Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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CONJUNTURA POLíTICA > Violência é ódio

A fábula do enviado de Deus

Por Rui Martins em 18/06/2019 na edição 1042

(Crédito: Antonio Cruz/ Agência Brasil)

Constatação: nem todos os evangélicos e espíritas são cristãos.

Diante da repercussão do texto denunciando a intenção de juristas evangélicos evitarem a inculpação de pastores evangélicos pelo crime de homofobia ao lerem e pregarem sobre trechos da Bíblia, nos quais os homossexuais são amaldiçoados por Deus, decidi continuar nessa mesma vertente religiosa.

Embora poucos comentários tenham sido feitos, uma das bases responsáveis pela eleição de Bolsonaro, ainda fiel e devota do presidente apesar dos desgastes de seu governo, é formada pelos seguidores evangélicos. Bolsonaro é consciente desse seu populismo bíblico, nada espontâneo mas cultivado durante os anos que precederam as eleições, incluindo mesmo o show de um batismo nas águas do Jordão, em Israel, pelo pastor Everaldo, sem ter se desligado do catolicismo.

Sem o voto dos evangélicos, hoje compondo cerca de 30% da população, Bolsonaro não teria obtido a diferença sobre Haddad. Entretanto, não basta essa constatação: é importante saber como se construiu essa teia, alastrando-se de norte a sul, nas igrejas populares e fundamentalistas das diversas denominações, vindas no último meio século dos Estados Unidos, porém chegando a incorporar denominações mais antigas como metodistas, batistas e mesmo presbiterianos, cujos seminários de teologia eram considerados, nos anos 1960, equiparáveis aos europeus.

As igrejas protestantes históricas pouco se desenvolveram até os anos 50 do século passado. Já havia o protestantismo popular, Assembléia de Deus e a Igreja Pentecostal, mas se circunscreviam às regiões mais pobres. O boom do protestantismo que passou a ser chamado evangelismo veio com o movimento neopentecostal importado da Igreja Quadrangular dos EUA.

Enquanto as igrejas protestantes históricas exigiam curso universitário de teologia dos pastores, os neopentecostais permitiam a qualquer pessoa esperta e bem falante interpretar a Bíblia. Outro fator preponderante foi a introdução do evangelho da prosperidade, prometendo aos fiéis êxito econômico e saúde na vida, numa espécie de negócio fechado com Deus.

Para fazer funcionar essas igrejas que começaram a se formar, os pastores passaram a pedir aos fiéis a contribuição do dízimo de seus salários para a igreja. Embora sejam, na maioria, pessoas de pequeno salário, o grande número de fiéis tornou igrejas e pastores milionários e colocou em risco a Igreja Católica tradicional.

Embora preguem a vida eterna no paraíso, recompensas de Cristo depois da morte, os evangelismos brasileiros não se satisfizeram com seu êxito religioso, sua expansão e seu sucesso econômico. Apesar de serem diversas denominações, parecidas mas independentes, decidiram se unir tentados pela ambição da posse do poder temporal. E, apesar de poderem comemorar a vitória de terem eleito Bolsonaro como presidente, isso poderá lhes custar a credibilidade e assinalar, nos próximos anos, o fim de sua expansão, motivado pelo “pecado” da cobiça do poder político.

Bolsonaro não é pentecostal e nem evangélico, muito menos cristão como demonstram seu passado de deputado do baixo clero no parlamento e seus objetivos como presidente. Uma gradativa conscientização política do povo brasileiro criará uma rejeição dos evangélicos comparáveis aos fariseus, condenados pelo próprio Cristo nos Evangelhos. Seus líderes de hoje seguirão a trajetória do presidente Bolsonaro.

A farsa do “enviado de Deus”

Na semana passada, Bolsonaro esteve no Pará participando da comemoração dos 108 anos de criação da primeira Igreja Assembléia de Deus no Brasil pelos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, vindos dos EUA. Um ato de quebra da laicidade do Estado brasileiro, porém uma retribuição aos evangélicos em geral por terem plantado entre os fiéis a crença da missão divina de Bolsonaro, escolhido por Deus para presidir o Brasil.

Para montar a farsa do “enviado de Deus”, os líderes evangélicos criaram uma polarização: de um lado, Bolsonaro, o escolhido por Deus, e, do outro, os comunistas Lula e o PT, representantes do Diabo. Isso pode parecer uma síntese por demais primária e ridícula, porém atingiu plenamente seu objetivo entre pessoas desprovidas de uma maior cultura e depositando toda sua fé nos seus pastores.

Essa farsa, aceita como um verdadeiro versículo bíblico, cumpriu seu objetivo e garantiu a vitória de Bolsonaro. Entretanto, ainda no mês passado, o próprio presidente Bolsonaro colocou nas suas redes sociais um vídeo gravado em Belo Horizonte pelo pastor evangélico francês Steve Kunda, no qual se voltou a afirmar “ser Bolsonaro um escolhido por Deus para um novo tempo”.

O fato do próprio presidente Bolsonaro ter colocado esse vídeo gravado para um programa religioso evangélico cria um problema mais grave que o de uma religião se envolver na política e escolher um candidato como enviado de Deus. Ao colocar ele mesmo o vídeo na rede social, pode ser considerado um farsante, pois essa história de ser escolhido ou enviado de Deus é grotesca e só pode ser aceita por pessoas simples.

Pode também ser considerado um megalômano, que se aproveita de uma fantasia religiosa para satisfazer seu ego. Porém, e ISSO PODE SER MUITO GRAVE, se ele mesmo Bolsonaro acredita ser o enviado e o escolhido de Deus para governar o Brasil, é um caso de loucura e outros países já sofreram bastante por serem governados por loucos.

O cavalo branco de Bolsonaro

Ainda revoltado com esse abuso de pastores evangélicos terem convencido suas simples e crédulas ovelhas da missão divina de Bolsonaro, o enviado de Deus, chegou ao meu conhecimento outro abuso da ingenuidade de pessoas crédulas.

Embora em menor número, o espiritismo no Brasil tem hoje entre 4 e 5 milhões de seguidores. Um número bem maior acredita na reencarnação dos espíritos. Criado em 1857, em Paris, por Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec, o espiritismo teve um grande desenvolvimento no Brasil.

O mais conhecido espírita brasileiro foi Chico Xavier, que há 50 anos deixou uma carta com previsões do futuro, só aberta no ano passado, na qual falava do Brasil. Toda profecia, seja de Nostradamus ou do Apocalipse, gera interpretações as mais diversas. Ora, para um certo número de intérpretes espíritas, haveria no Brasil um presidente inovador, que antes das eleições presidenciais foi identificado como sendo o candidato Bolsonaro.

A carta de Chico Xavier falava no cavalo branco e na espada desse presidente. Entretanto, um vídeo divulgado com Bolsonaro montado num cavalo branco nada tem a ver com os bichos de Alexandre, o Grande, nem com Marengo, o cavalo branco de Napoleão, grandes animais árabes e imponentes. O cavalo branco de Bolsonaro, mostrado para confirmar (?) a profecia de Chico Xavier, é um simples pangaré caipira. Haja ingenuidade para se acreditar nessa farsa.

Cristão pode ser bolsonariano?

Sinceramente, tenho minhas dúvidas. As linhas mestras do cristianismo, como se pode ler nos Evangelhos, vão na direção do amor ao próximo, da caridade aos pobres e do respeito ao ser humano. Alguém que se declare seguidor de Cristo jamais poderia ser favorável à tortura de seu semelhante, como se praticava no Doi-Codi, como declarou Bolsonaro, nem à necessidade de se matar uns 30 mil para consertar o Brasil. Muito menos poderia apoiar a ideia de se facilitar a posse de armas para grande parte da população. Um cristão não seria racista e nem seria machista. Ainda menos aceitaria apoiar uma lei que reduz a aposentadoria dos pobres.

Por isso, tenho minhas dúvidas se um cristão teria votado em Bolsonaro para presidente e muito menos se teria aceitado essa farsa de considerá-lo enviado ou escolhido de Deus para governar o Brasil. Mesmo porque, a campanha eleitoral de Bolsonaro, com o gesto da mão que atira com revólver, incentivava a violência, o ódio e a morte.

***

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Foi criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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