Vendem-se aspas e fogos | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Vendem-se aspas e fogos

Por Luiz Weis em 12/11/2005 | comentários

O correspondente sênior do Estadão em Paris, o jornalista e autor Gilles Lapouge [o outro é Reali Jr., quase tão veterano como ele] escreveu para a edição de ontem do jornal onde trabalha há cerca de 50 anos um texto fora dos seus padrões.

Habitualmente, Lapouge produz análises sofisticadas sobre questões francesas e internacionais. Delas se pode discordar ou com elas se pode concordar. Só não se deve ignorá-las.

Pois bem. Dessa vez ele escreveu uma reportagem – entremeada de comentários e ironias, mas reportagem do mesmo jeito – sobre um assunto de interesse do público interno (jornalistas) e externo (leitores).

O assunto é o comércio de informações sobre o queima-queima que há duas semanas domina a mídia francesa e européia.

Assim como no Iraque, compara Lapouge, “os jornalistas estrangeiros utilizam maciçamente em suas reportagens os serviços de intérpretes locais, também chamados aqui de “fixeurs”.

A palavra intérpretes devia vir entre aspas porque eles fazem muito mais do que interpretar. Daí fixeurs, do inglês fixers, quebradores de galho, resolvedores de problemas.

Além de prover a segurança das equipes de repórteres, o galho que eles quebram, no caso da França, é menos o eventual desconhecimento desses estrangeiros da língua de que os nativos tanto se orgulham – e da sua ignorância, que não tem nada de eventual, da gíria dos jovens dos subúrbios de Paris – do que o dificílimo acesso dos enviados especiais aos personagens do drama que ali se desenrola.

Em outras palavras, eles são fornecedores de aspas. Relata Lapouge:

“O jornalista pede aos chefe do bando [dos fixeurs] para lhe arranjar para determinada hora um traficante, um militante islâmico, um imigrante amistoso ou um imigrante hostil. E, na hora estabelecida, a encomenda será entregue”, pronta para ser ouvida, fotografada, ou filmada.

Isso sim é que é assessoria de imprensa. E pela módica de 150 euros por entrevista, “quantia que pode aumentar se o fixeur conseguir uma exclusiva com um chefe de bairro” [da gangue do bairro, bem entendido].

Fixeurs e minders

Claro que o repórter não tem como saber se aquele jovem a quem entrevista e que defende, ou critica, os distúrbios, acha mesmo o que diz, ou apenas está cumprindo o papel de que foi encarregado pelo fixeur.

O repórter tampouco tem como saber se aquele fixeur em particular tem interesse em que determinado copain apareça na TV, dizendo isso ou aquilo, razão por que o apresentou a ele. Nesse caso, o intermediário deveria ser chamado minder, o que Lapouge podia ter acrescentado.

Minders são mentores. Especialmente nas ditaduras, eles são essenciais. Na Coréia do Norte de Kim Jong-Il, como era no Iraque de Saddam, e em tantos outros lugares, não existe essa coisa de jornalista estrangeiro chegar e ouvir quem quiser falar com ele, mesmo que um fale o idioma do outro.

O gringo quer entrevistar um economista, um acadêmico, um editor, um dignitário do partido único? ‘Nie problema’, como dizem os russos. O minder arranja a fonte, traduz o que ela declara, ou corrige, ou ainda inventa, e depois informa aos seus superiores se ela recitou a coisa certa ou pisou no tomate. O entrevistado sabe perfeitamente disso e, a menos que seja doido de pedra, andará na linha.

Nesses lugares e situações, grande jornalista é aquele que faz o jogo do minder torcendo para ter uma chance de driblar a sua vigilância e conversar a sério com um local, mesmo que não possa identificá-lo na matéria, ou de receber, sabe-se lá como, um documento comprometedor para o regime.

E jornalista de muita sorte é aquele cujo minder faz o que dele espera o regime. Mas, sendo ele próprio um dissidente, sopra algumas verdades ao ouvido do visitante, entre uma entrevista vigiada e outra.

Já que vocês vão pôr fogo mesmo…

Existe ainda um outro tipo de negócio entre o jornalista – e nesse caso tem de ser de TV – e o seu fixer ou fixeur. Aí a barra é mais pesada.

No caso francês, o repórter compra do fornecedor vídeos amadores de carros ou edificações sendo incendiados. Só se for incrivelmente ingênuo para o ofício que exerce, não saberá que o que foi filmado foi encenado para isso mesmo. Mas os compradores fazem de conta que as cenas são “espontâneas”.

Lapouge: “Tipos jogam coquetéis molotov contra uma loja ou um ônibus só para poder filmar o incêndio e revender o filme com grande lucro para as TVs.”

Ainda não acabou. Eu não sei se isso aconteceu esses dias na França, mas sei que aconteceu nos Estados Unidos pelo menos uma vez, em 1965.

Foi no chamado gueto negro de Watts, em Chicago. Depois que os Panteras Negras incentivaram o pessoal a pôr fogo em tudo que pudesse arder, produtores de telejornais propuseram aos carbonários, por interpostas pessoas, o seguinte:

Já que vocês vão continuar fazendo isso enquanto puderem, por que não o fazem sempre à noite? É bom para nós, por causa da maior dramaticidade das imagens [fogo no escuro é literalmente outra coisa] e é bom para vocês, por causa da maior repercussão dos seus atos junto ao público e ao governo.

Dito e feito: desde então, até a rebelião ser extinta, nunca mais algo pegou fogo em Watts à luz do sol.

Desculpem os que já conhecem a minha analogia, mas a tentação de repetí-la é irresistível nesse contexto.

Otto von Bismarck, o “Chanceler de Ferro” da Prússia, no século 19, odiava o mínimo de democracia que aceitou que existisse nos seus domínios. Um belo dia, indignado com uma decisão do Reichstag, o parlamento, fez um comentário que entrou para a história: “Ah, se o povo soubesse como se fazem as leis e as salsichas.”

Digo eu, quando tenho motivo: “Ah, se o povo soubesse como se fazem as notícias.”

***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/11/2005 Mauricio VILANOVA

    As pessoas que realmente querem saber, sabem. Não precisa ser um expert para entender que a primeira lei da comunicação é: toda informação tem uma tendência. Ou seja, é muito importante conhecer a sua fonte ou, caso não seja possível, saber perceber nas entrelinhas. Vamos a um simples exemplo de uma inocente frase: O importante é competir! Essa frase dita por alguém que, de fato, está competindo visa afrouxar os brios dos adversários. Por alguém que sabe que vai perder, apesar de ser considerado o provável vencedor por quem está de fora visa justificar antecipadamente o fracasso e não perder terreno em outros campos. Dita por alguém que realmente gosta de competir tem o sentido lato, e assim por diante.
    O marqueting da ação tem que ser forte também: quem é que teve maior resultado, o frei que fez a greve de fome ou o ecologista que se imolou para impedir a liberação do plantio de cana no pantanal matogrossense?

  2. Comentou em 15/11/2005 JOEL CONRADO

    Seu editorial ampla e completa de informações sobre o que se constitui O OUTRO LADO DA NOTÍCIA.
    Residindo en França pelos últimos cinco anos, ouvi de pessoas que conhecem o metier que há uma grande possibilidade de proprietários de carros e mesmo vendedores de carros de segundo mão (d´ocasion)se desembaraçam de velhos veículos para obter o seguro.
    Muitos jornalistas mencionarm q expressão ¨Is Paris Burning…`título de um filme baseado na frase de Adolpho Hitler…
    Na verdade não é apenas Paris mas outras cidades… e mesmo na Alemanha e na Bélgica.
    Esquecem que além de injustiças sociais e eventual racismo… a violência é a revolta de jovens que segundo últimas pesquisa revelam que existem 200 mil jovens na CEE sem trabalho…
    O que nos reserva essa geração…
    Cordialmente
    JOEL CONRADO

  3. Comentou em 13/11/2005 Janfrancklin Cerqueira

    Bem Luiz, não quero ser redundante e atentar para o fato de que sua matéria está mais uma vez pendendo para um dos lados, pois Rene Guedes e Henrique Dias já o fizeram, este último sendo mais direto. Porem vou abrir aspas para o trecho em que o senhor finalmente diz: …”Eu NÃO SEI se isso aconteceu esses dias na França”…. Porem em linhas antes desta, o senhor afirma que, tais jornalitas não podem cair na armadilha de achar que aquele material que esta sendo entregue(comprado), é de total confiança, pois se trata apenas de mera oportunidade de ganhar um pouquinho mais, as custas da ingenuidade das pessoas que fazem parte do meio interno e externo.
    Afinal de contas esse seu comentário foi comprado ou foi apurado? O senhor confia na integridade de sua fonte? Podemos afirmar que lutar pôr dignidade e oportunidade no caso dos “suburbanos” de Paris, trata-se de mero negócio informativo? Por favor caro Luiz Weis não subestime a inteligência.

  4. Comentou em 13/11/2005 Rene Guedes

    Pois é sr. Weis….

    isto acontece na frança…no Brasil, onde nossa mídia é democrática e imparcial, e os nossos jornalistas probos e profundamente patrióticos, ISTO NUNCA ACONTECERIA…..ehehehehe

    Uma pergunta, quantas aspas existem nesta crise política, sr. Weis….

    Pq o silêncio em relação ao ACmduto da Bahiatur ??? Pq o silêncio em relação ao Valérioduto PSDbistas ??

  5. Comentou em 12/11/2005 Henrique Dias

    Pelo que entendi, Lapouge acha que toda essa baderna que impera na França é provocada basicamente pelos correspondentes estrangeiros que incentivam os deliquentes a cometerem estas barbáries para terem notícias a enviar aos seus jornais. Nada haver com discriminação étnica e social, com falta de emprego e demais necessidades básicas.
    Usando o mesmo raciocínio de Lapouge, chegamos a conclusão de que os atentados no Iraque também são incentivados pelos jornalistas, inclusive os dos homens-bomba e aquele ataque ao hotel, onde os próprios costumam ficar hospedados.
    O que me parece é que Lapouge está tentando ‘limpar a barra’ da sociedade francesa, a qual todo o mundo admira pela civilidade e cultura. A França também tem seu lado terceiro-mundista e não adianta tentar esconder.
    Resumir o problema social dos imigrantes na França a uma simples necessidade de fazer matéria jornalística, é uma visão distorcida, cega e perigosa da realidade.

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