Domingo, 17 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CONJUNTURA MUNDIAL > 11 de setembro 2001

A primeira experiência geopolítica globalmente compartilhada

Por Francisco Fernandes Ladeira em 11/09/2015 na edição 867

Os historiadores costumam utilizar determinados acontecimentos emblemáticos, como a descoberta do fogo, o aparecimento da escrita ou a queda da Bastilha, como referenciais para os seus estudos. Para simbolizar o atual contexto de animosidades entre parte da civilização muçulmana e os Estados Unidos da América, o evento histórico escolhido foi o ataque da rede al Qaida às torres gêmeas do World Trade Center, ocorrido em 11 de setembro de 2001. Não há como negar o impacto do 11 de setembro nas relações internacionais deste início de século. O atentado foi utilizado como pretexto para a invasão estadunidense ao Afeganistão e ao Iraque, para o aumento da vigilância sobre os cidadãos comuns e, não obstante, provocou uma onda global de islamofobia.

Entretanto, diferentemente dos outros grandes fatos históricos mencionados acima, o 11 de setembro foi “transmitido ao vivo” para quase todo o planeta. Assim, pela primeira vez na história, um acontecimento passou a fazer parte simultaneamente da memória de bilhões de seres humanos. Portanto, podemos afirmar que o 11 de setembro foi a “primeira experiência geopolítica globalmente compartilhada”. Enquanto acontecimentos que datam de épocas remotas estão “gravados” em nossa memória exclusivamente por causa da leitura de livros de história (memória semântica), o 11 de setembro está retido em nossa mente através de uma das mais poderosas formas de memorizar um determinado fato: a memória visual. Desse modo, tivemos a sensação de realmente ter estado em Nova York naquela fatídica manhã de verão, vivido plenamente o momento e assistido, atônitos, à queda das torres gêmeas do World Trade Center.

A demonização do mundo muçulmano

Quais seriam as consequências dessa “experiência geopolítica globalmente compartilhada” e sua influência para as opiniões que o cidadão comum possui em relação à civilização muçulmana? De acordo com o linguista francês especialista em análise do discurso Patrick Charaudeau, a televisão, ao exibir incessantemente cenas potencialmente chocantes, ou empregar termos pertencentes ao campo semântico da emoção, é suscetível de produzir variados efeitos patêmicos em sua audiência como ira, compaixão, angústia, desprezo, revolta, simpatia e repulsa.

Como a cobertura midiática global sobre o 11 de setembro apresentou, de maneira geral, características típicas de narrativas épicas, com o povo estadunidense alçado ao status de herói e, em contrapartida, os terroristas islâmicos assumindo os papéis de vilões, não é difícil inferir que boa parte da audiência pode ter chegado à maniqueísta conclusão de que os muçulmanos são temíveis algozes e os Estados Unidos, em contrapartida, simples vítimas da barbárie promovida pelos fanáticos seguidores de Alá. Começava assim a poderosa campanha global de demonização do mundo muçulmano. Desse modo, com a cobertura do atentado de 11 de setembro, a mídia passou a ser definitivamente um dos mais importantes atores do complexo xadrez geopolítico global.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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