Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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Verdade com prazo de validade

Por Luiz Weis em 14/11/2005 | comentários

Em 2004, o candidato tucano a prefeito de São Paulo, José Serra, prometeu de papel passado que cumpriria o seu mandato até o fim.

Fez o que fizera quatro anos antes o candidato petista à reeleição em Ribeirão Preto, Antonio Palocci. Este rasgou a palavra empenhada em 2002. José Serra prepara-se para fazer o mesmo no ano que vem.

Se continuar aparecendo nas pesquisas como o único adversário verdadeiramente competitivo de Lula. E se ganhar a briga de foice que trava no PSDB com o governador Geraldo Alckmin, que está convencido de que a sua hora está chegando.

Ontem, o Estadão deu uma entrevista de duas páginas com o prefeito Serra. Entrevistador, o tarimbado e competente Paulo Moreira Leite.

Já no apagar das luzes do pingue-pongue o repórter finalmente toma a iniciativa de indagar:

“Por que o senhor declarou e assinou uma declaração que iria cumprir o seu mandato até o fim?”.

A única resposta honesta só poderia ser: “Porque isso me ajudaria a ganhar a eleição e porque, àquela altura, não passava pela cabeça de ninguém que Lula pudesse não se reeleger por ampla maioria em 2006.”

Mas, sendo a grande maioria dos políticos o que é, ele se saiu com a seguinte enormidade:

“Eu disse a verdade. Era o que sentia naquele momento.”

Sentia? Naquele momento? Que história é essa? Um candidato se compromete com uma população inteira, um ano depois um jornalista lhe faz uma pergunta que embute a expectativa de que a promessa será descumprida, e o político não só não se dá por achado como reduz tudo a um sentimento passageiro – tipo “eterno enquanto dure”

Ou melhor, verdade com prazo de validade.

E o que faz o entrevistador? Pergunta ao prefeito se ele está arrependido de sua “declaração” (usar a palavra promessa, nem pensar).

A resposta é um modelo de enrolação: “Primeiro, não posso me arrepender de ter dito a verdade [a verdade que, ao que tudo indica, ele se prepara para renegar]. Segundo, era inevitável que isso fosse perguntado reiteradamente durante a campanha [se não fosse, para que fazer um pacto com o povo da cidade a que aspirava governar?]”

E eis que, em vez de perguntar o óbvio contundente – algo na linha de “como o senhor acha que irão reagir os 3,3 milhões de paulistanos que devem ter acreditado na sua palavra, do contrário muitos deles talvez não o elegessem?” –, o repórter retruca com um anódino “O que mudou exatamente?”, dando margem a mais enrolação: “…fatores alheios a mim”, “[não estou] envolvido com o assunto pessoalmente…”, “meu exercício cotidiano é não me envolver e fazer meu trabalho.”

O prefeito José Serra e o jornalista Paulo Moreira Leite protagonizaram um episódio de manual: o primeiro diz o que lhe convém, o segundo deixa que ele se safe numa boa.

O episódio é de manual porque essa é a marca de Caim do jornalismo brasileiro em geral e do jornalismo político em particular: salvo as proverbiais exceções que confirmam a regra, o entrevistador não encosta o entrevistado na parede, não faz que coma o pão indigesto que ele próprio amasssou, não assume o papel de porta-voz das inquietações e indignações da sociedade com os que lhe ofendem a inteligência, tomando-a como um ajuntamento de parvos desmemoriados.

Para ficar no caso do dia, Serra e Moreira Leite são homens do mundo. Viajaram o bastante para saber que não há hipótese de uma situação dessas terminar como terminou – mendaz, de um lado, acoelhada, de outro -, se o político e, principalmente, o jornalista fossem britânicos.

Na ilha, jornalista que vale o seu sal e zela por seu emprego – e não me refiro a jornalista de tablóide – se lança sobre o político, com todo o respeito, feito um buldogue. E aquele que trate de ser imaginoso e persuasivo para não ficar com os fundilhos em farrapos.

Aqui, políticos desdenham dos eleitores. Jornalistas, dos leitores. Depois se queixam quando o povo diz que não estão com nada.

***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/11/2005 Regina Celia de Araujo Ferreira

    Há 30 anos não pude completar meu curso de jornalismo na Eco/UFRJ; durante muitos anos foi minha maior frustração; no ginásio participei da criação e elaboração de um jornalzinho, e com paixão;me tornei Revisor de texto;não consigo ver com naturalidade o comportamento da classe em geral; mais que profissão é sacerdócio.
    Felizmente hoje temos a internet… Observatório, e alguns ‘blogs’ de verdadeiro jornalismo. Nas crises o péssimo fica mais evidente… E ainda querem que a gente compre jornal para se informar… Como pensante dispenso a informação dos primeiros cadernos dos órgãos da grande mídia; foco apenas nos cadernos ‘B’.

  2. Comentou em 15/11/2005 Ary Carlos Moura Cardoso

    Prezado Weis:

    Quando se trata de iludir e engabelar o próximo, o senhor o sabe, ninguém supera a classe política. Na verdade, sejamos honestos, tal prática sempre esteve presente na caminhada humana, pior ainda, a coisa está em todos os ‘reinos’ por nós conhecidos. Na busca de seus interesses, o homem engendra ‘cantos de sereia’ e arquiteta ‘cavalos de tróia’. A Astúcia, imaginam alguns, resolverá tudo. Portanto, amigo, não me surpreende esse pérola da enrolação: ‘Eu disse a verdade. Era o que sentia naquele momento’.

  3. Comentou em 15/11/2005 Célio Mendes

    Bobo é quem acredita em palavra de politico. Alias o senhor Serra não poderia ter sido mais sincero, naquele momento ele não pensava em ser candidato a candidato a presidente, mas como disse o Tranquedo ‘politica é como nuvem quando voce olha ta de um jeito quando olha de novo ja mudou’

  4. Comentou em 15/11/2005 Andrea Baulé

    Estou chegando a conclusão que a politica é assim, eles fingem que dizem alguma coisa e nós fingimos que acreditamos.
    Porque se um político não é capaz de cumprir a sua própria palavra, não podemos mesmo acreditar neles. Parece promessa de gordinho, na segunda eu começo a fazer dieta, pros politicos é na segunda começo a falar a verdade e cumpri-la.
    O oléo de peroba corre solto, de Brasilia e CPI´s até São Paulo, infelizmente.

  5. Comentou em 15/11/2005 Thereza W

    Obrigada, o senhor escreveu o que senti ao ler a reportagem com o Serra. Ele perdeu meu voto. A resposta sugerida em seu artigo seria honesta e ele subiria alguns pontos no meu julgamento.

  6. Comentou em 15/11/2005 Beto Venturini

    É óbvio que o jornalista do Estadão não iria deixar Serra em maus lençóis com perguntas embaraçosas, pois este jornal ajudou a elegê-lo. Na época das eleições, um grupo de estudos identificou o favorecimento de noticias a favor de Serra no jornal e ainda os editoriais até hoje culpam a gestão da Marta por todos os problemas enfrentados por Serra na atual admnistração. A promiscuidade e comprometimento politico do jornal Estadão com Serra e Alckmin e lógico todo o PSDB é evidente. O jornal atua quase que como assessoria de imprensa destes, pois nos editoriais só há elogios a Serra e principalmente Alckmin que vai completar 10 anos no governo do estadop sem nenhuma crítica. O jornal não vai a fundo em investigar os governos estadual e municipal de São Paulo qdo há denuncias contra os dois tucanos, se fosse do PT seria diferente. O pior é que o jornal sempre apóia em editoriais as decisões de Serra e principalmente de Alckmin. Um exemplo, foi o veto do governador de mais de 500 milhões a mais para a educação e foi elogiadíssimo por essa atitude pelo Estadão em editorial. É um jornal que politicamente mostra a quem esta servindo e o lado de quem esta. Assim, é um jornal que é unha e carne do PSDB e PFL respresentando oligarquias e a elite que sustenta seus polpudos patrocínios.

  7. Comentou em 15/11/2005 Laerthe Abreu Junior

    Mais uma vez, o senhor se utiliza de uma imagem agressiva (antes era uma luta (de boxe?) e agora é um buldogue que morde os fundilhos)para falar do modo como deve se fazer uma entrevisa com um político. Vejo duas questões: a primeira é que o jornalista trabalha numa empresa privada. Pelo amor de Deus, não acredito que o senhor acredita em ´liberdade de imprensa´? Ora, se o jornalista for contra os interesses do patrão, ele cai fora e poderá ficar desempregado, pois praticamente toda a grande imprensa, ou seja, aquela que tem condições de contratar repórteres e jornalistas é tucana. Daí a satisfação com a versão do Serra. Ele diz que naquele momneto ele falou a verdade e pronto. A grande imprensa quer pautar a realidade, não está aí para apurar nada com isenção. Aliás não sejamos ingênuos. Não há fatos; é um grande engano (auto engano), naturalizar a ´verdade´. Não há verdade. Só há versões, interpretações. Vemos no Brasil como ´coincidentemente´ toda a grande imprensa apresenta e vende a mesma versão da realidade: o PT é corrupto e há que se acabar com qualquer possibilidade do Lula tentar a reeleição. É claro que o senhor mesmo tem um interesse político. Ao escolher publicar a matéria sobre o Serra, pode estar defendendo um valor pessoal que é a preferência pelo Alkmin. O jornalista que não atende os interesses dos donos da verdade (‘vamos passar o Brasil a limpo ou seja, vamos acabar com o PT’ ou ‘ Por uma política ética, ou seja uma política sem Lula, Zé Dirceu, Palocci, Genuíno, os novos vilões criados pela direita) pode ter grande dificuldade em conseguir trabalho em qualquer uma dessa meia dúzia de órgãos do 4º poder familiar e dinástico. E a segunda questão: o senhor enalteceu a imprensa britânica. Não vi a imprensa de lá nocautear ou morder e com isso provocar a demissão de um tal de Blair (não o primeiro-ministro mas o chefe de polícia) que mentiu sobre o assassinato daquele brasileiro. Parece que a história ficou mesmo contada pela versão da polícia e a ´valorosa´ imprensa britânica se omitiu em bater ou morder o chefe de polícia até ele contar o ´fato´ ou a ´verdade´. Todos os ingleses ficaram aliviados com a versão da polícia (e da imprensa)e foram alegres e contentes beber seu chá.

  8. Comentou em 15/11/2005 mauricio salles

    Não sendo britanicos,a verdade momentanea faz parte do nosso dia a dia.Quantos ‘Passe lá em casa’,sem darmos o endereço,’telefone’ sem nunca atendermos,’vamos tomar um chopp’,sem termos a menor intenção de beber com aquela pessoa.’ficarei até o final do mandato’.A magnitude da ‘verdade’ importa? Se nós fossemos intolerantes com as pequenas momentaniedades,teríamos partidos feito buldogues sobre o prefeito,e continuaríamos a não ser britanicos e não tolerariamos ser desdenhados

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