Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

Uma conversa com os leitores sobre a tal de crowdsourcing

Por Carlos Castilho em 22/01/2009 | comentários

Jornalismo cidadão, produção colaborativa, inteligência coletiva e sabedoria das multidões são algumas das expressões que povoam o universo dos blogs sobre comunicação. Mas entre as idéias que elas propõem e a realidade ainda existe uma distância considerável. A distância é entre o que dizemos e o que fazemos, entre a retórica e a participação.


 


Há duas semanas publiquei aqui no Código um post sobre comentários publicados pelos leitores, numa tentativa de tornar mais próximo o diálogo. Vou continuar nesta direção porque o jornalismo está deixando de ser um discurso para ser uma conversa. Para que haja um diálogo é preciso que as pessoas troquem a posição de espectadores pela de protagonistas.


 


Cresce cada vez mais o número de jornais que buscam na aproximação com o leitor a fórmula para encontrar sair da crise em que as publicações impressas estão mergulhadas. Mas estas tentativas, por mais bem intencionadas que sejam, enfrentam todas um mesmo dilema: criar ferramentas para chegar perto do leitor não resolve nada se o leitor não participar.


 


Esta participação também não surge da noite para o dia. Ela terá que ser construída conjuntamente por autores e leitores. Inclusive aqui no Código Aberto. O norte-americano Dan Gillmor cunhou a frase “os leitores sabem mais do que os jornalistas” e até hoje, quando ela é mencionada, o debate pega fogo. A cultura da imprensa estabeleceu que os jornalistas sabem o que os leitores precisam conhecer para serem bons cidadãos.


 


Na comparação um a um, é claro que um jornalista sabe mais do que um leitor. Mas se tomarmos em conta que os leitores são milhares ou milhões, fica fácil entender que não há profissional no mundo, por melhor que ele seja, capaz de ter um conhecimento individual superior ao da soma dos conhecimentos dos seus leitores. Até agora, os leitores estavam isolados por falta de ferramentas capazes de transformá-los numa multidão dinâmica e interativa.


 


A internet operou este milagre, e o público passou a poder manifestar-se de forma coletiva e interativa. É o que os especialistas chamam de crowdsourcing (as multidões como fonte de conhecimento). Como várias outras idéias na internet, conseguimos entender melhor o funcionamento da crowdsourcing mais na prática do que na teoria. Um exemplo concreto é a Wikipédia e todas as páginas web que se apóiam em recomendações e críticas de consumidores.


 


Antes de comprar qualquer coisa na internet, a maioria esmagadora dos usuários procura saber primeiro o que pensam outros consumidores. É um hábito consolidado. Mas quando se trata de informações, a situação muda. O público só tem a imprensa como referência e, como falei antes, ela é inevitavelmente limitada na oferta de opiniões diversificadas. Só dá para saber quais as notícias, dados e informações confiáveis se o público participar. É claro que esta participação diminui a função mediadora dos jornalistas e reduz o papel do jornal como formador da agenda pública de debates.


 

Para encurtar a conversa, é necessário que os leitores se dêem conta desta mudança e passem a ocupar o seu papel na crowdsourcing, porque eles serão os principais beneficiados pela diversificação das opiniões e informações. Para que isto aconteça, são necessárias experiências parciais cujos resultados serão cumulativos, sem a menor dúvida. O Código está aberto para uma experiência de interatividade mais profunda entre autor e leitores. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/01/2009 José Casadei

    Este assunto é extremamente pertinente, principalmente se, um dia, os jornais conseguirem organizar seus leitores não somente por grupos de interesse, mas também por grupos de competências (por exemplo, leitores que são economistas, engenheiros, policymakers etc), para poder pedir opinião também deles. Imagine um anúncio governamental sobre índice de inflação e imeditamente os jornalistas poderem consultar donos de pequenas empresas, que fornecer relatos se os preços de insumos estão subindo para eles. Seria interessante romper, um pouco, a velha fórmula dos jornais de escutar fontes oficiais e fontes da sociedade civil organizada que usualmente opinam na imprensa. Seria interessante escutar um pouco a sociedade civil ´desorganizada´ e ler nos jornais relatos ´sem viés´, pois os discursos das fontes que aparecem costumeiramente são, acima de tudo, discursos, o que é diferente de ser um relato sincero. Abraço e parabéns pelo blog – e eplas indicações de links e leituras.

  2. Comentou em 26/01/2009 Wendel Anastacio

    Olá;
    ‘A taxa de mortalidade dos jornais e revistas e altíssima’. Concordo plenamente, e comemoro efuzivamente.
    Esta imprensa (de)formadora de opinião há muito já deveria estar no mousoléu.
    Para que possam julgar, anexo a informação abaixo, para que possam avaliar esta tragédia:
    ‘Sempre que lemos jornais e revistas ou ouvimos os noticiários do rádio ou da TV, nos deparamos com frases do tipo
    ‘Tropas ocidentais matam quatro civis por engano’ ou
    ‘Em meio a pressão ocidental, Rússia promete sair da Geórgia’
    Esta polarização que varia desde um conflito econômico até uma agressão militar, não reflete de forma alguma o sentimento dos povos do Ocidente, mas sim exclusivamente a posição da plutocracia anglo-americana.
    Para garantir que os ‘Estados Democratas’ tenham legitimidade política em suas ações, a plutocracia colocou no comando da mídia os senhores abaixo listados, que garantem informações objetivas e independentes:
    Mídia:
    AOL-Time Warner: Gerald Levin
    CNN: Walter Isaacson
    Polygram: Edgar Bronfman Jr.
    Walt Disney: Joseph E. Roth
    Miramax Films: B. & H. Weinstein
    ABC: Michael Eisner
    Viacom: Murray Redstone
    CBS: Murray Redstone
    Dreamworks: Katzenberg/Geffen/Spielberg
    Vivendi: Edgar Bronfman Jr.
    News Corporation: Rupert Murdoch
    Associated Press: Michael Silverman
    Advance Publications: Samuel Newhouse
    Jornais e revistas:
    New York Times: Arthur Sulzbe
    Tem mais.

  3. Comentou em 26/01/2009 Ibsen Marques

    Castilho, concordo com você, meu comentário não pretendeu qualificar os comentários como contribuindo para a formação da notícia, mas para mostrar que um enorme contingente de leitores vêm buscando formas alternativas de se informar.
    abraços

  4. Comentou em 26/01/2009 Jaime Collier Coeli

    Passivo ou indiferente? Talvez a visão do jornalista como ‘referência’ seja apenas uma ilusão da profissão. Que tal considerar a hipótese de que os ‘milagres’ da propaganda geraram um procedimento conhecido pelos antigos hindus como ‘ataraxia’? Ou, trocando em miudos, para nosso vernaculo. A expressão ‘que me importe que a mula manque, eu quero é rosetar’ tem o mesmo significado que ‘pouco se me apraz que o muar claudique, prefiro me refestelar’. A fonte rivilegiada, a autoridade incontestavel, a verdade absoluta talvez já tenham exaurido sua capacidade de manobrar a capacidade do ser humano de se iludir com ‘verdades’.

  5. Comentou em 24/01/2009 Viviane Fonseca

    É como o Carlos Castilho diz, ‘O leitor busca referência, com o Jornalista’, a população se interage com a informação, tudo o que o Carlos falou está corretissimo. Por que a prorpia população quando está a procura de um produto, procura se informar.

  6. Comentou em 23/01/2009 Ibsen Marques

    Concordo que esse futuro modo de informar já se iniciou, mas não podemos exigir que as pessoas mudem essa cultura de passividade de uma hora prá outra. Acho mesmo que isso não se consolida nessa geração. O desenvolvimento tecnológico é muito mais rápido e intenso do que o de um só homem e, aqui, temos que tratar o leitor de forma individual. Cada um precisa transformar e renovar seus próprios conceitos. Isso não acontecerá em um clique do ‘mouse’. Nossa geração tem o dever de fundar bases sólidas para que as próximas, já nascidas sobre a antiga forma de ser mídia e sob esse novo e veloz processo de desenvolvimento das tecnologias de informação, possam aprofundar de maneira segura, democrática e inteligente o que se inicia hoje. O grande desafio do homem é navegar por todo esse mar revolto e veloz de novas tecnologias sem que viva eternamente numa discussão sobre passado, quero dizer, o mundo está tão veloz em suas transformações que novas propostas e idéias podem obsolescer em questão de dias.

  7. Comentou em 23/01/2009 Ibsen Marques

    Pegando carona na observação do Thales sobre a destituição dos espectadores autores: Vocês já perceberam como o repórter de campo (aquele que cobre acidentes e tragédias) se refere às pessoas que estão observando a movimentação? O jornalista que cobre esses ‘eventos’ é chamado repórter, já as pessoas comum são por ele chamadas de ‘curiosos’. Isso é sintomático da arrogância do jornalista como fonte de informação. Mesmo aqui no OI, vários observadores questionam a produção midiática, mas mais um, digamos, auto-questionamento ou no máximo um questionamento posto a seus pares. É como se nós leitores-comentadores fôssemos transparentes e isso se percebe claramente na produção do artigo, sem que haja a necessidade de nos saber lidos ou ignorados pelo autor. É aqui que vai meu elogio ao Castilho na medida em que ele não só questiona a ação da mídia, mas propõe soluções e muitas delas baseadas nas espectativas de quem está ou estava do outro lado da notícia já que agora parece que podemos nos encontrar do mesmo lado conversando e trocando informações numa grande mesa de debates ‘web based’. Sobre a cultural passividade do leitor, fiquei impressionado ao constatar artigos com cem ou próximo de duzentos comentários, quase todos referentes à invasão israelense em Gaza. Percebi que o número de leitores do OI é bem maior do que imaginava e expõe exatamente esse problema cultural do leitor.

  8. Comentou em 23/01/2009 Thales Rafael

    Entretanto, são esses mecanismos que ganham os louvores no debate. Redigir um texto para um portal noticioso não toca no cerne da questão. Onde essa notícia vai aparecer? Ao lado de qual? Em que contexto? Ali, no papel do jornal ou na tela do computador, a cognição do leitor apreende aquilo como um todo, um jornal, uma fonte de informação. Se deslocarmos a interatividade para seu canto de atuação total e restringí-lo teremos muio o que questionar a frente. Reitero que não estou aqui reduzindo todo esse ideal a nada apenas pela crítica. Mas se os sujeitos não tiverem consciência de sua participação, a participação já não é efetivamente verdadeira. A internet abriu portas antes mesmo do nosso acender das luzes. Caminhamos no escuro, na ponta dos pés e das mãos. É preciso iluminar o caminho e dialetizar sempre as propostas para a democracia plena, caso contrário, ela pode se tornar a ditadura de nosso tempo.

  9. Comentou em 23/01/2009 Thales Rafael

    A interatividade é a menina de nossos olhos. Comovidos por debates que vão desde a obrigatoriedade do diploma à redefinição das propostas de um jornal impresso, o jornalismo está posto em xeque. Seu artigo dá contornos extremamente lúcidos a discussão sobre a construção social do que é notícia. Entretanto, creio – como todo homem – sermos refém de nosso tempo. Não sendo reducionista a ponto de achar que é ingenuidade, mas sim um otimismo que nos impede de enxergar determinadas nuances da questão. A interatividade é uma ferramente, e como tal, depende – como mencionado no texto – da ação humana. Mas depende na ida como na volta. Lendo um texto no vermelho.org do Antônio Mello vi que a Globo, por exemplo, destitui o cidadão que colabora na notícia – seja com foto, texto, vídeo – de sua autoria. A empresa fica responsável pela circulação, reprodução e comercialização do elemento textual. Nesse ponto se esgota a interatividade e o ideal de construção de democracia que ela carrega. Resumindo: a interatividade deve ser vista não como a contribuição do leitor na confecção da notícia, mas na escolha do que é notícia, na gama infinda de olhares do que é notícia e no respeito às suas colaborações. Enquente não é interatividade. A pergunta está ali pronta. Você só clica e é computado como mais um número na lógica do racionalismo-instrumental.

  10. Comentou em 23/01/2009 j batista

    “A taxa de mortalidade dos jornais é altíssima. A festa acabou. Precisamos fazer mudanças estruturais na imprensa” Juan Luis Cebrián, conselheiro do jornal espanhol El País.Na minha opinião o comentário acima do ‘El Pais’, pode servir para a midia em geral: jornais, revistas, tv , provedores e politicos’. As manchetes sensacionalistas, programas lascivos, leis imorais, ignorando o zelo pela saude mental dos jovens e da moralidade publica, leva ao descreditos de tais meios de comunicação. Programas em geral parecem serem produzidos por amorais, atendendo mais a grupos promiscuos e corrompendo aqueles de pouco desenvolvimento mental e educacional. Governos estão tentando amordaçar a internet, sendo esta a midia mais democratica.

  11. Comentou em 23/01/2009 Ivens Diaz

    Concordo com o Castilho, todos precisamos mudar. Mas a maioria dos leitores, mesmo aqui onde o espaço é mais direcionado, são passivos, parece ser um problema cultural. Como nosso amigo Thiago disse: ‘o medo da exposição ainda é grande’. E olha que são futuros jornalistas, imaginem os de censo comum?

  12. Comentou em 23/01/2009 nelson lott

    ‘Na comparaçào um a um é claro que um jornalista sabe mais do que um leitor.’ Menas, gente…menas… .

  13. Comentou em 23/01/2009 Nando Pereira

    Castilho, Seguindo teu raciocínio, teríamos a idéia do jornalista como um ‘story leader’ (não um ‘story maker’, como era no Neolítico). Seria alguém que, dentro de um veículo, teria a responsabilidade – e a formação e a destreza e a tecnologia – para encontrar, receber, reprocessar, criar conversas e guiar as informações pelo ‘melhor caminho’ (mais acurado, mais verdadeiro, mais checado, menos fanatizado, mais plural, mais factual). Crowdsourcing seria apenas uma parte disso, uma parte até compulsória — ainda que hoje seja crédito para que a usa, porque nem todos a usam (e isso tb pode significar solução pra crise, uma vez que crowdsourcing tem potencial de audiência). Pq a estrutura do ambiente aqui é de ‘conversa’ por natureza, entre hyperlinks, entre pessoas e entre informação. Então o principal seria o jornalista SABER guiar uma história, identificá-la, criá-la, buscar a colaboração da maneira certa, saber que histórias podem ou precisam mais disso — e não simplesmente querer um diálogo ou crowdsourcing. Não basta ter uma janela de comentários, tem que saber fazer as pessoas virarem ‘source’, fazer perguntas, abrir caminho para a informação, ter insights, lidar com isso publicamente, remixar, etc. Enfim, fazer com que a tarefa de informar aconteça sem necessariamente ser o único ‘sujeito’ da oração. Acho que esse é um grande desafio.

  14. Comentou em 23/01/2009 Thiago Araújo

    Acredito que as coisas vão acontecer de forma ´espontânea´. Agora, com uma maior facilidade de acesso às ferramentas de distribuição e criação de conteúdos informativos (como os blogs), a tendência é que as pessoas assimilem atos como ´comentar´, ´compartilhar´ e ´recomendar´ como parte do seu dia-a-dia. O que enxergo é que temos uma geração de pessoas ainda nos primeiros estágios de aprendizagem na utilização de redes sociais (por exemplo), locais esses onde a maioria dos conteúdos é gerado pelo próprio usuário. Quanto mais familiarizadas com a interface (e com seus pares), maior a chance de participarem. Assim, no momento enxergo ainda duas coisas que impedem o desenvolvimento do jornalismo colaborativo/cidadão/participativo (com interferência da mídia tradicional) no nosso país. A primeira é a questão do ´feedback´: a maioria das pessoas não comenta notícias (ou colunas como essa aqui) justamente porque ´emissor´, muitas vezes, não se dá ao trabalho de responder. Em segundo lugar, pelo medo da repreensão. Ao comentar em um local público, como em um mural, o medo da ´exposição´ ainda é grande (vejo isso nos próprios colegas de classe).

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