Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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CONJUNTURA NACIONAL >

Obituário congelado

Por Alberto Dines em 13/09/2016 na edição 920

Dilma foi para casa em Porto Alegre no bairro ” Tristeza”. Ao canonizar Madre Tereza de Calcutá , graças à cura de um paciente de Santos, papa Francisco concluiu que o Brasil atravessa ” um momento triste”.

A tristeza se abateu sobre o Brasil num 7 de setembro nada festivo. Vivemos entre o inesperado e o incerto há exatos 50 anos após o escritor austríaco Stefan Zweig ter posto um ponto final no livro mais famoso sobre o Brasil, segundo ele “o país do futuro”. Só a economia pode reverter a tese do golpe desferido contra Dilma, decreta o jornal Valor Econômico , apontando a única obra capaz de assegurar o reconhecimento do governo Temer na história: a recuperação da economia.

The only way is up ” já alertava o Brasil a revista semanal  britânica The Economist, numa analogia com a medalha de ouro de Thiago Braz nas Olimpíadas em salto com vara. Mas Temer, ora lhe aperta os sapatos trocadas na China, ora lhe apetece discutir a relação, o que entre casais sempre ressuscitou muitos cadáveres do armário.

Triste Semana da Pátria

O Brasil passou a semana  paralisado , sem saber quantos votos decidiam a cassação  de Eduardo Cunha, a imprensa competindo nas apostas para os 257 necessários. Nunca a posse de um ministro do Supremo foi tão importante como a de Carmem Lucia esta semana, hoje quem decide no Brasil são os 11 ministros do TSF, faltou um para remeter ao filme de Sidney Lumet em 1957, “12 Homens e uma Sentença “.

Demoramos tempo demais sem saber se os direitos políticos de Dilma cairiam ou se o próprio impeachment seria revogado, se Lula conseguiria sair debaixo da jurisdição do juiz Sérgio Moro — no dia do “não ” os três pedidos foram negados por Teori Zavascki.
Foi um momento triste para a semana da pátria.

As vaias para Temer no Maracanã na primeira aparição pública  depois da segunda posse envergonhada, sem faixa, não são um bom prenúncio. Numa temporada em que deveriam imperar as palavras lisura, unidade nacional, pacificação, só se capta na imprensa corrupção graúda, roubalheira, medo dos cortes na Previdência, golpe, inflação, traição, recessão, crise. Parece que a sociedade e seus anseios vão por um lado e a política econômica do país caminha por outro,  seguindo impávida seu rumo cruel.

Os protestos continuam , Temer tem 28 meses para reconstruir o rombo na sua imagem e na do país , outro tanto para recuperar a credibilidade. Enquanto isso permanecemos estacionados num obituário congelado.

***

Alberto Dines é jornalista, escritor e cofundador do Observatório da Imprensa

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