Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Wikileaks escancara a terceirização da guerra e coloca a imprensa diante de desafio

Por Carlos Castilho em 25/10/2010 | comentários

A nova leva de documentos secretos publicada pelo site Wikileaks desnudou para o público uma realidade sinistra materializada pelo fenômeno da terceirização da guerra nas mãos de empresas privadas, sobre as quais a sociedade tem pouco ou nenhum controle.


 


Muito já foi dito sobre o pacote de quase 400 mil documentos secretos divulgados pelo site especializado em publicar notícias e documentos sem verificação jornalística prévia. Mas o que ainda falta discutir é como o público vai digerir este material e a provável avalancha de outros que certamente congestionarão os fluxos informativos na web nos próximos meses e anos.


 


Os jornalistas terão um papel essencial neste processo, mas é fácil prever que a verificação de informações tende a se tornar cada vez mais complexa e exigente em matéria de mão de obra. As redações de jornais estão muito enfraquecidas pelos sucessivos cortes impostos pelas indústrias da comunicação para enfrentar as incertezas da digitalização.


 


Por isso deduz-se que a interpretação e contextualização do novo pacote de documentos secretos vai exigir um esforço que supera a capacidade operacional das redações, repetindo a situação surgida há um ano e meio, quando o jornal inglês The Guardian recorreu a seus leitores para destrinchar pouco mais de 470 mil páginas de documentos sobre corrupção no Parlamento britânico.


 


Na época, a respeitada Fundação Nieman, da Universidade Harvard, qualificou a decisão do jornal como um marco na história do jornalismo contemporâneo. Agora surge uma situação muito similar colocando um novo desafio diante das redações de jornais. Caso não haja uma preocupação idêntica ao caso do The Guardian, corre-se o risco de perder uma oportunidade histórica para questionar o papel de empresas privadas na segurança nacional e internacional.


 


Também a responsabilidade dos governantes entra em pauta na medida em que a terceirização dos contratos é da alçada deles. A imprensa não pode se omitir numa situação como esta porque está em jogo o seu papel como provedora de informações para que a sociedade possa patrulhar o papel do Estado.


 


Quando a segurança nacional — da mesma forma que já aconteceu com a segurança pública urbana — é privatizada, os cidadãos perdem os instrumentos institucionais de controle e passam a depender da “boa vontade” de empresas privadas geralmente pouco preocupadas com a transparência de suas ações. A imprensa seria o caminho normal para evitar que situações como esta acabem se generalizando, mas o que se tem observado até agora é um silêncio preocupante.


 


Diante das restrições orçamentárias e das dimensões da tarefa, não restam outras opções para os jornais, emissoras de rádio, de TV e os portais informativos na web senão imitar o jornal The Guardian e pedir a colaboração do público para entender e tirar lições dos documentos divulgados pelo site Wikileaks.


 


É uma decisão complexa porque não dá para considerá-la uma fórmula mágica. O apelo do Guardian foi muito bem aceito nas primeiras semanas, mas depois perdeu seu ímpeto inicial. Passados 18 meses, metade dos documentos sobre corrupção no Parlamento britânico ainda não foram revisados pelo público. A principal razão foi falta de tempo dos voluntários mas, como assinalou a Fundação Nieman, também faltou um maior esforço motivador por parte do jornal.


 


A colaboração do público não é uma fórmula acabada, ainda apresenta uma série de problemas e necessita ser pesquisada em mais profundidade. Mas tudo indica que a busca de uma solução passa por ela.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/12/2010 Miguel Mendes Ruiz

    (continuação)
    Outro problema similar vivo é a iniciativa open-souce, ou software-livre, free software e suas vertentes.

    Nesse caso um grupo de coordenadores comprometidos a estabelecer metas rígidas e contabilizar a evolução do trabalho faz toda a diferença. Ao mostrar a evolução do seu trabalho as pessoas ficam orgulhosas e motivadas e ao estabelecer uma meta rígida para um grupo grande, mesmo que seja um trabalho enorme, saber que são muitos que trabalham nele faz com que todos trabalhem bem.

    É comum, também no mundo open-source, a realização de festas e reuniões que apelem para o maior comprometimento das pessoas e elas cumprem muito bem esse e outros papeis. Se você é novo no ramo (no caso jornalista, historiador ou cientista social) é muito produtivo profissionalmente se voluntariar em um projeto grande, participar dos encontros e conhecer pessoas no seu ramo. Assim como é produtivo para pessoas já estáveis em suas carreiras para que elas se atualizem no contato com os mais jovens.

    A habilidade dos coordenadores e comunicadores nesses projetos de grande porte deve ser muito grande, e certamente não é uma tarefa fácil, mas certamente não é impossível.

  2. Comentou em 05/12/2010 Miguel Mendes Ruiz

    Para imitar o jornal The Guardian e pedir a colaboração do público para entender e tirar lições dos documentos divulgados pelo site Wikileaks é posto um problema muito próximo do problema resolvido por iniciativas populares do mundo virtual.

    A Wikipedia, por exemplo, reúne informações e hyperlinks em diversos campos do conhecimento e cumpre uma tarefa social extremamente importante e só pode ser como é com a colaboração dessa mesma sociedade que se beneficia dela. Isso só é possível pois artigos da Wikipedia se tornaram prestigiados e com isso em mente as pessoas se viram incentivadas a contribuir para ela. Um trabalho de formiga que com satisfação garantida.

    Garantir a satisfação dos contribuintes é um caminho duradouro, se fossem publicadas entrevistas com os maiores contribuidores, por exemplo. Que fosse uma entrevista por dia, certamente os voluntários dedicariam mais do seu tempo ao projeto, o tal do esforço motivador por parte do jornal assinalado pela Fundação Nieman.

    Outro problema similar vivo é a iniciativa open-souce, ou software-livre, free software e suas vertentes.
    (no próximo comentário)

  3. Comentou em 07/11/2010 Juan Carlos Bosco

    Eu tenho a impresão que grandes jornais sérios como The Guardian, The
    New York Time e outros, devem ter análisado bem essas informações
    que publicaram no inicio, já que o responsavel do site Wilkileaks, entrego
    para eles publicar. Concordo com você em que a imprensa deve
    continuar atenta a fatos como esses e outros, para que nos possamos
    saber mas sobre essas e outras situações graves como essa denúncia.

  4. Comentou em 28/10/2010 Rennée Perrault

    Subscrevo todas as opiniões acima e considero a de Ibsen Marques, Técnico em Eletrônica (Caçapava/SP), como uma declaração que repõe a discussão sobre as revelações acerca da guerra e o papel da imprensa no seu devido lugar. Não há imprensa livre no mundo capitalista, aquela que tentar sê-lo será destruída por ele. Não me venham com esse papo da democracia na internet pois a imensa maioria usa a internet sem o menor compromisso com a democracia, pelo contrário, reproduzem de forma erudita ou popular a onda fascista que assola o mundo.

  5. Comentou em 27/10/2010 rogerio cardozo

    para a imprensa pouco muda com essas denucias,muitos na imprensa tratam a violencia como mais um produto a ser explorado,a expressão presunto foi criada por jornalista,e nada vai mudar para quem ganha 100, 200, ou 1000000 como o bonner presunto é só noticia e não a humanidade que foi atingida

  6. Comentou em 27/10/2010 Ibsen Marques

    Castilho, qual a diferença no atual momento entre uma empresa privada e uma empresa de imprensa? Todos sabemos que elas sobrevivem não do leitor, mas do anunciante. É com eles seu primeiro compromisso, então, o que mais importa é a ação de marketing para atrair consumidores; o compromisso com a qualidade da informação é secundário.

  7. Comentou em 27/10/2010 Roberto Ribeiro

    Ah, sim, eu me confundi, descupem. A ‘empresa’ contratata não é a Wikileaks e sim a CACI e a Titan (entre outras). I apologise, para mim ingrêis é tudo gringo.

  8. Comentou em 27/10/2010 Jaime Collier Coeli

    Oi, Castilho! As vezes desconfio que os jornalistas estão devendo alguma coisa à grande comunicadora social que é a Madona, que encontrou formula suave de informar às mamães que as filhas estavam ‘ligeiramente grávidas’. De fato, não é preciso ter acesso aos computadores da NSA ou aos arquivos da falecida KGB para lembrar que desde o início da invasão do Iraque já se discutia o fatiamento de sua ‘reconstrução’ e que o Afeganistão (Bactriana, ao tempo da Estrada da Seda e de Alexandre Magno) só poderia ser conquistado à maneira do grande general, ou seja, ‘sem fazer prisioneiros’. Não há segredos nos grandes negocios do mundo (o petroleo, as drogas e as guerras), mas eles só são ‘revelados’ quando a margem de lucro despenca violentamente. Como nas grandes religiões, esses conhecimentos são ‘revelados’ para dar fim à crença que geraram. Não têm nada a ver com o mito da ‘opinião publica’, que é apenas reformulada para criar novos empreendimentos.

  9. Comentou em 27/10/2010 jaime hofliger

    Casualmente, assisti há pouco tempo um filme – hipócrita como sempre – onde estadounidenses fazem um mea culpa pela terceirização da guerra. O ponto alto é uma frase de um senador que diz: ‘Antigamente, meu país lutava as guerras apesar do custo e não pelo lucro que poderia ter’. Também isso não é verdade, em se tratando dos Estados Unidos, mas remete à reflexão sobre a idéia muito em voga por aqui, de que tudo o que é privado é bom e tudo o que é público é ruim. Bom, acho que os países nórdicos, com aquele serviço público ‘horrivel’ deles, não pensam exatamente assim. Mas enfim, outra idéia em voga por aqui é de que os Estados Unidos são a maior democracia do mundo…

  10. Comentou em 27/10/2010 Roberto Ribeiro

    O que mais me assombra é a maneira como a imprensa ‘compra’ os eufemismos usados nessa guerra. A Wikileaks não é uma ‘firma de segurança terceirizada’ é um exército mercenário! Os ‘funcionários terceirizados’ da Wikileaks não são seguranças, são mercenários (desculpem a repetição da palavra, mas é a correta)! Esta guerra no Iraque e no Afeganistão é a maior guerra a usar tropas mercenárias desde o século XVIII. E mercenários são mercenários e agem como mercenários. Eles querem ‘maximizar os lucros e minimizar os riscos’ como dizem os administradores. Mercenários roubam, saqueiam e matam pelas costas, por isso seu uso foi abolido nas guerras modernas.

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