Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Uma atrocidade e duas notícias

Por Luiz Weis em 18/12/2007 | comentários

A banalidade do mal é um problema para a imprensa. Se o homicídio fosse uma raridade, cada caso seria manchete. Em São Paulo, faz pouco, houve um dia sem uma única morte violenta. Foi notícia.

Agora, para virar notícia de chamar a atenção, um crime precisa ser distinto – literalmente. Essa, pelo menos, é a lógica do jornalismo “que vende”.

Por esse critério, violência polícial é notícia velha. Que pode haver de essencialmente novo na história de um adolescente preso por suspeita de roubo e que aparece morto – a choques elétricos?

Nada, deve ter raciocinado quem decidiu reduzir a 11 linhetas, na seção de pirulitos Pelas Cidades, do Estado de hoje, a história de Carlos Rodrigues Júnior, 15 anos, morto pela PM na madrugada de sábado, em Bauru, no interior paulista.

Mas a repetição dos horrores do gênero não embotou a sensibilidade dos editores da Folha, que deram meia página à atrocidade, na abertura da seção Cotidiano, com chamada na primeira página.

É de rasgar o coração, a propósito, a pequena foto que acompanha a reportagem – o retrato de um menino (com 12 anos à época), sorridente, olhos vivos, de bonezinho, camisa branca, gravata borboleta e jaqueta listrada.

Do álbum da vida para a morte sob tortura.

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/01/2008 Douglas Puodzius

    Já no Pará…
    A indgnação seletiva de quem só quer saber de seus interesses mesquinhos, o olhar de Pirata da Imprensa que usa o olho do tapa olho para alguns e o olho da luneta para outros, querendo ver só o seu. É preciso esconder as mazelas, esconder o PCC, as fraude nas estatisticas de segurança, o administrador incompente, a volta da dengue. è preciso camuflar, esquecer o buraco do metro, os hospitais esculachados, a tercerização do estado de segunda. É preciso falsear, mentir… vender a privataria, vender o choque de gestão. O choque que dá congestão.

  2. Comentou em 28/12/2007 gisely silveira

    Sou inesperiente no assunto, pois estou cursando o primeiro periodo de jornalismo. Mas ja percebi que a imprensa é seletiva,não é qualquer noticia que se anuncia, presenciei um caso que me indignou, uma criança foi buscar a bola que havia caido em um rio, em goiania, morreu preso em ferragens, um caso que realmente ninguem ficou sabendo, alem dos que moravam na redondeza, não foi divulgado,apenas saiu uma nota no jornal OPOPULAR porque os demais jornais não colocaram nem nota, sei que não é tudo que torna notícia mas em Goiânia essas coisas é um pouco difícil de acontecer, mesmo assim fiquei indignada…

  3. Comentou em 22/12/2007 Ricardo Camargo

    Sr. Weis, meus cumprimentos. O caso do menino de 15 anos, ao que tudo indica, é mais um dos lamentáveis resultados daquela mentalidade segundo a qual ‘a polícia deve agir sem qualquer limitação na defesa do Bem, da qual ela é o grande instrumento, e quem cai nas mãos dela deixa de ser pessoa para se converter em instrumento para a realização da vingança social, para escarmento dos inimigos dos homens de bem’. Mais uma ilustração do problema que ventilei no meu texto publicado no OI intitulado ‘Causalidades e brutalidades’.

  4. Comentou em 19/12/2007 Marcos Nascimento

    Constituição da República Federativa do Brasil

    Título VIII – Da Ordem Social

    Capítulo VII – Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso

    Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

    Art. 228. São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial.

    http://www.senado.gov.br/sf/legislacao/const/

  5. Comentou em 19/12/2007 Marcos Nascimento

    Constituição da República Federativa do Brasil

    Título II – Dos Direitos e Garantias Fundamentais

    Capítulo I – Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos

    Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

    III – ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;

    XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;

    XLVII – não haverá penas:
    a) de morte, salvo em caso de guerra declarada nos termos do art. 84, XIX;
    b) de caráter perpétuo;
    c) de trabalhos forçados;
    d) de banimento;
    e) cruéis;

    XLVIII – a pena será cumprida em estabelecimentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado;

    XLIX – é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral;

    LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;

    http://www.senado.gov.br/sf/legislacao/const/

  6. Comentou em 19/12/2007 Renato Antonio Silveira

    Que texto, que mensagem, que maestria Luiz Weis!
    Só não é lindo o contexto da notícia.

  7. Comentou em 19/12/2007 arnaldo boccato

    Patrícia: você foi injusta, pelo menos em parte, na generalização – que é sempre um risco. Nossos jornalões não se restringem à fórmula USA Today e esticam a notícia – em espaço e conteúdo efetivo e aproveitável. Tá bom, tá bom, não é pra tudo, depende de quantas páginas as imobiliárias compraram, dos cadernos de abobrinhas…
    Quanto ao caso do adolescente de Bauru na Folha contradiz vários comentários feitos nesta edição do OI, quem sabe escritos por pressa ou desinformação, tentando abrir mais uma polêmica político-partidária envolvendo o governo de SP. Eles talvez precisem ler Nelson Motta na mesma FSP destes dias: ser feliz é mais importante que você provar que está certo. A partidarização e o ‘ideologismo’ (assim, com aspas) só levam a mais ‘idiologismo’ e radicalização.
    Recomendação que recupera o brasileiro cordial que esquecemos às vezes e que deveria ser lembrada aos autores dos citados comentários aos artigos do OI e colegas espalhados por vários (muitos) cantos de nossa imprensa.

  8. Comentou em 18/12/2007 Patricia Valino

    Pois é… Mas e uma boa reportagem reunindo uma quantidade dos casos do cotidiano? Será que não ‘venderia’?
    É uma coisa que eu sinto muita falta nos jornais daqui, um volume maior de boas reportagens. Nossa, os textos do NYT, de jornais londrinos, do La nación… São enormes! Dão as notícias em todos os detalhes e as reportagens são super extensas. Aqui… ‘Ah, o brasileiro não gosta de ler.’ E nunca vai gostar, pois tem cada vez menos o que ler, e o que tem não interessa muito ou parece só mais do mesmo… Sinceramente? eu por exemplo quando tento acompanhar algum desses escândalos políticos, após um mês da coisa toda eu já não sei quem fez o que… e olha que não falta notícia!

  9. Comentou em 18/12/2007 Marco Antônio Leite

    O crime não vende, o que vende de fato é essa insana imprensa, a qual tem a mania de fazer apologia da crime. O cidadão não tem outra alternativa, há não ser conviver com às noticias que envolve este ou aquele modo de praticar este ou aquele crime. O Brasil não é constituído somente de pessoas violentas, mas também de pessoas de boa índole. Aquele que muitas vezes se envolve na criminalidade, não quer dizer trata-se de criminoso nato, mas sua violência tem muito a ver com às maldade desse capitalismo capenga e desumano que foi instalado no país, ou seja, violência adquirida através do sistema. Capitalismo que exclui milhões de pessoas do cenário do vicio do consumismo gratuito, do desemprego crônico, dos baixos salários, da fome, da ignorância cultural entre outras situações que o capitalismo inventa para discriminar negros, brancos, vermelhos e amarelos paupérrimos. O pior dos piores crimes é o famoso lesa-pátria?

  10. Comentou em 18/12/2007 Edilson Luiz da Silva

    *A imprensa está acompanhando o embrutecimento da sociedade. Vemos todos os dias nas nossas calçadas mendigos, crianças cheirando cola, e esses seres humanos passaram a ser simplesmente números para estátisticas, ou macula no cenário citadino. Pessoas insensíveis não se interessarão por notícias cotidianas, querem o extraordinário, mesmo sendo esse extraordinário a desgraça de um semelhante. Como os períodicos precisam dos reais dos leitores, então tentam agrada-lo na sua sede de sangue e desgraça, ao invés de tentar informa-lo corretamente.
    *A qualquer momento estou em meu quintal.
    QUINTALDOPROFETA.BLIG.IG.COM.BR

  11. Comentou em 18/12/2007 paulo valladares

    Sr. Weis
    A respeito de atrocidades, tenho procurado novas informações sobre o ‘caso Brasil’, objeto do seu post de 28 de novembro último. Estou intrigado por não conseguir encontrar uma mísera linheta em qualquer seção de qualquer veículo.
    Na expectativa, o meu abraço
    Paulo

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