Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Uma relação difícil

Por Luiz Weis em 25/06/2008 | comentários

Salvo por duas passagens – “Separou como ninguém o público e o privado”, de Carlos Marchi, no Estado, e “Discreta e avessa à invasão de sua privacidade”, em matéria não assinada no Valor – os necrológios da antropóloga Ruth Cardoso, nos principais jornais de hoje passaram ao largo de uma característica da personalidade da mulher do ex-presidente Fernando Henrique que mais de uma vez a indispôs com a imprensa.


Desde que ele começou carreira eleitoral, candidatando-se a prefeito de São Paulo em 1985, virar notícia era tudo que ela receava, sabendo que entraria no radar da mídia não por seus trabalhos acadêmicos, nem mesmo para falar dos movimentos sociais de que ela se tornou uma das primeiras pesquisadoras no país, mas por estar casada com uma figura em ascensão que se distinguia dos políticos convencionais.


Ruth abominava a idéia de adentrar o noticiário por essa porta lateral, não só porque tinha luz própria como intelectual, nem só por femininismo – foi ela quem criou na Universidade de São Paulo o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero. Mas principalmente por entender que, se contribuísse para a sua exposição na imprensa – não tendo ela mandato eletivo, nem fazendo parte de um governo – estaria ajudando a confundir o público e o privado, algo a que tinha horror.


Quando o marido virou presidente, por exemplo, o seu desconforto em ser chamada “primeira-dama” vinha menos do arcaísmo engomado da expressão, que não tinha nada a ver com a sua história e o seu temperamento, ou do que o termo contenha de rebaixamento do papel da mulher. Vinha principalmente de ela entender que “primeira-dama” soa ou como enfeite ou como uma espécie de cargo oficial.


O mais era a sua profunda aversão ao risco de se tornar qualquer coisa parecida com uma celebridade, repartindo com o grande público os seus gostos, hábitos e atitudes. Poucas vezes na vida ela terá ficado tão possessa como no dia em que viu no jornal uma foto, tomada às escondidas, em que ela aparece com filhos e netos à beira da piscina do Planalto.


O pior é que muitos jornalistas não entendiam as queixas de ‘dona Ruth’.


Já “ex-primeira-dama” e dirigente de Organização Não-Governamental, indignava-se com matérias, cujas falhas apontava uma a uma, que sugeriam que o chamado Terceiro Setor – o conjunto de ONGs em atuação no país – estava praticamente todo ele contaminado por práticas suspeitas e pela promiscuidade com o poder público.


Num seminário em São Paulo, em 2004, criticou implicitamente a imprensa quando apontou o fato de os críticos não enxergarem os controles já existentes sobre as atividades das ONGs, embora reconhecesse a necessidade de serem aperfeiçoados.


Na intimidade que buscava a todo custo preservar – custou a se acostumar a ser acompanhada por um, aliás uma, segurança -, era menos formal e mais divertida do que a sua persona pública. Certa vez, comentando numa roda a visita ao Palácio Buckingham, na visita de Estado do então presidente ao Reino Unido, disse que a rainha e as senhoras da corte que os receberam “pareciam minhas tias de Araraquara”.

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/06/2008 pedro costa

    ver em ruth cardoso alguma coisa de ditadura só para um louco com uma ideologia de fundo de quintal.

  2. Comentou em 27/06/2008 Fatima Jordão

    Acho que a preservação da sua intimidade não foi o foco central da crítica que Ruth Cardoso fazia à imprensa. Este aspecto abusado a irritava, certamente. Mas, desde que li seu estudo sobre rádio e política local(1982?) e acompanhei suas posições em várias entrevistas e debates sobre comunicação e mídia, percebi que ela formulava uma crítica mais aguda, mais profunda.
    Na minha percepção, ela mirava o desperdício de tempo, trabalho e espaço no trato das irrelevâncias.
    Criticava na imprensa e na mídia, acho eu, a subtração de um papel de maior relevância na modificação de valores e de costumes . A incomodava a subserviência a anacronismos paralizantes, como o racismo ou o machismo.
    Impôs, através da sua figura pública, um perfil sóbrio que ela mesma desenhou na primeira grande matéria da imprensa sobre seu novo papel de mulher de presidente. Um perfil feito pela grande jornalista Dorrit Harazim, capa da revista Veja,através de várias conversas na intimidade de sua casa, antes da posse do seu marido presidente. Nesta matéria ela definiu as suas regras. E dentro delas limitou para si e para os jornalistas os parâmetros de uma rara dignidade em uma relação de fato difícil. Até o último dia de sua vida.
    A irritação da foto na píscina foi, acredito, um aspecto lateral desta convivência com a imprensa. Que saudade!

  3. Comentou em 26/06/2008 Alexandre Lopes

    Acho que essa aura de santa que a imprensa quer colocar na Dna Ruth eh uma idiotice soh. Como toda dondoca latino americana, ela vivia rodeada de empregados naquele apartamento de luxo em Higienopolis. Foi muito discreta sim, principalmente quando descobriu sobre o filho do FHC fruto de adulterio e se mandou pra NY pra fazer compras. Alias, que paradoxo esse casal cardoso, mandar para o exilio uma crianca de 8 anos. Nao digo que ela nao fez nada de bom, mas acho que o povo desse pais vai sentir mais falta da Sylvinha do que da Dna. Ruth!

  4. Comentou em 26/06/2008 dante caleffi

    Comovente, o luto da Globo.Superou o dos familiares.Constrangedor,para dizer o mínimo.Subitamente, ressucitada,
    de sua discrição,torna-se mentora e inspiradora do Bolsa Família,Fome Zero, e até do PAC. Surpreende,pela incompetência , a oposição e a mídia,que nesses cinco anos de governo Lula,não tenham denunciado esse plágio.Ou será, a inescrupulosidade, atribuida ao
    PIG,atingindo seu ápice.Conhecia-se o’ teste de hipóteses’,obra do amanuense levantino,Ali Kamel.Desconhecia-se é a ‘exacerbação
    bajulatória à qualquer preço’.

  5. Comentou em 25/06/2008 Carolina Coelho

    quem seria a atual primeira dama? nada me faz recordar..
    Ruth ao menos era mais do que um terninho novo.

  6. Comentou em 25/06/2008 Fernando Meiras

    Se a dona Ruth disputasse uma eleição sequer, sua postura frente à imprensa seria bem diferente. Vemos o exemplo disso em Serra, Alckmin e no próprio FHC, que detestam tudo o que é relacionado às camadas mais simples da sociedade, mas sabem que precisam exibir suas prolongadas falácias em benefício político. Quem não está vacinado contra essa ideologia que se curve às mascaras sorridentes e prolixas das telas de TV e linhas de jornais e revistas massificadas, como a Veja e Globo.

  7. Comentou em 25/06/2008 marina chaves

    quero deixar aqui a minha solidariedade aos parentes e amigos da senhora ruth cardoso…. sentirei falta!

  8. Comentou em 25/06/2008 Thais França

    EU QUERO MORRER COMO A RUTH CARDOSO
    Eu quero morrer como a Ruth Cardoso, rápido, sem esperar.
    Eu quero morrer e ter meu marido chorando pela morte ter nos separado. Calado por lágrimas quentes derramando um choro morno em minha presença apagada. Emudecido pela falta de meu espírito num corpo morto dentro de um caixão sem cores.
    Eu quero uma morte romântica, triste e sóbria, como a de Ruth Cardoso.

    Eu quero morrer com rugas semelhantes às de dona Ruth. Quero que elas representem uma coleção de feitos. Quero morrer falando com um filho, quero morrer sem tempo de me despedir. Quero morrer por meu coração ter trabalhado além da conta.

    Eu quero morrer como a Ruth Cardoso, sendo eu e não primeira dama. Eu quero morrer com minha história de vida calcada em pedra. Eu quero morrer sendo sócia de uma vida conjunta, quero ser completude e relevância para mais de pelo menos meia dúzia de pessoas, sendo isso reconhecido por não ter sido metade, mas meu todo.

    Eu quero morrer sem óculos, como a Ruth Cardoso. Eu quero não precisar ver a última cena. Quero só sentir o alçar vôo das asas da minha alma pelo impulso das minhas pernas.

  9. Comentou em 25/06/2008 Angélica Weise

    Ela simplesmente era uma Diva!!!

  10. Comentou em 25/06/2008 wagner k.

    Permita-me lembrar: foi em 1978 que FHC disputou sua primeira eleição, ao Senado, pelo velho MDB. Tornou-se suplente de Franco Montoro, e assumiu sua cadeira em 1983, com a posse de Franco Montoro no governo de São Paulo.
    E a piscina deve ser do Alvorada, e não do Planalto.

  11. Comentou em 25/06/2008 Marco Antônio Leite

    Como dizia o filosofo contemporâneo, quem sai na chuva é para se queimar. No caso da ex-primeira-dama, sua postura arredia em se expor na mídia cheirava sutil ditadura no sentido de evitar que a imprensa pudesse exercer a democrática e livre expressão de informar aquilo que cercava a dona Ruth.

  12. Comentou em 25/06/2008 Paulo Ribeiro

    Como representante-mór da intelectualidade tucana, Ruth Cardoso jamais andou de transporte coletivo, nunca esteve na perfieria (exceto em períodos eleitorais, é claro) e vivia com um séquito de serviçais em seu suntuoso apartamento na zona mais nobre de São Paulo. Há que se respeitar a dor dos familiares, é evidente. Não dá para compara-la, por exemplo, em grandeza com o papel que Marisa Letícia vem desenvolvendo em Brasília. Ruth Cardoso, bem disse o blogueiro Eduardo Guimarães no blog Cidadania, enfrentou com dignidade o adultério de seu marido e jamais buscou promoção pessoal quando foi primeira-dama. Ao que parece, nunca cobrou valores exorbitantes em suas palestras acadêmicas. Mas, foi conivente com a corrupção tucana e do ponto de vista pessoal jamais explicou a origem dos recursos que proporcionaram a compra do luxuoso apartamento em que ironicamente veio a falecer.

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