Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Vexame: dono de rádio socorre Lula em entrevista

Por Luiz Weis em 19/11/2005 | comentários

Só no Estadão de hoje vi, bem contada, a história do serviço prestado ao presidente Lula por um político e dono de uma rádio, na entrevista dele a nove emissoras, ontem cedo no Planalto.

O político é o goiano Sandes Júnior, do PP, um dos partidos da base governista. Ele é dono da Rádio Terra, de Goiânia. Identifica-se como radialista e advogado.

Como inumeráveis outros políticos brasileiros, ganhou sucessivas eleições graças à carreira radiofônica. Em muitos casos, a etapa seguinte consiste em ganhar concessões de emissoras por serviços prestados ou a serem prestados aos governos de turno.

Pois bem. Em dado momento da entrevista que seria de esperar fosse dada a repórteres e não a donos de estações, muito menos a políticos e muitíssimo menos a políticos da base aliada, Lula cometeu o “lapso”, como disse depois, que desde logo dividiu as atenções da mídia com as suas declarações sobre a necessidade de “consertar” a economia e com a violenta discurseira dos tucanos, na convenção nacional do partido.

O “lapso” foi afirmar: “Vou, sim, disputar as eleições.” [Já na convenção tucana, Fernando Henrique provocaria: “Queremos que ele seja candidato outra vez, para derrotá-lo.”]

Cometido o lapso – que o colunista Merval Pereira chamou de ato falho, no Globo de hoje, e fez bem em explicar que a expressão designa a manifestação involuntária de um desejo recalcado -, houve uma pausa na entrevista.

Nesse momento, relatam os repórteres Tânia Monteiro e Leonencio Nossa, do Estadão, o porta-voz André Singer fez ver a Lula que a sua afirmação já circulava a mil pela internet, nos sites e blogues jornalísticos.

“Mas eu não falei isso, falei?”, reagiu Lula, e a entrevista recomeçou. Foi quando o bravo advogado, radialista e político aliado Sandes Júnior resolveu advogar em favor do entrevistado. Estabeleceu-se o seguinte diálogo, para iluminação dos rádio-ouvintes brasileiros:

Sandes: “O senhor quis falar “vou para o debate” e disse “vou para a disputa.”

Lula: “Sandes, a minha convicção era que tinha dito “se for para a disputa”.

Sandes: “Mas foi sem querer.”

Lula: “Foi sem querer, porque […] não decidi se sou candidato.”

Dos presentes, o único a se salvar do vexame – porque os demais entrevistadores enfiaram o microfone no saco, como se o seu “colega” Sandes Júnior não tivesse ofendido os presumíveis brios profissionais deles todos – foi o repórter Fábio Marçal, da Rádio Gaúcha.

No ar, disse o mínimo que se poderia dizer da indisfarçada ação entre amigos que acabara de acontecer no que, supostamente, era uma coletiva de um presidente sério a jornalistas sérios.

“Presidente”, estocou, “o Sandes Júnior […] virou líder governista da entrevista.”

E a matéria do Estado termina informando que assessores do Planalto negaram qualquer acordo com Sandes Júnior para ajudar Lula. Eles argumentaram que o parlamentar representava rádio de “grande audiência”.

Então, tá.

***

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