Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Uma exceção à pasteurização

Por Luiz Weis em 07/01/2006 | comentários

No Estado de hoje, o leitor Gabriel Bolaffi – por sinal de origem judaica – se queixa com razão do noticiário ‘muito pasteurizado’ sobre Ariel Sharon, “ignorando as carnificinas cometidas por esse israelense ao longo de toda a sua vida”.

De fato, a julgar por quase tudo que tem saído na imprensa brasileira sobre o primeiro-ministro agonizante, foi como se no fim da vida ele se tivesse transformado de lobo em cordeiro, por causa da sua decisão de evacuar a Faixa de Gaza.

Do lobo, apenas vagas referências. Do cordeiro, palavras e mais palavras.

A iniciativa de Gaza tem sido interpretada geralmente na mídia ocidental como evidência de que o velho e impiedoso guerreiro afinal resolveu dar aos palestinos o que os israelenses proclamam querer para si: um Estado viável, em paz e segurança, com fronteiras universalmente reconhecidas e relações plenas com os vizinhos.

Na realidade, o Estado palestino dos planos de Sharon, separado de Israel por um muro vergonhoso – sem falar na prevista proibição aos palestinos de trabalhar em Israel – seria tudo, menos viável: um gueto geográfico e econômico.

Só os teratológicos fanáticos que falam com Javé várias vezes ao dia e se crêem detentores do direito divino de ficar com toda a chamada Terra Santa – os mesmos que armaram o braço do assassino do então premiê Itzhak Rabin – não entendem que a saída de Gaza foi o produto de um cálculo realista de conveniência: o custo, sobretudo militar, da ocupação e colonização da Faixa onde vive 1 milhão de palestinos sempre foi despropositadamente maior do que o seu eventual benefício para a segurança do Estado judeu.

Pois bem. Na grande imprensa brasileira, só O Globo oferece aos leitores eventualmente menos versados no assunto a valiosa chance de julgar por si mesmos quem é [ou foi] Ariel Sharon.

Fazendo o que precisaria ser rotineiro na mídia [ver o texto anterior, “Falta polêmica na opinião publicada”], o jornal carioca publicou hoje lado a lado na página 27 os artigos “Uma calamidade para Israel” e “Um homem de paz?”

O primeiro é do colunista americano conservador Charles Krauthammer. O segundo, do repórter inglês Robert Fisk, de quem se diz que o que ele não sabe sobre o Oriente Médio não vale a pena saber.

O link para o texto de Krauthammer é http://oglobo.globo.com/jornal/mundo/189873100.asp

Para o comentário de Fisk, http://oglobo.globo.com/jornal/mundo/189873099.asp

***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/01/2006 thomas vincensini

    Nous avons tellement été habitué à l´attitude générale des gouvernements israeliens envers la palestine que Sharon, simplement en évacuant Gaza (simple calcul pragmatique et économique) nous apparait comme un homme de paix ?!?
    Sharon a juste fait ce que font les gardiens de prison quand une révolte gronde : on évacue les gardiens de l´intérieur de la prison, et on garde les sorties.

  2. Comentou em 12/01/2006 Fernando Kallás

    **** Dando Continuidade ao abaixo ****

    Mas ao mesmo tempo, eu acho que Sharon é um dos poucos que teria coragem de dar passos tao ousados frente a opiniao pública. Em se tratando de Israel e políticos israelenses, tenho que assumir que na atual situaçao e pensando de maneira realistas, Sharon seria o melhor premier para o mantenimento da paz e estabilidade. Nao tenho dúvidas que, com Netanyahu, um politiqueiro oportunista e interesseiro, a instabilidade vai aumentar.

  3. Comentou em 12/01/2006 Fernando Kallás

    Olá Weis, muito bacana seu blog e gostei bastante do seu ponto de vista sobre como a mídia está cobrindo a hospitalizaçao de Sharon.

    Sou jornalista e morei em Beirute nos últimos dois anos, onde fiz um mestrado em Ciencias Políticas e tive a oportunidade de conhecer e trocar idéias com Fisk.

    Sharon é um criminoso de guerra e tem uma lista interminável de crimes contra a humanidade, como enumerou Fisk. Seu (enorme) livro The Great War For Civilisation é uma das mais completas fontes de informaçoes da história recente do Oriente Médio, escrita nao por um historiador mas por um jornalista que ali vive e escreve nos últimos 25 anos pra alguns dos jornais e revistas mais importantes do mundo. Fisk é genial e um dos poucos que ‘fala mal’ de Israel com base… sem ‘apelaçoes’.

    Nao acho que Sharon tenha ‘amolecido’ nos últimos anos… O que eu acho é que, homem de mente estratégica e militar brilhante, se deu conta que sair de Gaza era um movimento necessario para manter a estabilidade de Israel. ‘Sacrificar’ Gaza na verdade nao foi nenhum sacrifício e sim um plano muito bem estruturado durante anos. A saída de Gaza foi tirar um peso enorme das costas de Israel, deixando de quebra 1,5 milhoes de palestinos isolados e abandonados. Essa história de ato de bondade e de homem de paz é história da carochinha.

  4. Comentou em 10/01/2006 João Humberto Venturini

    Muito bom esse texto do Luiz e é exatamente o que eu penso e estava perplexo em ver toda a grande mídia e até os jornais impressos fazerem uma boa imagem de Sharon. Na Globo, o assassinato de centenas de refugiados palestinos sob o comando de Sharon foi passado bem rápido e tido como normal. Ninguém na imprensa o chama de ditador, totalitário ou outros nomes, mas por exemplo, Fidel Castro sim é um ditador pq não há liberdade lá, mas no caso de Israel é tudo em nome da defesa do estado judeu e mesmo sendo provado q Sharon comandou o massacre desses palestinos, a imprensa já incultou na cabeça do mundo inteiro q eles morreram pq todos são terroristas e ameaçavam a ordem em um estado invadido. É o preconceito característico da grande imprensa q segue os manuais do consenso de Washington e ainda vai na onda de achar q o q é bom para os EUA é bom para o resto do mundo.Aqui no Brasil não é diferente e ainda há o preconceito racial e de classe q pode ser lido e visto todos os dias nos meios de comunicação.

  5. Comentou em 08/01/2006 tony knopp

    ‘cordeiro’ is not even the LAST word I would use for the butcher … minor point for O Globo, but being a New Yorker at heart needs mentioning-Krauthammer is with the Washington Post not NYTimes (they have their right wing ignorance nevertheless) … as a guide to your readers for the FULL RFisk article check out < http://www.robert-fisk.com/> … como Mineiro diz …’depois piora’

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