Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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Web: a Babel cibernética

Por Carlos Castilho em 01/08/2008 | comentários

No seu penúltimo exemplar de julho, a revista britânica The Economist publicou um artigo sobre o fenômeno do ultra-nacionalismo na Web indicando que o espaço cibernético tenderia a se transformar num ambiente caótico, ao melhor estilo Torre de Babel.


 


O artigo parte de dados reais como a multiplicação de websites e weblogs sobre reivindicações nacionalistas e movimentos xenófobos nos quatro cantos do mundo, em especial na Europa e na Ásia Central. Menciona também uma pesquisa do Centro Simon Wiesenthal, sediado em Los Angeles, indicando que o número de páginas que promovem o ódio e a xenofobia na internet duplicou entre 2004 e 2008, quando atingiu 8 mil sites monitorados.


 


The Economist tem razão ao constatar o crescimento vertiginoso da circulação de material pregando a intolerância na internet, mas peca ao contextualizar o problema, porque deixa a porta aberta para um outro tipo de absurdo, o de culpar o mensageiro quando a noticia é desagradável.


 


A multiplicação da xenofobia online é uma conseqüência da facilidade na publicação de conteúdos na Web e da formação quase instantânea de redes, vinculando pessoas e instituições. Este é um processo que veio para ficar, por mais que nos custe admiti-lo.


 


Quando Gutenberg criou a impressão gráfica a partir de tipos móveis, a primeira grande conseqüência da descoberta foi a divulgação da rebelião de Martinho Lutero contra a cúpula da Igreja Católica, multiplicando os focos de contestação à hegemonia da cúria romana. Foi o primeiro grande desdobramento político da crise gerada pela inovação gráfica e hoje ninguém se expõe ao ridículo de desmerecer Gutenberg por isto.


 


O que a Web está fazendo é desnudar o mundo em que vivemos. A xenofobia, o ultra-nacionalismo e a apologia da violência não surgiram com a rede. Eles simplesmente só eram percebidos quando atingiam um ponto crítico, porque os recursos para circulação de informações eram reduzidos e centralizados.


 


Agora tudo está escancarado por conta da internet, criando uma sensação de medo e insegurança gerados pela nossa falta de intimidade e conhecimento em relação a um ambiente gerado por um processo inovador que não tem mais volta.  Temos a impressão de estarmos revivendo a Babel bíblica tal a cacofonia informativa que começa a se avolumar dentro da rede.


 


Mas há também o outro lado da moeda. Todo o processo de massificação leva a vulgarização e portanto a desvalorização, que na Web é sinônimo de desatenção. Só vão sobreviver os weblogs e sites que criarem diferenciais ou agregarem valor informativo, seja pelo uso de softwares (como o RSS, por exemplo) ou pela contextualização, fruto de pesquisa e do conhecimento.


 

Este processo implica a necessidade de reflexão, reconhecidamente o melhor antídoto para a xenofobia e a intolerância.

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/08/2008 Luciano Prado

    Não existe valor maior a ser agregado do que o compromisso com a verdade factual. Saber respeitar o internauta, deixando sempre evidente a diferença entre opinião e fato. E não tentar enfiar ‘verdades’ em sua cabeça. A credibilidade e a fidelidade vêm naturalmente.

  2. Comentou em 03/08/2008 Matheus Martins

    Por falar em RSS, eu assino o RSS deste blog (e de outros também) e cheguei aqui através
    do RSS.

    RSS é bom porque agiliza a leitura online. É muuuuuuito difícil acompanhar tanta informação
    sem ter um RSS.

    Parabéns pela matéria e pelo blog. Aliás este blog sempre vale cada minuto *investido* na
    leitura –time is money.

  3. Comentou em 02/08/2008 lu dias (f)

    Os avanços tecnológicos não retrocederão, quer os aceitemos ou não. E todos implicam em pontos positivos e negativos. Resta-nos optar pelos que tenham um peso positivo maior. Não resta dúvida de que os pontos positivos superam os negativos, na web. E neste mundo veloz em que vivemos, a tendência de permanência será sempre dos bons. Os ruins com o tempo vão se perdendo neste universo virtual.
    Entra aí o papel da escola, inclusive ampliando a grade de filosofia e de sociologia, no sentido de humanizar os alunos; assim como o da família na condução de seus rebentos. A responsabilidade dos educadores (professores e família) dobrou. Nunca o conceito do bem e do mal esteve tão interligado. Sem dizer que a web é o resultado do estágio de vida em que se encontra a sociedade. Como o caráter é um ajuntamento de elementos afetivos, sobre os quais os elementos intelectuais possuem pouca infiltração, vamos encontrar na web indivíduos com as mais diferentes personalidades: ativos, apáticos, iracundos, afetivos, comprometidos, egocêntricos, humanistas, universalistas. Assim como as margem de um rio canalizam o seu curso, esperamos que os dirigentes políticos, os mestres e as famílias possam canalizar as gerações vindouras para um mundo melhor, onde prevaleça o ecumenismo. Pois são os caracteres de um povo que definem o destino de uma nação e, consequentemente, do mundo.

  4. Comentou em 02/08/2008 Lau Mendes

    De fato Sr.Castilho não se pode assassinar o mensageiro caso a noticia não nos agrade. Mas eu não colocaria o jornalista como mensageiro sob risco de confundi-lo com “tele-entrega” (mensagem WEB) , o tal sela . Acredito que o jornalista esta para o historiador para o cientista, com o dever precípuo de relatar fatos, independente de idiossincrasias pessoais como descrito no decorrer de sua analise da provável evolução que ocorrerá na WEB. E neste aspecto, de analista do fato conhecido e divulgado com seriedade, tanto faz que o “mensageiro” aumente ou diminua importâncias específicas porque antes o fato foi amplamente registrado com seriedade. O que fica complicado de aceitar é a “mensagem” manchete da “BOMBA ATÔMICA” e quando abrimos o jornal aparece o “trac” de S.João.

  5. Comentou em 02/08/2008 Zulcy Borges de Souza

    Mais um texto esclarecedor de Castilho que ainda serve para desmitificar uma revista conservadora que se construiu internacionalmente apenas via marketing, a não ser no Brasil onde temos mania de por nas alturas qualquer órgão estrangeiro. Só queria saber o que é RSS e o que ele faz.

  6. Comentou em 02/08/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Excelente artigo. É preciso deixar bem claro que quem promove intolerância são os fundamentalistas religiosos (especialmente os neocons norte-americanos), os políticos ultra-nacionalistas (Karadzic e companhia) e os governates irresponsáveis e seus amigos que fabricam armas (Bush e cia.). Não foram os internautas que começaram a guerra no Iraque por causa de armas de destruição em massa que não existiam. Não foram internautas que criaram a Blackwater ou que a contrataram para matar indiscriminadamente civis iraquianos. O ativismo ‘on line’ é mais benéfico do que maléfico. São as imensas redes de internautas podem ajudar a controlar os danos que os Bushs e seus prepostos andaram produzindo.

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