Sábado, 15 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Um ‘problemão’ em Honduras

Por Luiz Weis em 24/09/2009 | comentários

Deu na Folha que o presidente Lula, numa entrevista a jornalistas brasileiros em Nova York, criticou o uso da expressão “governo de fato” para designar o regime hondurenho chefiado por Roberto Micheletti desde 28 de junho passado, quando o presidente Manuel Zelaya foi preso e posto num avião para a Costa Rica.


“Vocês estão sofisticando o governo”, disse Lula. Não é assim. Governo de fato (ou de facto) é o contrário de governo de direito (de jure, em latim), como era o de Zelaya.


Disso não discordam nem os comentaristas que sustentam que, inspirado por Hugo Chávez, ele se preparava para mudar a Constituição do país que proibe a reeleição, a qualquer tempo, de seus governantes. E proibe que se mexa nessa cláusula.


O termo “governo de fato”, portanto, designa uma realidade política ao arrepio da lei, como dizem os juristas. No caso, é sinônimo de “governo golpista”.


Lula também disse que “não precisamos gastar meia palavra para falar do que aconteceu em Honduras. O presidente eleito foi retirado de sua casa de madrugada à força. Esse presidente resolveu voltar ao seu país. Nós queremos que ele fique com garantias lá e queremos que os golpistas não façam nada com a embaixada brasileira [onde Zelaya está abrigado desde a segunda-feira, 21]. Isso faz parte de convenções internacionais.”


Mas a imprensa precisa, sim, gastar muito mais do que “meia palavra” para falar do que representa para o Brasil a presença de Zelaya na embaixada.


O problema é saber qual a palavra certa.


Pode ser “problemão”, como se lê na matéria desta quinta-feira de Sergio Leo, da sucursal de Brasília do jornal Valor Econômico.


A palavra, a rigor, não é dele, mas, segundo o seu texto, de “um ministro próximo ao presidente”.


Palpite: o ministro seria o titular da Secretaria de Comunicação do Governo, Franklin Martins. A proximidade dele com Lula já virou até nota de jornal – e ele não acompanhou o chefe aos Estados Unidos. Não pode: por ter participado do sequestro do embaixador Charles Elbrick, 40 setembros atrás, está impedido de pôr os pés em território americano. Mas isso é digressão.


Um “problemão” que o governo se arranjou ou que não pode impedir que lhe caísse no colo?


Os críticos costumeiros da política externa de Lula duvidam nos jornais da versão oficial de que Zelaya surpreendeu o Itamaraty e o presidente ao ser levado de carro à embaixada brasileira em Tegucigalpa – deixando o governo sem escolha.


O ex-embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa, acha “difícil” que não soubessem que Zelaya iria bater às portas da representação. O ex-ministro das Relações Exteriores (no governo Fernando Henrique), Luiz Felipe Lampreia, acha “muito difícil” que o governo não soubesse de antemão da escolha de Zelaya.


Mas, à falta das proverbiais provas em contrário, a versão oficial fica em pé. Se tivesse sido fabricada, o ministro próximo do presidente, citado pelo repórter Sergio Leo – um jornalista com boas fontes no governo – não falaria em problemão. Nem o assessor internacional da presidência, Marco Aurélio Garcia, diria em Nova York à colunista da Folha, Eliane Cantanhêde, que “política é isso, não é só bônus, é ônus também”.


Parte do problemão tem a ver com o comportamento desenvolto de Zelaya desde que se abrigou na embaixada – e nesse ponto o texto do Valor é mais informativo do que as manifestações dos diplomatas de oposição. A crer na matéria, ou melhor, nas fontes não identificadas em que se baseia, Zelaya é tido no Planalto como “um trapalhão político”.


Bate com o que a mídia em peso noticiou – o desconforto do governo com a transformação da embaixada em palanque. Lula chegou a ligar a Zelaya para alertá-lo de que não deveria dar pretexto para atos de violência do governo Micheletti. No dia seguinte, quarta-feira, o Itamaraty reforçou oficialmente a advertência.


Aparentemente, surtiu algum efeito. Ao New York Times, Zelaya disse que ele e Micheletti precisam “sentar cara a cara” e que haveria intermediários cuidando disso. Segundo o jornal, ele se mostrou “circunspecto” na entrevista por telefone. Disse: “Política não é teatro. Não há um script a seguir. Você atua dia a dia e vê o que acontece.”


Para um “trapalhão” que criou um “problemão” para o Brasil, até que é razoável.

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