Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Votos, números e baionetas

Por Luiz Weis em 29/10/2008 | comentários

Como é que se mede o desempenho dos partidos nas eleições para o governo de mais de 5.500 municípios?

Pelo critério mais óbvio, o do total de vitórias, o PMDB levou a palma, ao fazer 1.203 prefeitos. O PSDB ficou em segundo lugar, com 786 municípios. E o PT em terceiro, com 559.

O PMDB levou a palma também em votos recebidos: 18,4 milhões. O PT, segundo colocado, teve 16,5 milhões. O PSDB, 14,4 milhões.

Mas, sendo o que são as diferenças de população entre os municípios brasileiros, talvez fosse mais relevante considerar apenas os do chamado G-79 (as 26 capitais e as 53 cidades de 200 mil eleitores para cima, aquelas em que pode haver segundo turno). Nesse caso, o PT lidera, com 21 vitórias, seguido pelo PMDB (17) e o PSDB (13).

Outra resposta ainda vem da comparação dos resultados, em cada caso, com os da eleição anterior. De 2004 para cá, o PT ganhou 148 prefeituras. Cresceu, portanto, robustos 36%. O PMDB, 13,8%. Já o PSDB encolheu 20,6%, e o DEM (ex-PFL) 51%.

A esses cálculos, amplamente divulgados pela mídia, o Globo acrescentou na edição da quarta-feira (29/10) a modalidade chamada “taxa de sucesso”, que seria a mais reveladora. Trata-se da proporção de prefeitos eleitos sobre o total de candidatos.

Por esse critério, o PMDB e o PSDB foram os grandes vencedores – elegeram 47% e 46% dos respectivos candidatos. E o PT só elegeu 34%, o índice mais baixo entre as principais legendas.

O problema com a “taxa de sucesso” é que, embora proporcional, ela só seria um termômetro perfeito se todos os partidos lançassem candidatos em todos os municípios. Como isso não se coloca, numa situação-limite, só para raciocinar, o partido absolutamente vitorioso, com 100% de sucesso, seria aquele que lançasse um único candidato a prefeito – e ele se elegesse.

Outro argumento é que, em eleições competitivas num país heterogêneo como o Brasil, quanto maior o número de candidatos de um partido, menor, provavelmente, a sua proporção de vitoriosos. Um partido pode apresentar candidatos em pencas de municípios apenas para se fazer presente, sabendo que perderá em muitos deles.

Já dizia Bismarck que os números são como as baionetas: pode-se fazer tudo com elas, menos sentar em cima. O leitor devia saber disso.

Voto e cor nos Estados Unidos

“Questão racial ameaça tirar votos de Obama”, lê-se no alto da primeira página do Estado de quarta-feira. “A animosidade racial pode ser decisiva na eleição presidencial americana”, informa a chamada.

Há meses que o assunto entra e sai do noticiário. Diz-se que a vantagem de Obama nas pesquisas é ilusória, porque uma parte dos entrevistados – que pode não ser grande, mas seria grande o suficiente para fazer diferença – mente: diz que votará em Obama para não dizer que votará no branco John McCain.

E a toda hora se invoca o “efeito Bradley”, o candidato negro a governador da Califórnia em 1982 que ganhou nas pesquisas e perdeu nas urnas, aparentemente por esse motivo.

Se era para voltar ao assunto, a esta altura, bem que o jornal poderia dar o “outro lado”, citando o artigo de domingo do insuspeitíssimo colunista Frank Rich, do New York Times, chamado “Em defesa dos americanos brancos”.

Depois de dar uma pá de exemplos do mal-disfarçado racismo da campanha republicana, ele sustenta que “nem por isso o país é racista”.

Rich se detém na “obsessão com o efeito Bradley”, como se – nas suas palavras – nada tivesse mudado na América de 1982 para cá. Sem deixar claro por que, ele diz que a diferença entre aquelas pesquisas e os resultados efetivos possivelmente não se explica pelo racismo enrustido dos eleitores. Mas, vinda de quem vem, a contestação é de levar em conta.

“Em 2008, se existe alguma evidência, é de um efeito Bradley ao contrário”, escreve o colunista. Nas primárias, Obama teve mais votos de verdade do que lhe davam as pesquisas derradeiras – ou pelo menos isso aconteceu com mais frequência do que o seu contrário.

Para Rich, a imprensa liberal erra – e a campanha de McCain erra mais ainda ao se valer desse equívoco para confirmar os seus próprios preconceitos.

“Não há e nunca houve um número suficiente de racistas em 2008 para virar a eleição”, ele bate o martelo.

O colunista ressalta que nas pesquisas recentes Obama empata com McCain entre os eleitores brancos homens – o que nenhum outro candidato democrata, Bill Clinton incluído, conseguiu em três décadas.

Em uma semana se saberá se Rich tem razão. Mas agora, falha o jornal ao abordar (tardiamente) o problema racial na sucessão de Bush sem dar a opinião de um respeitado jornalista americano para quem o problema é fictício.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/11/2008 Lamarca Kropotkin

    Olá Luis!

    Continuam em vigor duas frases lapidares ditas por 2 grandes jornalistas:

    ‘A liberdade de imprensa só interessa ao dono do jornal’.
    H. L. Mencken, jornalista e filólogo americano

    ‘O Brasil possui a melhor imprensa que o dinheiro pode comprar’
    Aparício Torely, vulgo Barão de Itararé

    Saudações democráticas.

    PS – que existam jornalistas que recebam envelopes recheados com verdinhas mensalmente, tudo bem (sou testemunha ocular),
    O que aborrece é ser considerado, pelos mesmos jornalistas, um Hommer Simpson.

  2. Comentou em 01/11/2008 Douglas Puodzius

    O Sr. Kfouri esqueceu de dizer que, também essas cidades não foram conquistadas pelo PSDB. O Problema da festa é que tucanos não tiveram outros sucessos para compensar já os petistas, como se observa pelos resultados tem muito o que comemorar…

    Questão de Tempo…
    Daqui há dois anos Kassabi sofrera o efeito Collor/Pitta – A maioria negara ter votado no homem e aqueles eleitores conhecidos se declararão ‘Enganados como milhões de Brasileiros’…

  3. Comentou em 01/11/2008 VALD ESTI

    -Os EUA, devem o Obama ao Mundo, muito do que pensamos dos gringos, estará sepultado com estas eleições. Caso contrario será a confirmação de todo o anti americanismo, já em escala mundial, e que está levando a nação Ianque ao declinio, anti americanismo sintetizado no 11 de setembro. Vi e ouvi muita gente, com um ar de sorriso ao ver os americanos serem atacados em seu proprio solo.
    Obama é a redençao de seu povo em ultimo sentido culpado por tudo o que seus governantes fazem e fizeram pelo mundo. Como matar lideres civis hostis aos interesses americanos. Como fizerem os colonialistas e escravogratas no Brasil, e no mundo, matando os lideres e todos quantos fossem mais inteligentes para manter seus ‘status quo’. Agora surgiu na net a entrevista do filho de Joao Goulart, afirmando que Lastrah, assessor de Mc Cain foi um dos conspiradores que levaram a morte o ex presidente da República. Todos quantos acompanham a historia, sabem da operação nazi fascista que eliminou lideres latinos. E digo mais a crise dos EUA, tem muito a ver com a atual independencia Latina, ou seja a teta secou e eles nao tiveram de onde tirar o trilhao de dolares que saia a cada cinco anos do continente. em minerios.
    È so analizarmos, Lula, Chaves, Bachelet, Tabaré, Evo, Lucando, Kirchener, Rafael correa, todos com um projeto de nação, coisa que nunca houve, antes os neo liberais vassalos dominavam.

  4. Comentou em 01/11/2008 janes pretto

    Para que os ‘vencedores’sejam os amigos da mídia(casa da hopocrisia), detonar a milenar lógica matemática virou rotina.O que admiro nas pessoas que votam nas esquerdas, é que elas votam a favor de alguém, enquanto os outros deixam bem claro que votam apenas contra o pt. Se para votar contra alguém é preciso eleger o pfl, desculpem paulistas, mas chamá-los de manipuláveis seria elogio, devem ser apenas ‘inocentes conservadores’.Bah!

  5. Comentou em 01/11/2008 ubirajara sousa

    Sr. Cacalo, eu sou psicólogo, posso provar. E o senhor, é de fato jornalista? Quanto ao mais, sem comentários.

  6. Comentou em 31/10/2008 cacalo kfouri

    acho engraçado uma pessoa que usa o termo racista inadeqüadamente recomendar-me mais estudo. diz-se psicólogo, faz julgamentos preconceituosos, pois generaliza a opinião de uma pessoa para a população de duas regiões do país, e não é capaz de separar o seu viés político de um simples raciocínio aritmético: o número de votos nas grandes capitais é maior e têm mais peso que nas menores. pergunte para o lula qual a cidade em que ele queria ganhar a prefeitura acimade todas, onde ele pôs o seu maior esforço, para onde ele enviou 11 ministros para ajudar na campanha? será o lula discriminador também? de qualquer forma, arrependo-me de ter entrado nesta discussão paralela, pois o que importa é o que pensa o dono do blog, nós deveríamos só comentar, com respeito e educação, o que ele escreveu. e, principalmente, acatar a opinião de cada comentador, democraticamente. as discussões paralelas não levam a nada, o que importa é o que o weis escreveu, e é sobre isto que devemos nos ater nos nossos comentários, caso contrário a coisa não tem fim. eu escrevo, alguém comenta o que escrevo, eu respondo, o outro responde etc. etc. etc. e o fundamental se perde. da minha parte, dou por encerrada a discussão, venha o que vier. com todo o respeito

  7. Comentou em 31/10/2008 ubirajara sousa

    Senhor cacalo, apenas para tornar-lhe um pouco mais fácil, a interpretação, quem vota não são as cidades mas os seus habitantes: o povo. Então…

  8. Comentou em 31/10/2008 ubirajara sousa

    Amigo Cacalo, o meu título é devido. Quanto à minha afirmação de que o seu comentário pode conter componentes racistas, ratifico-o. Talvez o senhor, como Jornalista, devesse estudar um pouco mais para não ficar na superfície das coisas, sobretudo do discurso. Um abraço.

  9. Comentou em 31/10/2008 Ivan Moraes

    ‘É, para alguns paulistas (se não para a maioria), o Brasil são as grandes capitais’: em todas as quais chove muito, eh por isso que nelas passeiam tantos cavalinhos montados com balofos paulistas!

  10. Comentou em 31/10/2008 cacalo kfouri

    ao sr. ubirajara: nem racista, nem discriminatório, aritmético.
    e sr, que se intitula psicólogo, tem por obrigação saber o que é racista.

  11. Comentou em 30/10/2008 Sandro Sousa Araújo

    Pra quem não entendeu a piada. o ‘Adimirável’ é de propósito.

  12. Comentou em 30/10/2008 Sandro Sousa Araújo

    Luiz, esses números que você citou e que também foram citados por outras fontes jornalísticas, como você disse, só mostram como os partidos políticos olham para o eleitor: um número. Os eleitores votam nos candidatos, esperando que tais candidatos depois de eleitos, supra as necessidades da população da forma mais correta, conveniente ou rápida. No final, acontece o que vemos aqui: somos uma porcentagem para inflar o ego de poucos, que falam da gente mas não pela gente. Citam-nos para barganharem postos em todas as esferas do poder público. Adimirável gado (nem tão) novo.

  13. Comentou em 30/10/2008 ubirajara sousa

    É, para alguns paulistas (se não para a maioria), o Brasil são as grandes capitais + São Paulo. Como eu classificaria o comentário do senhor Cacalo Kfouri: racista ou discriminatório? Ou as duas coisas juntas?

  14. Comentou em 30/10/2008 Ivan Moraes

    ‘únicos perdedores foram realmente os eleitores de Belo Horizonte’: da proxima vez diga a eles que prefeito fraco e sem apoio eh facinho facinho derrubar. Ja o tal Lacerda esta livre pra burrada apos burrada com apoio logistico visivel e invisivel.

  15. Comentou em 30/10/2008 cacalo kfouri

    creio que exista mais um critério, a relevância das capitais em que o pt não levou: são paulo, porto alegre, rio de janeiro, salvador, curitiba, florianópolis e belo horizonte (aí valeu o aécio…)

  16. Comentou em 30/10/2008 Carlos N Mendes

    Ótima frase do Bismarck, tão boa quanto a das salcichas e a política.

  17. Comentou em 30/10/2008 Zé da Silva Brasileiro

    Interessantes eleições essas em que, supostamente, não houve perdedores e todos estão se declarando ‘vitoriosos’. Até os ‘demos’, supostamente ameaçados de extinção ou fusão com os tucanos, do alto da sua última trincheira em São Paulo, estão se declarando ‘vencedores’. Parece que os únicos perdedores foram realmente os eleitores de Belo Horizonte, colocados numa sinuca de bico e obrigados, segundo diria Leonel Brizola, a escolher entre o demônio e o coisa ruim…

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