Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CONJUNTURA NACIONAL > Leituras de "Época"

A ideologização da cobertura jornalística

Por Francisco Fernandes Ladeira em 25/09/2015 na edição 869

Qualquer cidadão brasileiro com a mínima capacidade analítica sabe que nos últimos doze anos a grande mídia de nosso país vem desempenhando o tendencioso papel de principal porta-voz dos partidos políticos que fazem oposição ao governo petista. Exemplo emblemático dessa prática pode ser encontrado na última edição da revista Época, da Editora Globo, que, sem titubear, partiu para o ataque contra a presidenta Dilma Rousseff e tudo que lembre minimamente o pensamento de esquerda.

Logo na capa, a publicação trouxe como manchete a frase “A presidente sem poder”, acompanhada da foto de Dilma cabisbaixa, dando a impressão de que ela estaria admitindo não ter mais controle sobre a nação. O famoso analista do discurso Patrick Charaudeau diria que a intenção de Época com essa imagem é provocar efeitos patêmicos negativos nos leitores.

Pois bem, como diria a minha avó, “pelo andar da carruagem, se vê logo quem vem dentro”. Não é difícil inferir que a capa seria apenas o início dos ataques ao governo Dilma. Já em suas primeiras páginas, Época elegeu como “personagem da semana” o fundador do PT e jurista Hélio Bicudo, um dos principais nomes da campanha pró-impeachment (leia-se: eufemismo para golpe de Estado). De acordo com a publicação da Editora Globo, Bicudo é “o homem que a oposição queria”, como se a adesão de um ex-petista pudesse, por si só, dar legitimidade à empreitada pela queda de Dilma. “Dos 22 pedidos de impeachment de Dilma recebidos pela Câmara neste ano, foi o de Bicudo a causar o maior furor em Brasília graças ao barulho de movimentos e à articulação de políticos”, apontou a entusiasmada matéria, talvez prevendo dias melhores para a campanha golpista.

Uma convergência de ideias impressionante

Por sua vez, o colunista Guilherme Fiuza não economizou palavras negativas e qualificou o governo Dilma como “moribundo”, “demagogo”, “sugador do patrimônio público” e responsável por fazer “a população do seu país comer o pão que o diabo amassou”. Já no artigo denominado “O Plano D de Deseducação”, Ruth de Aquino credita todas as mazelas de educação brasileira aos mandatos petistas e suas “gestões populistas”, como se antes de 2003 tivéssemos um sistema educacional de alto nível. Ainda segundo Época, Dilma não é a líder que os brasileiros precisavam para enfrentar as crises política e econômica, pois “seu governo vive um momento que a clínica médica chama de ‘efeito lazaroide’: até se movimenta politicamente, mas são espasmos desordenados, involuntários, sem um comando nervoso central”.

Seria então o caso de tirá-la do poder? Lembrando outro ditado popular citado pela minha avó: “Para quem sabe ler, um pingo é letra”. Parece que depor a presidenta Dilma Rousseff, seja lá por que meio for, é a verdadeira intenção daqueles que assinam as matérias da revista Época. Por outro lado, é importante salientar que denunciar a incessante e seletiva perseguição midiática sofrida por Lula, Dilma e outros políticos do Partido dos Trabalhadores não é, em hipótese alguma, defender incondicionalmente as gestões petistas. Diga-se de passagem, é difícil compactuar com governos que ao longo de mais de uma década não promoveram as tão esperadas reformas agrária e urbana, capitularam frente a lobbies conservadores, solaparam alguns direitos trabalhistas e mantiveram intacta a vergonhosa concentração midiática que vigora em nosso país. Entretanto, conforme salientamos em outro artigo, um cidadão que somente se informa pela grande imprensa pode inferir equivocadamente que a corrupção no Brasil começou apenas em 2003.

Em suma, não há a mínima pluralidade ideológica em Época. Todas as matérias presentes na revista parecem ter sido escritas por uma única mente. É impressionante a convergência de ideias entre seus articulistas. A publicação da Editora Globo segue fielmente a mesma cartilha de seus congêneres da grande imprensa nacional. Primeiramente desgastar ao máximo o governo através de análises rasas e opiniões prontas para àqueles que sofrem de economia cognitiva. Depois, conceber o atual cenário político como insustentável (na torcida pelo “quanto pior, melhor”) para, finalmente, apresentar de forma tácita a queda da presidenta Dilma Rousseff como única solução possível para reverte este cenário negativo.

***

Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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