Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Wikipedia deixa o limbo tecnológico e enfrenta o caos social

Por Carlos Castilho em 29/08/2007 | comentários

A Wikipedia nasceu como uma revolucionária enciclopédia online, depois passou a ser usada como jornal noticioso e agora ganha ares de uma arena de confronto entre interesses de todos os tipos, da espionagem à tentativas de maquiar o ego corporativo.


 


O inovador projeto de autoria coletiva de textos tornou-se referência de consultas, mas agora descobre-se que o FBI, a CIA, a rede de supermercados Wal Mart , os grandes bancos norte-americanos e sabe-se lá quem mais,  usam a liberdade de publicação para “torcer informações”, em beneficio próprio, na edição anônima de verbetes.


 


Para muitos parece o fim de um sonho libertário. Para outros a reconfortante sensação do “eu não disse que ia dar errado”. Mas tudo indica que a primeira enciclopédia escrita e editada pelo sistema colaborativo sem supervisão está passando pelo inevitável processo de deixar o limbo tecnológico para cair na caótica realidade social da era digital.


 


Tudo isto começou a ser discutido depois que Virgil Griffith, um aluno da CalTech (Instituto de Tecnologia da Universidade da Califórnia) desenvolveu um site chamado Wiki Scanner com um sistema para identificar postagens anônimas na Wikipédia e descobriu que o serviço secreto e a policia dos Estados Unidos usavam computadores-laranjas para publicar, na enciclopédia, textos alinhados com os interesses da CIA e do FBI.


 


A Wikipédia sempre dividiu opiniões desde o seu  nascimento em 2001 por conta de seu caráter aberto, horizontal e descentralizado. Seu crescimento foi vertiginoso e hoje tem cinco milhões de verbetes publicados em mais de 200 idiomes diferentres. Para comparar, a Enciclopédia Britannica, fundada há mais de 100 anos, tem 65 mil verbetes. 


 


A velocidade de atualização da Wikipédia é tão grande que ela acabou se transformando também numa fonte de informação jornalística, porque os colaboradores voluntários passaram a incorporar notícias de atualidade aos verbetes com informações históricas.  


 


Os desconfiados tradicionalistas e os entusiasmados inovadores discutiam as vantagens e desvantagens da autoria coletiva e democrática até que as descobertas do Wiki Scanner forneceram os argumentos que faltavam para a ideologização da polêmica.


 


O que acontece com a enciclopédia virtual é apenas uma expressão de um problema bem mais complicado que é o da politização da informação e da notícia em todo o sistema da comunicação jornalística.


 


A avalancha informativa despejou uma quantidade enorme de dados, notícias e conhecimentos que nos obrigaram a ter que contextualizá-lo para poder identificar causas, conseqüências, beneficiários e prejudicados. Isto nos ajuda a evitar erros, mas também nos induz a ver tudo o que está por trás de uma notícia ou informação, e o resultado é que acabamos desconfiando de tudo.


 


É uma situação extremamente desconfortável porque nos obriga a ter que buscar novos parâmetros para avaliar o conteúdo de jornais, revistas, noticiários radiofônicos, televisivos e páginas informativas na Web.


 


Esta desconfiança generalizada nas notícias, por conta da descoberta de que elas sempre incorporam interesses, é o golpe fatal no nosso hábito de confiar na imprensa como fonte das informações indispensáveis para a tomada de decisões pessoais.


 


Para tentar reverter isto, tanto leitores como a mídia devem mudar valores, rotinas e comportamentos. A imprensa deveria tomar a iniciativa porque embora ela não seja a única responsável pelo problema, o público a percebe como causa porque esperava, e ainda espera, que cumpra a sua missão de fornecer dados isentos, objetivos e exatos.


 


Sabemos que estas três condições tornaram-se muito relativas na avalancha informativa digitalmas não adianta desafiar percepções. O mea culpa da imprensa é indispensável para que o público comece a fazer também a mudar seus comportamentos.


 


Os leitores, ouvintes e espectadores se acostumaram à idéia de que a imprensa lhes fornecia a informação pronta, como um prato feito. Agora estão começando a descobrir que a passividade na recepção informativa tem conseqüências indesejadas e que é necessária alguma proatividade por parte dos usuários de informações.


 


A Wikipédia está começando a sentir os efeitos desta mudança desordenada de comportamentos em matéria de produção e publicação de informações. Ela vai pagar um preço pelo pioneirismo, mas em compensação torna-se um laboratório para observação das mudanças em curso na chamada infosfera, o universo social da informação.

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/09/2007 marília danelon

    morei.

  2. Comentou em 31/08/2007 Rafael de Araújo Aguiar

    Todo discurso é manipulador, morou?!

  3. Comentou em 30/08/2007 Sérgio César Júnior

    É inevitável que um meio público e interativo de informações, sofresse a interferência direta ou indireta de órgãos manipuladores de dados, para servirem aos interesses corporativos de uma minoria controladora do Estado. E com a Wikipédia, não seria diferente. Contudo, há uma obrigação da sociedade em observar como são divulgadas essas informações e a que propósitos elas servem. A consciência de uma nação deve ativar o senso de discernimento sobre os formadores de opinião e agir, exigindo que textos duvidosos sejam reformulados ou retirados da enciclopédia, assim como, os autores desses textos sejam denunciados e processados judicialmente, por induzir os leitores e usuários ao erro, após saber sobre notícias tendenciosas.

  4. Comentou em 30/08/2007 marília danelon

    uma pergunta honesta: não entendi como o autor sugere que a mudança de comportamento, valores e rotinas por parte primeiramente da mídia pode alavancar uma mudança na perspectiva dos leitores quanto à proatividade que lhes é necessária para o uso das informações. minha dúvida é sobre como a iniciativa da imprensa implicaria um reconhecimento, por parte dos leitores, de que ela voltou a ser merecedora de certo crédito, ou seja, sobre como eles conseguiriam identificar essa mudança se seu posicionamento já é de ´desconfiança´, como bem apontou o artigo. grata.

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