Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

COMUNICAçãO > Imagem & Representação

Como as tragédias “nos olham”

Por José Isaías Venera em 22/09/2015 na edição 869

… alguma coisa, mesmo assim,

ali se mostra igualmente,

ali se olha e nos olha (Didi-Huberman)

No livro Eles não sabem o que fazem, Slavoj Žižek conta uma anedota em torno do título de uma pintura. Numa exposição em Moscou, determinado quadro mostrava Nadežda Krupskaja (revolucionária russa que se casou com Lenin) na cama com um jovem da komsomol (União da Juventude Comunista), sob o título: Lenin em Varsóvia. Inquieto, um visitante da exposição perguntou: “E Lenin, onde está?”, ao que o guia lhe respondeu tranquilamente: “Lenin está em Varsóvia.”

Décadas desde o fim da Guerra Fria, um evento ganhou os noticiários da grande mídia: a cabeça de um monumento de Lenin foi desenterrada em uma floresta do sudeste de Berlim. No portal G1, de 10 de setembro, a matéria aparece com o título: “Lenin ressurge em Berlim 25 anos depois da queda do muro”. Logo abaixo, a imagem da cabeça de imensa estátua em homenagem ao líder da revolução de outubro de 1917. Esse acontecimento – não o fato de Lenin ter renascido das cinzas, mas da notícia que percorreu o mundo – não funciona, também, como na piada comunista, em que o personagem central está ausente da cena, mas presente por representantes (como no nome do quadro) que mantém viva sua representação?

Ora, o comunismo há décadas não é mais uma ameaça ao capitalismo. Mas nunca esteve tão presente, sobretudo no imaginário dos conservadores brasileiros. Diante da crise econômica, eles olham para o que está fora do cenário – o comunismo – como meio para suportar a cena que, para eles, se apresenta como traumática – afinal, ela é oriunda do próprio capitalismo. Não há exemplo melhor do que a conhecida pergunta: “Por que você não vai para Cuba?”

Indo direto ao ponto do que Žižek nos sugere, o título do quadro na anedota nada mais é do que o representante a ocupar o lugar da representação que falta. O modo como cada um vê o que não está na pintura. A questão é saber qual representação ocupa o lugar da falta (a significação nunca está no objeto que faz a designação). No evento atual, a imagem da estátua da cabeça de Lenin passa a ser representante do que não está na cena, mas que permanece latente. É evidente que um acontecimento dessa natureza não ganha as páginas de jornais pela função de duplicar o evento ou de, simplesmente, noticiar que a parte do monumento vai compor uma exposição.

A imagem de Kurdi

Diante da imagem, o olhar faz rasgar a semelhança. Faz a imagem tropeçar na função de representar por semelhança uma cena, como se alguma coisa ali também nos olhasse. Georges Didi-Huberman segue Freud no movimento de deslocar conteúdos e condensar com outras imagens para formar os sonhos, no qual o sujeito adormecido é acometido pelos fluxos do inconsciente. Mas o sujeito imerso nas imagens oníricas difere do gesto de ver de forma lúcida, como o espectador diante de uma obra de arte. Não há dúvida. No entanto, o ponto de “rasgadura” da representação, para precisar a expressão de Didi-Huberman, é que o sonhador não é o outro daquele que vê com lucidez, mas, talvez, o que “faz a força do olhar”.

Na anedota comunista acima, o olhar do visitante ancorado no título da obra não vê Lenin na pintura, mas é inquerido a vê-lo. Lenin vem literalmente ocupar o lugar deste a mais que cinde a visão do espectador. A legenda não funciona como metalinguagem do quadro – passamos a entender porque Lacan afirma que “não há metalinguagem” –, mas, bem ao contrário, vem ocupar o lugar da representação. Tomemos agora esse visitante não como o sujeito da cena enunciativa e que vai ser o estopim da anedota, mas como aquele que fica perplexo diante da queda do objeto. Atordoado pela falta enunciado no título, restando-lhe (ou a nós) a resposta tranquila do guia que nomeia o objeto separado e caído do quadro para que o sentido faça sentido, ou a piada funcione enquanto tal.

A palavra imagem vem do latim imago, que significa máscara mortuária. Uma prática antiga em que um molde do rosto do morto era feito para que sua imagem pudesse se estender no tempo. Pensemos agora na imagem, registrada no dia 2 de setembro, de Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos, afogado nas águas do balneário de Bodrum, na Turquia. O acontecimento não foi a morte do menino, já que centenas de imigrantes morreram nas travessias pelo mar. Somente nos últimos quadro dias, “23 crianças se afogam em travessias rumo à Europa” (BBC Brasil, 15/09). Como se estivessem fugindo do inferno, os imigrantes lançando-se ao mar com barcos – é inevitável não pensar na tripulação de Ulisses que se lançou ao mar seduzidos pelo canto da sereia –, talvez para o canto de uma Europa que ainda se apresenta como ilustrada.

O retorno de nossa monstruosidade

O acontecimento foi a rapidez como a imagem atravessou o mundo, como se o pequeno Kurdi fosse a semelhança do que há de mais humano em cada um de nós e, diante de sua morte, seria preciso estender sua imagem (como se a foto fosse uma máscara mortuária) no tempo como um gesto para salvar nossa própria civilização à deriva.

O que provoca este estar à deriva é justamente o que faz rasgadura na visão, quando alguma coisa se impõe entre essa divisão (cisão), no qual arriscamos aqui em apresentar como o “retorno do real”, no sentido mesmo que Lacan dá a partir do conceito de pulsão de morte. O retorno de nossa própria monstruosidade. A imagem do menino não se volta e olha para nós próprios, como se alguma coisa terrivelmente errada está acontecendo?

O que faz deste evento um acontecimento é o modo como ele cinde nossa visão fazendo retornar o real, àquilo que não foi simbolizado em nós, ou do que aponta para uma monstruosidade que não se transforma em cultura. O retorno do real não é o retorno da coisa em si kantiana, mas o retorno do que não cessa de não se escrever.

“Então algo tomou conta de mim”

Outro acontecimento na mídia foi a cinegrafista húngara, Petra Laszlo, flagrada no dia 8 de setembro chutando duas crianças refugiadas e fazendo um homem cair durante o desespero de correr da polícia na cidade de Roszke. A justificativa que Petra deu ao jornal britânico The Guardian dá carne e osso ao que poderia parecer um delírio teórico neste texto: “Então algo tomou conta de mim. Pensei que estava sendo atacada e que tinha que me proteger. É difícil tomar boas decisões quando em pânico” (Folha de S.Paulo, 11/09).

O que de fato tomou conta de Petra? A justificativa não vem como representante do que está fora da cena, tal qual o título do quadro na anedota? Didi-Huberman, em seu livro Diante da imagem, fala sobre algo a mais que está localizado nesta fenda entre o ver e o olhar, entre o que se vê e o que nos olha do que se vê, em que os representantes (o mesmo que dizer significantes) ocupam o lugar da significação – perdida nesta relação – fazendo vazar águas na função naturalizada de que uma imagem se assemelha com a coisa designada.

A própria cinegrafista, segundo a matéria na Folha de S.Paulo, “disse ter ficado surpresa por suas próprias ações ao ver as imagens”. Ou seja, entre ela e a cena dos refugiados correndo da polícia outra coisa se apresenta cindindo a visão e velando-a a chutar crianças e derrubar um homem. Sabemos bem do que se trata, como na própria matéria da Folha está dito ao falar da relação da cinegráfica e do canal N1TV com a extrema-direita que defende ideias neonazistas, antissemitas e anti-imigração. Mas estas ideias que elas e o próprio canal defendem funcionam apenas, como no título do quadro, como representantes da representação que nunca se encerra em si. Por isso, as imagens são sempre cindidas fazendo que com elas passem a nos olhar como se a significação apontasse para o que está perdido para sempre (já que a busca pela significação vem do inconsciente, o que “força o olhar”) e que apenas aponta em nós como algo que toma conta de nós, mas nunca se deixa simbolizar – o retorno do real, ou o retorno do reprimido.

Por fim, o que fica evidente é que não há metalinguagem em nenhuma instância. O que vemos depende sempre do que nos olha e o que nos olha não está no que vemos. Didi-Huberman – em O que vemos, o que nos olha – pergunta: “Quando vemos o que está diante de nós, por que uma outra coisa sempre nos olha, impondo um em, um dentro?”. Impossível objetivar.

***

José Isaías Venera é jornalista e professor universitário

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