Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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CONJUNTURA POLíTICA > Sem descer do palanque

Bolsonaro mantém o país dividido para poder governar

Por Carlos Wagner em 20/08/2019 na edição 1051

(Foto: Marcos Corrêa/PR)

Publicado originalmente no blog Histórias Mal Contadas

Avaliando o que publicamos nos oito primeiros meses do governo do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL-RJ), há um fato que salta aos olhos, como falavam os velhos repórteres dos tempos das barulhentas máquinas de escrever nas redações. Se o presidente descer do palanque eleitoral, ele não consegue governar, porque as contradições do seu grupo político são enormes e os problemas do Brasil, maiores ainda. Ele só está conseguindo manter as rédeas do poder acirrando a divisão política dos brasileiros, como fez durante a campanha eleitoral. Ele entendeu isso logo nos primeiros meses de governo, mais precisamente em abril.

Na ocasião, o vice-presidente, o general Hamilton Mourão, ocupava generosos espaços nas mídias, bem com Paulo Guedes, ministro da Economia, Sergio Moro, titular do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados. No dia 27 de abril, fiz o seguinte post: “O presidente Bolsonaro virou Rainha da Inglaterra?” Bolsonaro retomou as rédeas do país aprofundando a divisão ideológica da população e dizendo grosserias – há um vasto material na internet. Aqui, eu quero conversar com os meus colegas velhos e, principalmente, com os jovens repórteres das redações que cumprem três ou mais pautas todos os dias. Portanto, não têm tempo de refletir. Por conta da influência dos comentaristas políticos, nós escrevemos em nossos noticiários que as confusões armadas pelo presidente iriam atrapalhar as negociações de pautas econômicas importantes na Câmara dos Deputados, tipo a Nova Previdência Social.

Lembro de ter lido e ouvido, de respeitados comentaristas políticos, que era necessário o presidente descer do palanque eleitoral para unir o país e seguir em frente. Esses oito meses de governo nos ensinaram que, se o presidente descer do palanque eleitoral, ele acaba. Claro, essa estratégia de governar não foi bolada pelo presidente do Brasil. Ela se consolidou na Segunda Guerra Mundial – há um vasto material sobre o assunto na internet. Foi ressuscitada, atualizada e melhorada na campanha política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Bolsonaro é um discípulo de Trump. Durante uma conversa que tive na semana passada com jovens repórteres sobre o assunto, lembrei o seguinte: os estragos que Trump pode causar nas instituições dos Estados Unidos são limitados, porque a democracia do país é antiga e sólida. No Brasil, é diferente. A nossa democracia tem pouco mais de trinta anos, a crise econômica é uma das piores dos últimos tempos, são mais de 12 milhões de desempregados. Portanto, os estragos causados por Bolsonaro são enormes.

Para concluir a conversa. O ano que vem tem eleição municipal. Tradicionalmente, elas são mais disputadas e acirradas do que qualquer outra, por serem travadas nas cidades. E, desde que o país se democratizou, em 1985, é a primeira vez que o ambiente político deixado por uma disputa eleitoral (2018) está tão carregado. E há também na presidência do país uma pessoa que aposta na divisão política dos brasileiros para continuar no poder. Claro que isso tudo irá se refletir no ambiente político. Como? Nós vamos saber com o andar da carroça. O que é certo é que nós, repórteres, precisamos nos contextualizar para aprofundar nosso conhecimento de como o governo Bolsonaro funciona para não escrever bobagem. É simples assim.

***

Carlos Wagner é repórter.

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