Conforme as circunstâncias, são menos, ou mais, apaixonadas; menos, ou mais, agressivas; menos, ou mais, refletidas; menos, ou mais, indiferentes aos fatos.


Raras, em geral, são aquelas cujos autores se deram ao trabalho de fazer a lição de casa, antes de se pôr a digitar suas opiniões – quaisquer que sejam.


O que se lerá a seguir é uma carta publicada anteontem no Boston Globe, da cidade de mesmo nome em Massachusetts, Estados Unidos. O autor se chama Richard M. Nasser. O assunto não tem nada a ver com o Brasil. Mas a construção de sua mensagem tem tudo a ver com um componente fundamental da atitude do público em relação à imprensa, onde quer que seja.


Transcrevo-a, traduzida, porque me parece um modelo de manifestação: atenta, fundamentada, rica em substantivos e econômica em adjetivos e advérbios. É um exemplo de observação de mídia, em que o observador entra no assunto sabendo do que diz – e, principalmente, sem bater.


O jornal a publicou sob o título ‘Pondo palavras na boca do Irã’. Lá vai:


“A matéria da Associated Press de 30 de julho, ‘Citando a ameaça iraniana, Olmert apóia decisão americana de aprimorar o arsenal saudita’ (página A8) repete a acusação de que o líder do Irã ‘repetediamente pregou que Israel fosse varrido do mapa’.


Uma simples pesquisa na web sobre o discurso em questão mostrará que o presidente Mahmoud Ahmadinejad disse, na realidade, que ‘o regime que ocupa Jerusalém precisa desaparecer da página do tempo’, comparando o destino do sionismo ao da União Soviética – uma anomalia histórica cujas contradições internas demonstrarão serem insuportáveis.


Note o termo passivo ‘desaparecer’, não o ativo ‘varrido do mapa’. Note ‘regime’, não ‘Israel’. Note que a palavra que designa ‘mapa’ em farsi [o idioma falado no Irã] não consta do original, sugerindo ainda mais que Ahmadinejad se referia a um sistema político, não a um país.


Não estou interessado em reabilitar o ridículo Ahmadinejad, nem em discutir os méritos do sionismo. Simplesmente lembro como as fabulações das armas de destruição em massa nos prepararam para a guerra no Iraque e estou inquieto com o potencial dessa nova lenda para provocar um desastre semelhante.”



***



Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.


Todos os comentários

  1. Comentou em 15/10/2008 Bruno Viga

    coincidência ele ter aparecido de tanga na novela? Alguém lembra ou ouviu falar deste
    episódio com algum dos candidatos? Mensagem subliminar? Quero deixar claro que
    não tenho nada contra o ator.
    Além da mídia, apesar da tecnologia das novas urnas, que em minha opinião são
    mais fraudáveis que as de cédula, o voto de cabresto parece ter corrido solto em todas as
    regiões do país, principalmente nas regiões dos interiores. Denúncias de candidatos
    pagando pessoas para vestirem a camisa literalmente, sextas básicas… Pois é, quando
    pensamos que as coisas estão melhorando, surgem estes fatos. Até quando teremos
    esperanças?
    Enfim. Acho q pela primeira vez fico no Nulo. Mas, creio que ATÉ o Eduardo
    Paes seria melhor que o Gabeira.
    Sou estudante e a minha intenção é de que este texto sirva apenas como meio de
    reflexão. Não quero criar polêmica.
    Abraços e boa sorte pra nós. Depois não reclamem.

    Bruno Viga Coelho

  2. Comentou em 08/08/2007 thomaz magalhães

    Investigar a imprensa brasileira pelo que informou? Se da hora que foram pegos, no pôr do sol de uma quinta-feira até domngo quando desembarcaram na ilha nem 72 horas se passaram! Investigar a lerdeza da imprensa, seria isso? Pelo jeito seria o caso também de investigar o Estadão poque não fez um editorial a respeito da ação da KGB petista na devoluçã dos fugitivos para as masmorras da ditadura de Fidel Castro. Ou para a ‘sala de visitas’, onde os infelizes, suas mulheresres e filhos estão ‘hospedados’.

  3. Comentou em 07/08/2007 Alexandre Carlos Aguiar

    O engenheiro André Martins aí abaixo matou a charada. Pau que bate em Chico, na mídia PSDBista nacional, dificilmente é o mesmo que bate em Francisco. Por que será que esqueceram a Gautama e batem severamente em Renan Calheiros? O senador não é um primor de Ética e Estética, mas só ele? E a dona Veja? Por que começou a bater no governo, e em seus aliados, depois que suas dívidas não foram arroladas? Ou seja, tanto a mídia de lá como a de cá carecem da reflexão que os leitores fazem. Mas quem disse que leitor é importante? É apenas um consumidor de mídia, ou aquele que vai à banca comprar o jornal.

  4. Comentou em 07/08/2007 Paulo Bandarra

    Eu entendi que é sobre as distorções que fazem a cabeça dos leitores que eles reagem medularmente por elas! As manipulações que somos submetidos e que passamos a não questionar! Por exemplo, por que o Boninho colocaria éter, que é conservante, nos ovos que iria supostamente jogar nos outros para ficarem podres?

  5. Comentou em 07/08/2007 Paulo Bandarra

    Caro estudante Felipe Faria, algumas respostas você poderia encontrar no livro de um filho de sobrevivente dos campos de concentração nazista, Norman G Finkelstein, A Indústria do Holocau$sto – Reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus (e eu acrescentaria, pelos próprios judeus)! É justamente sobre o que Luiz Weis reflete nesta matéria! Mentiras rendem lucros astronômicos e justificam guerras injustas quando manipulados pela mídia!

  6. Comentou em 07/08/2007 Marcio Batista Martins

    Renan acusa ´´Veja´´ de ´´denúncia falsa´´ e venda ´´nebulosa´´

    O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), encaminhou nesta segunda-feira (6) uma carta a cada um dos 80 senadores com diversas acusações contra a revista Veja. De acordo com o senador, a publicação da editora Abril faz denúncias ´´falsas´´ na reportagem central desta semana.

  7. Comentou em 07/08/2007 Felipe Faria

    Então, Bandarra, deveria os EUA abdicar unilateralmente de seu arsenal atômico? Ou Israel se mudar para Manhatan?

  8. Comentou em 06/08/2007 marina chaves

    realmete uma bela carta…… exemplo a ser seguido….. o autor conseguiu perceber o quanto da declaraçao do presidente do irã estava sendo manipula por um orgao de imprensa especifico…… foi buscar a declaraço original e comparou com a que viu estampada na midia….. e o momento indica que os animos estao exacerbaos, quero dizer, o que a midia estampou pela a primeira vez volta e meia reaparece, como um fantasma para nos assustar…… é um texto de folego……. sinceramente, ainda nao cheguei a tal nivel de perfeiçao, na hora de emitir uma opiniao……… acho que mais erro do que acerto……… mas adoro participar aqui, pois alem de ter o vicio de escrever, ainda quero aprender…… este espaço é valioso…… se eu errar , mereço um puxao de orelha!

  9. Comentou em 06/08/2007 Caetano Greco Junior

    Modelo de artigo discriminatório.

    P.S.: Jornalista Luiz Weis, alguns de seus comentários não aparecem.

  10. Comentou em 06/08/2007 Luiz Rodriguez Noriega

    Gostaria também que observatório da imprensa voltasse a discutir mais a relação entre colunistas e leitores. Eu, que sou um fanático da BBCMundo.com, me recordo quando o colunista mexicano Miguel Molina, em diario de un reportero, fez várias críticas a invasão do Iraque em 2003. As mensagens dos leitores não demoraram chegar, muitas delas eram agressivas. Em resposta, sob o título de Cartas de los lectores, ele fez uma bela reflexão num texto elegante e com boa dose de humildade. A meu juízo, uma lição para jornalistas e leitores. Segue o link pra quem quiser http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/misc/miguels_column/newsid_2985000/2985347.stm

    Em um texto recente da mesma coluna, sob o título de Mi relación con Gordon Brown, Miguel traz de volta essa discussão acrescentando o exercício da imparcialidade http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/misc/la_columna_de_miguel/newsid_6229000/6229744.stm

    Enfim, não há profundidade alguma nessas reflexões de Miguel Molina, mas fica claro que pra ele todos têm direito de criticar a imprensa, preservado o respeito mútuo, óbvio. Pra Luiz Weis só podem criticar aqueles que ‘se deram ao trabalho de fazer a lição de casa’. Suponha um leitor que pouco sabe ler e escrever, dissesse que seus textos, Luiz Weis, são ruins, digamos, díficeis de entender. Como o senhor reagiria? O leitor semianalfabeto tem direito de opinar sobre sua coluna?

  11. Comentou em 06/08/2007 Teo Ponciano

    ‘…porque me parece um modelo de manifestação…’
    Já que Luiz Weis nos ‘brindou’ com este modelo de manifestação, continuo aguardando que ele nos brinde com o que ele poderia chamar de ‘modelo de matéria jornalística’.

  12. Comentou em 06/08/2007 André Martins

    Se um brasileiro reclamasse do uso repetitivo e fora do contexto do ‘relaxa e goza’ ou do ‘top top top’ como propaganda política antecipada, esse leitor seria um exemplo de observador da imprensa ou um petista raivoso e autoritário que enxerga um complô da mídia onde só existe liberdade de imprensa?

  13. Comentou em 06/08/2007 Paulo Bandarra

    Pois este é o paradoxo da imprensa. Atribuia-se a ingorância e ao desconhecimento do passado as manipulações das pessoas em fabricação de guerras e de fanatismo religioso! No entanto hoje em dia se faz de maneira mais fácil, mesmo contando com o maior complexo mundial de informação da história da humanidade! Um simples caso de atribuir ‘armas de destruição em massa’ pelo maior proprietário delas ao país que deseja dominar é o suficiente para justificar a ação!

  14. Comentou em 06/08/2007 Paula Milkevicz

    Acho que é melhor você esclarecer aquilo a que se refere. Se você não quer as bobagens dos leitores de seu blog, diga com mais clareza. Muitos conhecem a língua portuguesa escrita de maneira direta e objetiva. Quanto ao texto eu não fiz essa lição de casa a ponto de perceber as sutilezas da língua comentada. Mas sei o que é arrogância e desprezo.

  15. Comentou em 06/08/2007 Luiz Rodriguez Noriega

    É verdade. Há leitores usando este espaço para mostrarem seus ‘talentos’, creio que isso está relacionado a ausência de educação familiar, como respeito, tolerância, etc. Pelo parágrafo 4 do texto, Luiz Weis, deixou em mim a sensação de que este espaço é reservado pra pessoas de fina sabedoria. Um professor quando entra numa sala de aula, tem muito a ensinar e os alunos muito a aprender. Os mestres, que não são arrogantes, gostam e incentivam os alunos a participarem das aulas. Caberia ao sr., Luiz Weis, perguntar por que professores querem ouvir alunos que isoladamente têm tão pouco a contribuir? Talvez pra se ter uma noção do pouco que os alunos assimilam do muito que os mestres lhes ensinam. Talvez pra deixar a aula mais dinâmica, ou talvez pra passar o tempo. De qualque forma, independente do objetivo, havendo respeito mútuo, há aprendizado mútuo de diferentes níveis e natureza pra cada parte envolvida. Imagino que quando um blog não recebe comentários, deve ser tão chato para o blogueiro quanto uma aula que os alunos não participam e só o professor fica falando. Daí, penso que mesmo os comentários menos refletidos, mais indiferentes, mais ou menos apaixonados, são válidos, pois se permite saber o quanto um assunto abordado é visto pelos leitores de diferentes níveis de formação escolar, profissional, etc. Isso também faz parte do exercício de sua profissão. Ou não?

  16. Comentou em 05/08/2007 Paulo Fessel

    Bem posto. Mas até que ponto sua visão do que é o Irã ou é o seu presidente não é distorcida por tudo o que as agências internacionais dizem dele? Ou ‘duas dúzias de agências de notícias não podem estar erradas?’

  17. Comentou em 05/08/2007 Felipe Faria

    Palavras tem consequências, Discursos fascistas numa lingua pouco conhecida, cheia de sutilezas com as quais não podemos lidar estão sujeitos a interpretações. Israel, que foi quem esperneou contra o discurso, tem milhões de razões para se preocupar com sua segurança, e o líder iraniano sabe disso. É só ler as manchetes árabes antes da Guerra dos Seis Dias. Eram apenas retórica?

  18. Comentou em 05/08/2007 João da Luz

    Gostaria muito de ver jornalistas do OI e da imprensa em geral, escrevendo como esse Nasser.
    Belo exemplo. Mirem-se nele.
    João da Luz

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