Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1070
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Um tabuleiro de xadrez

Por Mauro Malin em 19/06/2007 | comentários

José Cláudio Souza Alves afirma que a visão da mídia carece de melhor conhecimento dos fatos: uma vez lhe perguntaram se o uso do Caveirão não se justificava diante do poderio bélico dos traficantes. E ele respondeu que quem vende armas para os traficantes são policiais. Essa interpenetração entre policiais e bandidos torna a realidade do Rio de Janeiro um complexo tabuleiro de xadrez.


José Cláudio Souza Alves – Eu dei uma entrevista para a Rede TV! e veio uma pergunta que é sempre feita: “O Caveirão não é necessário para o controle? O aparato bélico que o outro lado possui é muito poderoso”. Então, se justificaria o uso do Caveirão. Eu falei para o repórter: “Quem vendeu aquelas armadas todas para eles foi a polícia. Por que botar agora um Caveirão, nesse patamar de confronto, se a polícia está alimentando?” “Ah, entrou-se no Alemão, a justificativa era para remover um paiol de armas”. A pergunta não é essa. É a seguinte: quando tempo você acha que vai demorar para o paiol ser recomposto? Uma semana? Duas semanas?


Chegou-se a um patamar a partir do qual mesmo que se queira respeitar os códigos, os códigos nas favelas são quebrados periodicamente, nesse jogo de interesses. Uma operação policial, ou é o Caveirão, ou é o Bope, ou é uma jogada para se quebrar um grupo e entrar outra estrutura de tráfico que possa disputar esse dinheiro. Essa dinâmica das favelas, hoje, também é desconhecida. Você tem “n” coisas. Uma, na Rocinha, era assim: “A mulher do Dudu tem um genro que trabalha no Core que ficou de dizer quando é a operação”. Os caras da favela sabiam! O piloto do helicóptero do governo do estado do Rio de Janeiro sobrevoava áreas para fazer o mapeamento da invasão da Rocinha.


Paulo Baía – Isso é “ausência do Estado”?


J.C.S.A. – Tem-se hoje um grau muito elevado de complexidade. Nós mesmos que estamos estudando, vocês, jornalistas, mesmo com toda a regulamentação… [Regulamentação do trabalho de jornalistas em favelas, feitas pelas direções dos meios de comunicação, mencionada anteriormente por Sérgio Torres.] O Tim Lopes tornou-se o exemplo de um tipo de jornalismo. Filmar cenas de venda de drogas. Ele foi o que mais avançou nesse terreno. Acabou caindo. Mas mesmo que você se resguarde, hoje você não tem proteção. Algumas favelas, sim. Vila Operária, favela lá de Duque de Caxias. Favela aberta, várias ruas já formam bairros, é um tipo de favela onde se tem mais tranqüilidade. Beira-Mar, por exemplo, é impossível. Fica do lado. É atravessar a [rodovia] Washington Luís [Rio-Petrópolis] e se chega em quinze ou vinte minutos. Tem só uma entrada. A polícia controla, o tráfico controla, você está lascado. Tem geografia, tem lógica do poder. Hoje isso virou um quebra-cabeças, um jogo de tabuleiro de xadrez. Você tem que saber que peça foi movimentada e quais jogadas vão se seguir.


Andrelino Campos – É impossível destacar sempre, não tenho aqui o número exato, mas mesmo neste momento se formos ver o número de comunidades enquadradas como violentas, vamos chegar no máximo a 15% das comunidades. Só que esses 15% ganham visibilidade.


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