Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Veja não informa o essencial para se entender progresso do Chile

Por Alceu Nader em 29/05/2005 | comentários


A reportagem elogiosa da revista Veja da semana sobre o Chile reduz a ignorância sobre o que acontece na América Latina, mas omite dados fundamentais que explicam o progresso chileno – e comprometem inapelavelmente o trabalho apresentado. O crescimento econômico do país, como interpreta a revista, não se deve apenas ao rigoroso controle fiscal ou ao controle da inflação — e muito menos à assinatura de acordos comerciais ‘com o maior número de parceiros, sobretudo os mais ricos’. Para a revista, esse é o caminho que o Brasil deveria seguir, pois os acordos ‘servem muito bem para países grandes e pequenos da América Latina’.


Apesar das quatro páginas, a reportagem não informa que um dos principais motivos da atual prosperidade chilena são os preços internacionais do cobre, principal item da pauta de exportações com uma fatia de 45% das vendas externas. Os preços do cobre só fazem crescer desde 1989, com sucessivos recordes. Em abril passado, por exemplo, bateram o recorde dos últimos 25 anos na bolsa de mercadorias de Londres alcançando o preço de US$ 3.300, a tonelada. Na comparação direta, seria o mesmo que tratar do crescimento das exportações brasileiras no último ano e omitir a importância da soja.


Faltou dizer também que o Chile é o principal fornecedor de cobre e tem a maior reserva do minério no mundo. Da mesma forma, omitiu-se que a maior empresa do país e principal exportadora chilena, a Codelco, é estatal. A empresa, nacionalizada pelo ex-presidente Salvador Allende, foi mantida sob controle estatal com a instalação da ditadura de Augusto Pinochet, quitando veracidade na afirmação da revista de que Pinochet abraçou as privatizações enquanto as demais ditaduras latino-americanas optaram pela estatização. Aqui, outro buraco na reportagem: a nacionalização foi mantida, apesar do programa econômico ultraliberal do grupo de economistas que ficou conhecido como os Chicago Boys, do qual, por sinal, saiu o candidato da oposição nas próximas eleições presidenciais, Joaquín Lavín.


Outra omissão não explica porque 2005 também será um ano próspero para os chilenos. A razão, de novo, está no cobre. As projeções apontam para queda dos preços internacionais somente no ano que vem, por causa do crescimento acelerado da China. Os estoques internacionais estão no chão porque os países produtores foram incapazes de atender a demanda mundial. No ano passado, o déficit entre oferta e demanda foi de 742 toneladas.


A ausência de informações tão capitais é resultado direto da editorialização do texto, aplicada para adequar a realidade chilena ao que a revista acredita ser a solução para o subdesenvolvimento do Brasil: a assinatura de acordos comerciais. Não é bem assim.


Acordos de livre-comércio geram riqueza, mas não são a única receita para a cura do subdesenvolvimento, como mostra México, país que tem o maior número de acordos comerciais assinados com outros países. O governo do presidente Vicente Fox recorreu aos acordos bilaterais de comércio quando constatou que as promessas de investimentos norte-americanos, em decorrência do Nafta, o bloco comercial da América do Norte, não se cumpririam. Em 22 de dezembro de 2003, na reportagem de capa sobre os dez anos do bloco, ‘O Nafta valeu a pena?’, a revista BusinessWeek trouxe: ‘Os mexicanos pensaram que seu país seria a maior fábrica dos Estados Unidos, honra que agora cabe à China, onde os trabalhadores custam uma fração dos mexicanos. Com isso, o governo acreditou que quanto maior o número de pactos comerciais, maiores também seriam os benefícios adicionais e assinou acordos com 30 países. Como o previsto, os consumidores tiveram acesso a produtos melhores e mais baratos, mas toda indústria local, dos fabricantes de brinquedos aos de calçados, assim como os produtores de arroz e milho, lutam para sobreviver ao impacto das importações baratas’.

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/06/2005 Carmen Gomes Simioni

    De fato, você lembrou um aspecto que a Veja não colocou, a questão do cobre que então tomo conhecimento pela sua exposição.Mas há outro aspecto a comentar, o baixo nível de corrupção que há naquele país, já há muito tempo.Aqui no Brasil se conseguíssemos diminuir essa praga, bem como o crime organizado, os quais se entrelaçam , estariamos bem melhor, você não acha?
    Sobre a questão que alguém comentou que os estudantes chilenos que participam de concursos internacionais, também vão mal como os brasileiros, acho que é uma questão de tempo, pois pelo que entendi da reportagem da VEJA esse crescimento econômico do Chile é recente (há mais ou menos 20 anos) e nem todos os escolares cumprem, ainda, regime escolar integral (parece-me que está em 2/3 dos escolares).
    Em que pese a questão do cobre que você coloca também acho, a exemplo de outro comentarista, que a Venezuela poderia estar bem melhor por causa do seu petróleo.

    Vale lembrar que, ainda, o desemprego e a concentração de renda naquele país são altos, apesar de menores que o nosso país.Mas em termos de Segurança Pública é quase um paraíso: 3 mortes por 100.000 habitantes (acho que por ano).

    Por fim a revista Veja bem ou mal (sempre há críticas) lança luzes para um entendimento melhor do nosso país.Quando publicou a reportagem sobre a Coréia do Sul acho que ajudou bastante.

  2. Comentou em 07/06/2005 otavio ribeiro

    Muito bem elucidada a questao pelo autor. Essa revista é emblematica ao se mostrar, em várias oportunidades, o maior exemplo do que nao deve ser feito no jornalismo. Semanalmente a Veja nos mostra onde nascem o descrédito e falta de prestígio do setor que, majoritariamente, precuopa-se mais em vender/cooptar/manipular que em informar seus leitore. Morei no chile por quase dois anos e posso dizer que tenho algum conhecimento da evoluçao sócio-economica daquele país. Além de todos os motivos elencados pelo autor, podem ser acrescentados ainda o nível cultural da populaçao (bastante alto), as reduzidas taxas de criminalidade, a invejável honestidade daquele povo, e, claro, tao importante quanto o cobre, o número de habitantes daquele país, proximo de padroes europeus, mas de considerável importancia, dado sem o qual nao se entende as razoes do progresso chileno. Mas ninguém deve se deixar enganar: apesar de todas as coisas boas, continua sendo um país subdesenvolvido, um país de terceiro mundo.

  3. Comentou em 07/06/2005 enio

    O mito econômico do ‘Chile moderno e estável’ se espalhou como uma crença no Brasil.
    Alguns pontos:
    1) Os Chicago Boys fracassaram em seu ajuste a partir de 1975. Até 1983, os chilenos enfrentaram crises e mais crises financeiras, culminando com a catástrofe da moratória mexicana. Ali houve uma tragédia econômica. O modelo só foi mantido pela mão de ferro de Pinochet.
    2) De 1984 a 1990, o Chile entrou com políticas anti-cíclicas, com aumento de gasto público etc. O aumento do cobre fez o serviço complementar. Ou seja, a economia pegou no tranco com o estímulo de políticas ativas do estado e não do mercado.
    3) Na transição para a democracia, o Chile fez uma série de ajustes, a principal sendo o controle de financiamento externo. Foi um movimento contrário ao do Brasil, que apostou cegamente nos anos 1990 na abertura financeira.
    4) O Chile priorizou o ajuste das contas externas e não deixou valorizar o câmbio, a falácia em que caíram Brasil e Argentina. É uma abordagem que aproxima os chilenos dos asiáticos.
    5) A ‘revolução’ na fruticultura começou com a mudança do modelo agrário na reforma iniciado por Allende.
    6) O louvado ajuste de Pinochet colocou 50% da população abaixo da linha da pobreza. Hoje, 15 anos depois, está em 20%.
    7) O Chile sofreu um tranco muito violento com a crise asiática. Disso não se lembram.
    8) A privatização do ensino universitário gera coisas interessantes: manifestações diárias nas ruas de Santiago e Valparaíso porque os estudantes não têm direito para pagar a linha de crédito bancada pelo governo.
    9) O Chile se parece muito ao personagem Wenceslau, do livro ‘Casa de Campo’, de José Donoso. Todo maquiado e bonitinho com suas estampas.

  4. Comentou em 06/06/2005 Célio Duarte Mendes

    Parabens pelo comentario, de longa data acompanho as desinformações propaladas pela revista Veja, alias o grupo Abril conseguiu a proeza de propagar sua $ideologia$ em todas as suas publicações nem as revistas em quadrinhos e a ‘cientifica’ Super-Interessante escapam, por isso radicalizei falou que é da editora Abril eu simplesmente não compro, alias nem ponho a mão para folear na banca.

  5. Comentou em 05/06/2005 Simei Alves

    A questão em pauta não pode se ver presa apenas no âmbito das exportações do Cobre, é necessário que se amplie está avaliação, pois o México(através do Petróleo) ou o Brasil (produtos agrícolas) também disponibilizam de condições favoráveis ao seu desenvolvimento, contudo não é aproveitado adequadamente, o grande diferencial chileno é a sua administração em relação aos seus acordos efetuados com seus parceiros comerciais, a solução para problemas sobre o desenvolvimento de um país seria bem mais fácil se os atuais governos se focassem apenas em beneficiar o seu país, é uma postura nacionalista, mas no atual mundo capitalista que vivemos temos que seguir à risca o ditado que diz: ‘Deus por todos, e cada um por si.’

  6. Comentou em 04/06/2005 Daniel Lopes

    O que Alceu Nader acaba por identificar aqui é mais um exemplo da principal característica da revisa Veja: fundamentalismo; no sentido de que, se algo (no caso o Chile) deu ou está dando certo, só pode ser por conta da doutrina (neoliberalismo) que eu (a Veja) defendo. Pena para o jornalismo brasileiro. Se bem que, para a melhora deste, não se pode mais esperar nada de Veja mesmo.

  7. Comentou em 01/06/2005 Marcelo Benevides

    Muito boa a crítica do autor. Faltou mencionar, além da importância do cobre no sucesso ‘neoliberal’ chileno, o controle de capitais de curto prazo promovido pelo governo, que impede que ‘mafiosos’ travestidos de investidores arruinem as finanças do país com o chamado ‘capital-motel’, que faz a festa em países ‘retrógrados’, como um tal de Brasil. Como sempre, as reportagens de VEJA resvalam para a parcialidade explícita, bem como são superficiais e abordam apenas os aspectos que lhes são mais convenientes. Esquecem-se as medidas que foram tomadas pelo governo do Chile que realmente fazem diferença mas que por serem consideradas contrárias ao que os donos da revista querem ‘empurrar’ para os menos esclarecidos, são solenemente ignoradas. Me perdoem os entusiastas da VEJA, mas como disse com muita propriedade o professor de história Eduardo Bueno, ‘a VEJA não serve nem para limpar a bunda porque o papel é brilhoso’.

  8. Comentou em 01/06/2005 Aline Viana

    Obrigado pelos esclarecimentos e por levantar a pauta para que outras pessoas pudessem ajudar a esclarecer o tema. Quando li a reportagem senti que havia ‘algo de podre no reino da Dinamarca’ (para ficar no lugar comum, coisa que tem caracterizado a Veja), mas como leiga no assunto não pude bem enxergar onde estava o erro. Novamente, muito obrigada.

  9. Comentou em 31/05/2005 Luiz Sa

    Caro Alceu o cobre explica tudo, claro que não…, abram os olhos, não venham com teorias simplistas e conspitatórias.

  10. Comentou em 31/05/2005 Hamilton

    É simplista atribuir o relativo sucesso do Chile ao aumento do preço internacional do cobre. O Chile tem instituições mais sólidas que o Brasil, foco na educação, economia mais civilizada (basta ver sua situação fiscal) e evidências de um capitalismo levado mais a sério que o brasileiro (com forte incentivo ao empreendedorismo). Se um recurso natural fosse responsável por riqueza, o Japão e a Coréia seriam pobres e a Bolívia, Venezuela, Nigéria, entre inúmeros outros, seriam potências. A propósito, o Brasil é visto como potência ‘exploradora’, tal qual um EUA, na Bolívia. O Brasil é pobre porque, entre inúmeros motivos, (1) sempre teve governos irresponsáveis do ponto de vista fiscal e (2) gasta pessimamente os recursos destinados à formação de capital humano. Prefere gastar uma fortuna nas universidades públicas com estudantes que ou podem pagar por sua graduação ou poderiam pagar depois de formados. Enquanto isso, milhões de estudantes pobres, recebem péssima educação no 1. e 2. graus.

  11. Comentou em 31/05/2005 antonio barbosa filho

    Artigo esclarecedor que mostra, mais uma vez, o quanto a chamada ‘grande’ mídia trata os assuntos latino-americanos. Pior que a superficialidade, porém, é a vesguice proposital. Exemplar é justamente a ‘cobertura’ que se dá, no Brasil, ao Chile. Passam-nos a imagem de um país moderníssimo graças ao neoliberalismo imposto por Pinochet. Uma sutil afinidade entre ‘progresso’ e ditadura…
    Nem preciso mencionar a Venezuela, cuja imagem passada pela nossa imprensa é quase caricatural. Recentemente uma eviada especial do Estadão (perdão por não recordar o nome)conseguiu mostrar que as políticas sociais do ‘demoníaco’ Chávez são altamente positivas – o que contraria todos os editoriais e matérias de agências publicadas pelo jornalão e concorrentes.
    No seu artigo, apenas trocaria a expressão ‘editorialização do texto’ por ideologização do texto. É do que se trata. No mais, parabéns.

  12. Comentou em 31/05/2005 João Miramar Potyguara

    Como o nobre reporter explica o patrocínio da Ford Fundation a este Observatório, a Carta Maior? Diz a lenda que a FF é o braço intelectual da CIA e gosta muito de promover o bem-estar da chamada esquerda caviar. JMP

  13. Comentou em 31/05/2005 Amândio Tété Pereira

    Achei muito honesta a vossa critica a revista Veja.

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