Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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CONJUNTURA POLíTICA > Respeito aos ritos democráticos

O Boicote do PT à posse não foi um ato de coragem

Por Rui Martins em 08/01/2019 na edição 1019

Um respeitado jornalista francês Jean-François Khan disse uma frase que não esqueço – a democracia não é o melhor sistema político, é o menos pior, tem, porém, uma grande qualidade: permite a alternância do poder.

Bolsonaro é o que de pior poderia nos acontecer e pode se tornar uma ameaça à democracia brasileira, mas foi eleito democraticamente pelo povo, num impressionante fenômeno de rejeição de todo quadro político convencional.

Nós todos perdemos e o PT comandou a tentativa de reverter a tendência no segundo turno, sem conseguir. Agora, se não houver quebra das regras democráticas, resta construir uma união das esquerdas, fortalecer a oposição para evitar os estragos programados pelo governo de extrema direita e nos prepararmos para reconquistar a confiança popular nestes próximos quatro anos.

O PT não compareceu à posse do presidente de extrema direita, aplicando o boicote decidido por sua direção, como se fosse um ato de coragem. Não foi. A ausência da bancada petista e de alguns parlamentares de pequenos partidos de esquerda foi um gesto de recuo, de retirada, de maus perdedores, quando o momento exigia coragem e ousadia para marcar sua oposição. Se estivessem na posse ostentando, no terno preto de luto uma tarja, um sinal de luto, bem visível, marcariam sua presença e seriam o símbolo de uma resistência, seriam a nota dissonante na cerimônia da posse..

O boicote significou ausência da esquerda nos noticiários e acabou por assumir feições de uma segunda derrota, comemorada pelos bolsonaristas como uma saborosa vitória, pois era esse justamente seu objetivo: não ter nenhum petista e nenhum esquerdista em Brasília no dia da posse.

Parodiando o slogan do novo presidente, o PT contra tudo e contra todos só seria viável no caso do novo presidente ter sido imposto pelos militares ou eleito com fraudes eleitorais. O boicote acabou sendo uma atitude infantil e transmitiu a impressão de um crítica ao resultado final das urnas, mesmo se houve muita manipulação nas redes sociais e o peso das igrejas evangélicas iludindo seus fiéis.

Para se manter a democracia é preciso se respeitar a democracia.

Além disso, o boicote ignorou a questão principal ou o porquê da rejeição popular ao Haddad e outros candidatos e o porquê da descrença de muitos nas instituições democráticas.

A resposta poderia ser dada pelo antigo militante contra a ditadura militar César Benjamin, ou por outro resistente Celso Lungaretti, ou Danton Rosado, que, tanto quanto eu, responsabilizam o PT por nos ter levado a esse desastre.

Em lugar de boicote, o PT deveria ter confessado seus graves erros, que incluem corrupção e governos de compromissos e arranjos, numa esperada autocrítica, para que a esquerda possa se tornar unida e assim  se empenhar na resistência ao novo governo.

Diante das ameaças antigas e recentes do candidato Bolsonaro à democracia, havia três opções:

– tentar obter impugnação da candidatura por ter havido ameaças contra a democracia;

– se não houvesse impugnação pelo TSE, optar pelo boicote das eleições, aproveitando o tempo eleitoral para divulgar o boicote;

– ou tentar ganhar as eleições, como fez, sabendo que isso equivaleria a aceitar a validade do processo democrático e se preparar, no caso de derrota, para uma oposição a toda tentativa golpista do novo governo.

Os franceses dizem, não se pode ter a manteiga e ficar com o dinheiro da manteiga, ou seja, não vale o jogo duplo. Ou seja, participar das eleições e, depois de perdê-las, dizer que não valeram, que houve outro golpe. Isso se torna contraproducente. é uma atitude infantil e só pode enfraquecer ainda mais nossa democracia.

***

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

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