Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Um raro olhar da mídia ao espelho

Por Luiz Weis em 19/05/2006 | comentários

Se tem uma coisa que a mídia brasileira cobre mal e porcamente é a mídia brasileira.

O pouco que sai sobre o setor trata quase sempre do negócio da comunicação.

E mesmo assim quando se trata de informações “neutras” sobre investimentos, acordos comerciais, relações com a publicidade.

Que eu me lembre, apenas a Folha publicou há alguns anos um materião sobre a crise dos conglomerados de mídia – sem se excluir dela – que dizimou redações inteiras.

Agora, notícias e análises de políticas e decisões editoriais são raridades. Colunas de pirulitos a respeito estão a anos-luz de preencher a lacuna.

A imprensa brasileira age como se no mundo de hoje, e tanto mais nas democracias de mercado, a mídia não fosse ela mesma, objetivamente, protagonista das realidades de que se ocupa.

O pacto tácito de silêncio se justificaria pelo potencial conflito de interesses embutido em cada reportagem ou comentário que um periódico publicasse sobre o concorrente.

Mas se assim fosse, no mais competitivo ambiente que se conhece – os Estados Unidos – jornais e revistas não teriam editorias de mídia para cobrir o setor como outro qualquer e analistas de mídia, que entrelaçam nos seus textos apurações e interpretações.

Se colossos como o New York Times, o Los Angeles Times e o Washington Post podem escrever sobre si mesmos e a competition por que os nossos jornalões não podem fazer o mesmo – indo além, por exemplo, da semanal avaliação crítica assinada pelos ombudsmans da Folha.

Na Inglaterra, o país ocidental com a maior e mais diversificada oferta de diários, sabem quantos textos sobre mídia – em sentido amplo, abrangendo assuntos de publicidade e internet – saíram hoje nos 10 jornais mais lidos no país inteiro?

52.

Aqui em São Paulo foi preciso rebentar a guerra do PCC para que os jornais líderes, Folha e Estado, encarassem hoje – no sétimo dia da crise – o tema do papel dos meios de comunicação em um quadro de grave comoção pública, como escreveria um editorialista.

Mesmo assim, a Folha preferiu dar suas duas únicas matérias a respeito – “Governo diz que entrevista é falsa” [sobre a reportagem do Jornal da Band do fim da noite de quarta-feira com o chefão do PCC, o Marcola] e “Tvs ajudaram a criar pânico, diz ombudsman” [a partir do que o ouvidor da TV Cultura, Osvaldo Martins, publicou no site da emissora] -– numa página cujo título principal é “Hotéis perdem 60% de hóspedes esperados”.

O Estado pelo menos compensou parte do atraso com uma página inteira sobre a mídia e a crise na segurança.

Nela, não só a matéria sobre a duvidosa entrevista da Band é maior que a do concorrente (113 linhas de coluna ante as 90 da Folha) como ainda aparece um fotão mostrando, conforme a legenda, “pedestre diante de uma loja de eletrodomésticos, no centro de São Paulo, para acompanhar o noticiário”, com a TV em segundo plano exibindo armas em close.

E mais: uma matéria sobre o recorde de audiência do RedeTV! News e as críticas ao programa da major Maria, chefe interina de comunicação social da PM. Além de desmentir diversas informações do telejornal ancorado por Marcelo Rezenda, ela acusa a emissão de aterrorizar a população.

”As linhas do 190 congestionaram, as pessoas ligavam em pânico”, relatou. E “quando eles [a RedeTV!] desmentiram alguns dados, era tarde. O impacto já havia sido criado”.

Esse pacotinho já estaria de bom tamanho, considerando a ínfima cobertura que a mídia nacional oferece de si ao leitor. Mas o Estado lhe acrescentou uma breve e substancial entrevista do professor Renato Janine Ribeiro, que leciona Ética e Filosofia na USP – “A TV está contribuindo só para que a sociedade se torne mais vingativa”, avaliou ele – e uma original reportagem de Fabiano Rampazzo sobre a (ir)responsabilidade na internet, onde se multiplicam falsos alertas, mas também se organizam passeatas para o Dia da Dignidade Nacional [depois de amanhã] em várias capitais.

Serão necessários outros atentados e matanças para a imprensa se expor de novo, e bem mais do que agora, ao público a que deve servir?

Ver, a propósito, as notas “Síndrome de pânico em SP”, de 17/5, e “PCC na TV: o que não se deve esquecer”,de 15/5.

***

Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/05/2006 Carlos Mendes

    Midia.
    Previsivel a midia. Tão previsivel que não estranhei quando ouvi jornalistas das Organizações Globo usarem 3 vezes (uma no canal aberto e duas no GloboNews) a expressão ‘exploração politica’ ao se referirem a comentarios sobre a violencia em São Paulo. So achamos o que queremos encontrar. Como não foi encontrada ‘exploração politica’ nas longas declarações de ACM Neto ou Jorge Bornhausen durante as CPIs dos ultimos meses.
    Midia DEVERIA ser informação. Mas no Brasil, ela se enrolou tanto em rabos presos e favores que praticamente so sobrou espaço para a opinião. E que ninguem ache que isso ë bom. Muito pelo contrario.

  2. Comentou em 20/05/2006 Radamés A. Pereira da Silva

    A “URNA OI” com a seguinte questão: “As denúncias vazias de Veja colocam a credibilidade da imprensa em xeque?” apresentava no sábado 20 de maio as parciais de 90% sim e 10% não, com um total de 1691 votos.
    A indústria de torrefação de café criou um selo de qualidade, o mesmo foi feito com os colchões de espuma. Aparelhos elétricos, como geladeiras, por exemplo, tem um selo indicativo do consumo de eletricidade.
    A situação atual da imprensa vai também tornar necessário, para sua sobrevivência, a criação de um selo, seria um “selo de credibilidade”, atribuído pela própria associação de imprensa na qual o veiculo esteja vinculado, sem qualquer interferência do poder público. Todo veículo que fizesse matérias sem um mínimo de respeito à ética jornalística perderia o selo, e também perderia o selo quem fizesse publicidade como se fosse matéria jornalística, tais como: capas ou primeira página para lançamento de livros ou filmes, classificação de restaurantes mediante pagamento, etc.

  3. Comentou em 20/05/2006 Jaqueline Ruza

    De fato, se a própria mídia nacional exercitar verdadeiramente a auto-análise do seu papel, principalmente num período tão conturbado, como na última semana em SP; se o profissional da comunicação permitir-se repensar sua própria prática; se as corporações atentarem para a ‘nova ordem mundial’onde cidadãos como eu e você exigem, e esperam, a transparência, a informação ética, a conduta lógica, enfim o respeito. Talvez…veja bem…talvez estejamos iniciando a dura caminhada para uma sociedade verdadeiramente democrática, onde cada um assuma seu papel. Mas cá entre nós..que a Major Maria da PM, acertadamente chapoletou, e com muita propriedade diga-se, o âncora Marcelo Rezende e seu desiformado(mais perdido do que cachorro em dia de mudança) piloto do helicóptero da emissora…ah…chapoletou sim…

  4. Comentou em 20/05/2006 Halem Souza

    Acho que está mais do que na hora de se pensar num regime de regulação das empresass de mídia. Sem querer defender o fim da liberdade de expresão, também não quero aqui parecer o rei da ingenuidade e esperar que grandes grupos empresariais, que vendem notícia e entretenimento, vão de livre e espontânea vontade se auto-regualarem, sem algum tipo de controle e pressão da sociedade.

  5. Comentou em 20/05/2006 Alan Gutuzzo Fernandes

    A televisão está fadada ao fracasso. Por não emitir mais informações úteis à população ela se torna um meio de comunicação de alienação em massa. A mídia precisa revisar seu objetivo, pois nota-se um distanciamento do seu papel de crítica.
    Em minha casa uso-a apenas para assistir filmes. Uma das poucas funções que ela, ainda, exerce a meu favor.

  6. Comentou em 20/05/2006 RICARDO MINZE MINZE

    A QUEM A IMPRENSA ESTÁ SERVINDO ?

    CREIO QUE O PAPEL DA IMPRENSA NÃO SE RESTRINGE SOMENTE
    A DIVULGAÇÃO DO QUE ACONTECE EM NOSSA VOLTA, MAS TAMBÉM O
    DE AVALIAR DE FORMA PROFUNDA,CRITERIOSA E IMPARCIAL MATÉRIAS
    DE INTERESSE NACIONAL, ESCLARECENDO AO PÚBLICO O CONTEÚDO
    DELAS.A IMPRENSA BRASILEIRA PRECISA TER UMA IDENTIDADE PRO-
    PRIA E AGIR COM ISENÇÃO E QUALIDADE JORNALÍSTICA.O PAÍS TEM
    EXCELENTES JORNALISTAS DE VISÃO E CONHECIMENTO,PREPARADOS
    PARA OFERECER O MELHOR POSSÍVEL.PORÉM, NO MEU ENTENDER,SINTO
    QUE A PREOCUPAÇÃO COM A CONCORRÊNCIA E O IBOPE, TEM OFUSCADO
    O SEU OBJETIVO.

  7. Comentou em 20/05/2006 Wilson Oda

    No Brasil se costuma dizer que é anti-ético falar mal dos concorrentes. A mídia incorpora como ninguém essa suposta ética.
    Para mim, a impressão que passa é que os jornalistas de uma maneira geral são censurados pelos patrões. Basta ler as colunas da folha e do estadão, são tão iguais, uniformes, na forma e no conteúdo
    que dá a sensação que foram escritas por uma só pessoa.

  8. Comentou em 19/05/2006 Mauro Mendonça

    Seria muito oportuno colocar a indagaçao ao Ministerio das Comunicaçoes sobre a necessidade de um orgao regulador das Emissoras de TV , a exemplo do OI , poderia ser criado o OTV , com espaço diario de discussao sobre o que se faz na televisao brasileira… Muito se discute sobre a Tv Digital , seria oportuno uma discussao a respeito de canais de TV que poderiam ser exibidos para toda a sociedade , sim , e porque nao ja pensar em bloquear certos programas … Com a Tv digital nao sabemos ainda se existiria uma forma de deixar sim os presos assistirem Tv , porem com canais educativos e profissionalizantes…

  9. Comentou em 19/05/2006 leandro carneiro

    O que me coloca mais medo é um possível glamour da violência que a mídia possa passar. Conspirando, talvez mais uma arma para a política do medo e o total controle sobre nossas ações.

  10. Comentou em 19/05/2006 Marco Antônio Leite Leite

    A mídia Brasileira não cobre absolutamente nada. Esta pobre mídia que ai está, só defende interesses de seus patrões e da escol quatrocentona. Marco

  11. Comentou em 19/05/2006 Rodrigo Ribeiro de Castro

    COMENTÁRIO BREVE
    Atacamos o governo,sempre.Julgamos os políticos,quase imputáveis.Condenamos os bandidos,ou não.
    Sobre Veja:rasgou suas páginas levando a confiansa dos leitores.Compromete-se assim a supremacia da imprensa,no pensamento de alguns,mas ela mesma não se manifesta contra seu delitos.Neste momento julgamos Veja,atacamos a com infinitos argumentos.Condena-la?Ja esta condenada,pela opinião que tantas vezes ela ajudou a formar.Qual seu crime?Paira no ambito politico ou da bandidagem suja?Talvez em nehum,talvez seu crime seja o de indiretamente atacar seu leitores fazendo reportagem tão infundada,tão porosa.
    A cada dia novos acontecimentos… Candenados,nem políticos bandidos,nem uma parte da imprensa que age com tal.É breve a mentalidade do brasileiro,infelismente….É ano de elição.

  12. Comentou em 19/05/2006 Fabio Martins

    Não por ter 76 anos, ´desde muito cedo aprendi sobre o desimportante papel de querer ser visto, em qualquer palco. Apareço às vezes aqui por ser imperioso até mesmo agradecer o autor destes textos. Assim, na pessoa dele agradeço tb. a todos autores e autoras de bom senso, no mundo jornalistico em especial. Urge, importa soterrar omissões, imprecisões, exageos. E coluninhas de pirulito. E espaços de namométrico valor informativo sobretudo em Teleisão, onde modismos despontam como sendo inicio, meio e fim de todas as verdades. Dentre eles destaco certas divulgações, emlambuzadas de toque emocional e edificante. E´mais do que hora para de fato quem precisa olhar-se no espelho.

  13. Comentou em 19/05/2006 MCostaSantos Santos

    Para termos uma sociedade justa e com seus direitos civis é necessário que os parlamentares a nivel federal, estadual e municipal sejam sérios. E, como não são e como, também, os poderes constituidos deste país estão todos corrompidos e se utilizam de meios covardes como CORPORATIVISMO, PROTECIONISMO E SEUS COMPONENTES DESPROVIDOS DE PATRIOTISMO E CIDADANIA, o povo só conta com o apoio da OAB, ABI, CREA. CRM, CRO, CRA, CRC etc para agilizar as reformas do judiciário, tributária e política.
    Há 18 anos está engavetado no Congresso o ‘Código de Defesa do Contribuinte’ e enquanto isso, por interesse dos parlamentares, o povo é acharcado indecentemente e covardemente.
    E o único meio de nos comunicarmos é pela imprensa e agora pela internet.
    O povo clama por seus direitos civis.

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem