Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CONJUNTURA ECONôMICA > A desindustrialização

Voltamos a depender das exportações de produtos primários

Por Rolf Kuntz em 05/04/2016 na edição 897

Os jornais poderiam ter contado, no começo de abril, uma boa história sobre a involução do comércio exterior brasileiro, se repórteres tivessem um pouco mais de curiosidade e editores, um pouco mais de memória. Alguns cliques e um rápido passeio pelo site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior teriam mostrado como se alterou, em dez anos, a pauta de exportações do Brasil. Teriam ajudado a descrever, pelo menos em números e sem os detalhes políticos, como a indústria perdeu espaço nas vendas ao exterior e como a receita cambial passou a depender dos produtos básicos e, portanto, da demanda chinesa. Se houve alguma desindustrialização brasileira, nos últimos anos, seu mais forte sintoma está nas cifras da balança comercial.

Todos os grandes jornais noticiaram no primeiro dia de abril, um sábado, o superávit comercial de US$ 4,43 bilhões contabilizado em março, o maior para o mês na série iniciada em 1989. O resultado equivaleu a quase dez vezes o de um ano antes, US$  460 milhões. Todos esses jornais chamaram a atenção para a explicação principal do novo superávit, a importação 30% menor que a de março de 2015. O valor exportado também foi modesto e ficou 5,8% abaixo do alcançado no mês correspondente do ano anterior.

O saldo comercial recorde resultou, portanto, principalmente da recessão e, em menor proporção, do aumento do dólar. Com desemprego, perda de renda real, consumo retraído e pouca disposição dos empresários para investir em máquinas e equipamentos, as compras de produtos estrangeiros continuaram encolhendo. Do outro lado, a redução dos preços dos produtos básicos afetou a receita das vendas. O volume vendido foi maior que o de um ano antes, mas as cotações prejudicaram o faturamento.

A história parece realista e bem contada. O bom resultado obtido em março – e no primeiro trimestre – refletiu principalmente o mau estado da economia brasileira. Foi como se um sujeito houvesse poupado algum dinheiro por estar adoentado, sem apetide e menos disposto a comprar comida. Além disso, o saldo teria sido melhor se os preços de exportação tivessem caído menos. Mas que fazer, se o crescimento chinês perdeu impulso e a segunda maior economia do mundo, pantagruélica devoradora de matérias-primas, se tornou menos favorável aos exportadores de commodities?

Até aí, tudo bem, pelo menos à primeira vista. Os jornais parecem haver feito um trabalho completo, ou quase, apontando o superávit recorde para o mês e, ao mesmo tempo,  mostrando os aspectos menos festivos da história. Afinal, embora o volume exportado tenha sido maior que o de um ano antes, a receita foi 1,8% menor, em março, por causa das cotações. No trimestre, essa receita foi 5,4% inferior à de janeiro a março de 2015.

É necessária alguma rabugice, depois disso, para acusar a imprensa de haver engolido a versão oficial. Alguma rabugice, é verdade. Mas há algo mais que isso. Um pouco mais de atenção aos novos números – e também a alguns mais velhos – poderia ter enriquecido a cobertura e proporcionado uma visão pouco menos próxima da oficial.

Por que, afinal, a variação dos preços dos produtos básicos tem sido tão importante, se o Brasil ainda é um dos emergentes mais industrializados?

A resposta pode parecer, inicialmente, muito simples. Em 2015 – para tomar como exemplo o último ano fechado – a exportação dos produtos básicos, US$ 87,18 bilhões, correspondeu a 45,61% de toda a receita comercial. A de manufaturados, a 38,08%. A de semimanufaturados, em boa parte formada pela venda de commodities, a 13,31%. A variação dos preços de commodities afeta, portanto, a maior fatia das vendas. Muito claro, portanto.

Mas basta decompor a pauta exportadora e tudo se esclarece? Quem se dispusesse a dar uns cliques a mais no computador poderia achar a resposta insatisfatória.

 Em 2006, há dez anos, portanto, a composição das vendas externas do Brasil era bem diferente. Os manufaturados proporcionaram naquele ano 54,34% da receita comercial. Dos semimanufaturados veio uma parcela de 14,20%. As vendas de produtos básicos deram 29,29% do total. O pequeno resíduo, nos dois anos envolvidos na comparação, corresponde a operações especiais.

Entre 2006 e 2015 o valor total exportado aumentou 39,03%. A receita dos básicos mais que duplicou, crescendo 116,50%. A dos semimnanufaturados expandiu-se 31,73%. A dos manufaturados diminuiu – sim, diminuiu – 2,56%.

No intervalo, a China tornou-se cada vez mais importante como compradora de produtos brasileiros, mas de produtos básicos e, em proporção bem menor, de semimanufarturados. O comércio entre Brasil e China tornou-se quase colonial, com um dos lados vendendo quase exclusivamente commodities e importando manufaturados.

Ao mesmo tempo, a indústria brasileira perdeu participação no comércio, tanto no exterior quanto no mercado interno. Seus ganhos de produtividade foram modestos e seu poder de competição diminuiu nesse período.

A diplomacia comercial inaugurada em 2003 privilegiou as chamadas relações Sul-Sul. O Mercosul limitou-se a acordos de livre comércio com mercados, na maior parte,  pouco importantes. A negociação mais ambiciosa – com a União Européia – continua sem conclusão.

A indústria brasileira continuou vendendo muito mais manufaturados para os Estados Unidos e a Europa do que para a China, mas seu principal mercado tem sido mesmo a vizinhança sul-americana. Como o Mercosul é uma união aduaneira, nenhum de seus membros pode negociar sozinho acordos de livre comércio. Mas, de fato, essa hipótese nunca entrou na pauta oficial nesses anos.

Exemplo: há mais de dez anos o comércio exterior da indústria automobilística brasileira tem dependido principalmente do mercado sul-americano e, de modo especial, do acordo automotivo com a Argentina. Outras indústrias têm procurado operar em outros mercados, sempre com muita dificuldade por causa da limitação dos acordos comerciais. Concorrentes de outras áreas, principalmente da Ásia, têm acesso mais fácil aos mercados mais desenvolvidos. Alguma têm tido sucesso, mas batalhando contra a 

Não seria preciso recontar toda essa história para enriquecer a cobertura dos fatos mais recentes. Mas uma rápida exploração da pauta de exportações de hoje e de alguns anos atrás ajudaria a levar as perguntas um pouco mais longe. Permitiria dar menos peso às explicações oficiais. O detalhe dos preços das commodities continuaria relevante, mas teria muito menos peso, se a memória, ajudada por alguns cliques, pudesse chegar, por exemplo, aos dados de dez anos atrás. Com pouco esforço seria possível observar como a exportação brasileira se desindustrializou. Uma história mais completa dependeria de uma revisão da diplomacia comercial inaugurada em 2003. 

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