Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Uma coisa online, outra coisa no papel

Por Luiz Weis em 16/08/2007 | comentários

Às 16h56 de ontem, apareceu na edição online do Estado a matéria “Aécio sinaliza possível aliança a médio prazo com PT”, assinada pela repórter Elizabeth Lopes.

Mas não é bem isso que o jornal oferece hoje aos leitores da sua edição impressa. É todo outro o enfoque da matéria assinada pelo repórter Carlos Marchi, a começar do título “Aécio: ‘Somos ruins de comunicação”.

É possível, ou até provável, que discrepâncias como essa sejam frequentes entre as versões eletrônicas e em papel dos mesmos jornais e revistas. Ainda mais quando são diferentes os repórteres que cobrem determinados eventos para uma ou outra modalidade.

Aqui há um problema potencial. Devem ser raros os leitores que, tendo se informado primeiro na edição online de um periódico sobre determinado assunto, voltem a se deter nele ao folhear a sua edição impressa. E muito mais raros os que façam o caminho inverso, indo ao computador para conhecer o primeiro relato, depois de ler o segundo [em ordem cronológica].

No caso específico, fica a pergunta: qual desses leitores foi mais bem servido?

Seguem os dois textos para que cada qual forme opinião.

No Estado online:

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), colocou em xeque nesta quarta-feira, 15, a aliança dos tucanos com os Democratas e sinalizou que seu partido tem a possibilidade de fechar um acordo, a médio prazo, com o PT.

‘Tenho que ser otimista e acredito que se for construído um projeto (para o país) é possível a formação de novas alianças. Em Minas Gerais, tenho uma relação próxima com setores do PT, com sintonia de idéias e pensamentos. Encontramos mais convergências do que divergências’.

O discurso aconteceu durante palestra para cerca de 50 empresários da diretoria e dos conselhos da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib).

Numa referência à tradicional aliança que os tucanos mantêm com os Democratas no Estado de São Paulo, Aécio disse que a política paulista influencia muito a brasileira e também as legendas. Porém, advertiu que ‘esta não é uma lógica para o resto do Brasil’. ‘Não podemos permitir que a radicalização política de um Estado, seja ele qual for, nos imponha uma camisa de força que impeça o Brasil de avançar.’

Na avaliação de Aécio Neves, uma aliança com o PT a curto prazo seria difícil. ‘Mas a médio prazo não.’ Ele acredita que esta aproximação seria mais fácil em torno de projetos e não de nomes. Aécio disse que, se o embate eleitoral for eliminado, PSDB e PT possuem muitas convergências. ‘Talvez este seja o meu papel, o de atuar na construção de pontes. Sou muito mais construtor do que dinamitador. Até porque para dinamitar, no Brasil a fila está muito grande.’

Na entrevista que concedeu, o governador de Minas fez questão de dizer que mantém ‘uma excepcional relação pessoal com o presidente Lula’, mas não deixou de criticar o baixo índice de crescimento brasileiro. ‘Lamento que o Brasil esteja perdendo a oportunidade de sair deste crescimento medíocre, e a turbulência na economia mundial acende a luz amarela.”

Agora, no Estado em papel:

O governador de Minas, Aécio Neves, reconheceu ontem que o PSDB tem dificuldades para se comunicar com o eleitorado: “Nós somos muito ruins de comunicação, mesmo”, afirmou ele em São Paulo. E fez uma blague com a incapacidade do partido de falar a língua do povo: “Acho que se fizermos uma pesquisa – digo isso com muita sinceridade, pode parecer até uma brincadeira, mas não é – perguntando quem é responsável pela estabilidade da economia, acho que a população vai dizer que é o presidente Lula”, ironizou.

“O PT é competente nisso (a comunicação com o povo)”, admitiu, aconselhando humildade ao PSDB. “Devemos aprender com eles, não no sentido de viver apenas de propaganda, mas transformando as ações do partido em ativos.” O governador disse que o PSDB ganhará se souber se comunicar melhor com a população, “porque os tucanos fazem melhor a gestão pública do que o governo do PT”.

Aécio disse que os seminários internos do partido estão promovendo “uma catarse” que, segundo ele, será positiva para o PSDB e para o País. A tal catarse levará o partido a compreender que tem de construir um projeto de País voltado, principalmente, para a diminuição das desigualdades. “E nós não vamos construir isso sozinhos, temos de juntar outros agentes”, recomendou, preconizando alianças para as futuras eleições.

Mas alertou que a construção dessa aliança deve procurar parceiros que pensem parecido com os tucanos. “Fazer alianças com disparidade de pensamento entre os parceiros acaba dando num projeto parecido com a base parlamentar do presidente Lula”, disse. O PSDB não pode acreditar que sua ascensão se dará “pelo fracasso do outro” (o PT), insistiu. Mas enigmaticamente preveniu: “Podem surgir por aí novas construções.”

Aécio defendeu que o PSDB continue a apresentar-se ao eleitorado brasileiro como um bom gestor público. “A gestão eficiente pode se transformar em benefícios palpáveis para as pessoas, porque você utiliza melhor os recursos públicos e atrai o setor privado para os investimentos”, propôs, acentuando: “Acho que está ficando cada vez mais claro esse diferencial entre a nossa forma de governar e a concepção de administração pública do PT, que se limita a inchar cada vez mais a máquina, fazendo com que ela cresça mais do que cresce a economia.”

Aécio voltou a afirmar que o Brasil está perdendo a chance de crescer. “O céu de brigadeiro não é eterno”, disse ele, alertando que os indicadores de uma crise econômica que pode se transformar em sistêmica é uma luz amarela que se acende para o País. Ele disse que o governo Lula continua com popularidade alta, “mas não tem avançado nas medidas e reformas estruturadoras que seriam absolutamente necessárias”.

Ele cobrou que o governo Lula precisa dividir tributos com Estados e municípios, desconcentrando o crescente acúmulo de receitas que ficam sob seu controle. “O Brasil vive uma linha perversa de concentração de receitas nas mãos da União e que precisa ser interrompida, em benefício da federação, dos Estados e dos municípios”, disse.

O tucano salientou que os Estados e municípios “podem fazer melhor aquilo que a União vem buscando fazer de forma ineficiente”. Segundo ele, a descentralização deve ser adotada pelo governo federal como a saída mais lógica para a gestão pública.

P.S.

O Globo deu ‘Aproximação entre tucanos e petistas é defendida por Aécio’

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 21/08/2007 Valéria Sinésio

    Luiz…muito bom e real seu texto. Inclusive estou fazendo um projeto de análise entre o impresso e o on-line.

    Muito obrigada

  2. Comentou em 20/08/2007 Rafael de Araújo Aguiar

    Em resposta ao aviso de que minha primeira mensagem realmente não havia chegado ao banco de dados do Observatório…

    ***

    Então foi uma falha no site, perdão.

    Bom, sinteticamente eu dizia que as duas notícias não podem ser comparadas (uma estar melhor do que a outra), a não ser que se considere subjetividades. Para alguns leitores o assunto abordado na matéria do Estadão impresso será mais bem-vinda, enquanto que para outros a mais interessante é a online. Na verdade não considero que uma notícia tenha contradito a outra, mas que ambas se complementam. A segunda não desmente a informação de que Aécio Neves pense numa aliança com o PT a médio-longo prazo, mas apenas coleta aspas críticas de Aécio com relação a outro tema. Considero, portanto, que, sendo assim, a motivação para o artigo fica bastante prejudicada e que talvez esse contraste entre a notícia do site e a do jornal tenha sido exagerado, sem razão para um artigo que colocasse uma lupa sobre ambas. É só minha opinião.

    Rafael Aguiar

  3. Comentou em 19/08/2007 Rafael de Araújo Aguiar

    Já esperava que não autorizassem meu comentário. O jornalista pode até concordar com o ‘discordar’, mas não tolera que digamos ‘esse artigo não tem razão de ser’. Deplorável, lamentável! O Observatório em nenhuma hipótese é um veículo isento.

    O que mais me entristece é que o autor do artigo recusa os conselhos de um duplo companheiro de classe seu, uma vez que, salvo engano, este se formou em Jornalismo e se pós-graduou na área das Ciências Sociais. Bom saber que não podemos emprestar credibilidade sequer aos colegas de profissão! Certamente eu não sou uma pessoa tão ética assim justamente porque obedece ao princípio da reciprocidade.

  4. Comentou em 17/08/2007 Bruno Moura

    O título desse post poderia ser ‘Estadão não lê Estadão’

  5. Comentou em 16/08/2007 aldemir rocha

    no tempo do jornalista italiano Pitigrili se poderia admitir uma gafe destas.Hoje é intoleravel, a não sedr que haja interesse na noticia facciosa

  6. Comentou em 16/08/2007 Marcelo Ramos

    Alexandra, a aliança seria boa para o PT pois o Aécio traria votos de PSDbistas insatisfeitos, e que não concordam com essa polarização e radicalização paulista. Os paulistas estão apostando em ‘quanto pior melhor’. E a postura do Aécio é diferente porque ele quer ser uma alternativa ao Serra. E para ser uma alternativa ao Serra, ele tem que se posicionar diferente. Eu acho que, se o Aécio pacutar um compromisso com o programa do PT (ou do Lula), não sou contra ele ser candidato. Mas aí acho que o PT não vai admitir. E se o Mercadante já estiver preparado, é ele que vai ser candidato. De qualquer maneira, qualquer coisa é melhor do que o Serra.

  7. Comentou em 16/08/2007 Ivan Moraes

    Falando em neocoronel, porque eh que a imprensa paulista tambem nao diz pro resto do Brasil quantos anos eles vao passar fome por causa da ultima cachorrada nos estoques da bolsa de SP? E olhe que a seca brasileira nem chegou ainda. Querem ver como vai ser? Alface a 7 dolares na Australia…

  8. Comentou em 16/08/2007 Alexandra Garcia

    Pelo tanto que a militância e simpatizantes petistas adoram o tucanato fico me perguntando que importância tem se o Aécio disse ou não disse que poderia fazer uma aliança com o PT, e por mais que se diga que o presidente é maior do que o PT (a crise do mensalão e as eleições do ano passado provaram isso), duvido muito que Lula consiga repassar votos para o Aécio. Agora, se o PT não tiver candidato próprio (coisa muito pouco provável), e se o acanhado governador de Minas não pular imediatamente para o PMDB, dificialmente poderá contar com alguns votinhos petistas, e assim mesmocaso consiga ir para um segundo turno. Num primeiro turno, e se conheço minimamente o PT, a possibilidade de um petista votar nele é praticamente nula.

  9. Comentou em 16/08/2007 Lau Mendes

    Sr.Weis se espírito existe e “baixa”, com ou sem ajuda de versão editorial,o do Chacrinha baixou em BH berrando o bordão para a platéia : “vocês querem bacalhau ?”,e nem precisará confundir os já confusos.

  10. Comentou em 16/08/2007 Marcelo Ramos

    Engraçada essa ligeira disparidade. Digo ligeira porque o artigo impresso me pareceu, apenas, suavizar seu correspondente online. Mas a intenção dos jornais, com esses artigos, é (tentar) dinamitar uma aliança que já havia sido esboçada anteriormente. A meu ver, Aécio se pronunciou muito bem em um trecho online: ‘Não podemos permitir que a radicalização política de um Estado, seja ele qual for, nos imponha uma camisa de força que impeça o Brasil de avançar.’ E em um trecho do impresso ele se comunicou mal. Ao defender que o PSDB continue a se apresentar ao povo como ‘ótimo gestor’. Eu não esqueci mas, mais alguém esqueceu a ‘goleada administrativa’ que foi apresentada na última eleição? E tudo embasado com dados do IBGE, IPEA, FGV. Acho que o PSDB tem que mudar, primeiro, sua atitude. A oposição está fortalecendo o governo. Tomara que continuem assim.

  11. Comentou em 16/08/2007 Marco Antônio Leite

    E quem disse que PT e PSDB são inimigos figadais, político é igual criança faz uma briguinha agoira, porém logo em seguida voltam a dar às mãos e fumar o cachimbo da paz. Essa gente foi criada num só laboratório, onde cresceram e aprenderam a fazer política, como também manipular às massas. Vivemos numa ditadura civil, que a cada quatro anos os atores mudam de roupa e também de peças teatrais, hoje é vereador, amanhã Deputado Estadual, depois Federal. Em seguida governador do Estado, Senador até chegar a presidência da República e assim caminha os políticos, somente eles e mais ninguém participa da festa. Vivemos uma ditadura, ou não? Com a palavra os homens de caráter e sofredores do mesmo esquema político! Agoira quanto um escreveu uma coisa e outro falou outra coisa, isto é de praxe numa ditadura, pois o povo não tem acesso a nada dentro desse sistema. Não sou um cidadão do contra, sou apenas realista!

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