Sábado, 18 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1070
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CRISE ECONôMICA >

A situação de Levy em três versões

Por Rolf Kuntz em 20/10/2015 na edição 873

A especulação cresceu, os mercados se agitaram e o dólar subiu quando se espalhou mais um rumor sobre a demissão do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, na tarde de sexta-feira, 16/10. À noite o ministério divulgou uma nota para confirmar a permanência do ministro. Notas oficiais, especialmente numa sexta-feira à noite, são em geral emitidas para comunicar alguma novidade importante. Permanência no cargo é notícia?

No caso de Levy, a renúncia ao posto seria vista por muita gente como o fato mais normal. Desprestigiado por sua chefe,  atacado pelo ex-presidente Lula e por muitos petistas e responsabilizado, muitas vezes, por uma recessão gerada no mandato anterior, por que insiste em permanecer ministro?

O rumor de sexta-feira foi uma reação à sua ida ao Palácio da Alvorada. De manhã, os jornais haviam destacado, mais uma vez, as pressões de Lula pela substituição de Levy e pela mudança da política econômica. A semana anterior, na reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Lima, havia sido difícil.

Joaquim Levy / Foto Wikimedia - licença Creative Commons

Joaquim Levy / Foto Wikimedia – licença Creative Commons

Documentos oficiais do FMI trataram sem eufemismos da crise fiscal brasileira, da corrupção  e da situação política em deterioração. Numa entrevista da CNN, gravada no palco do Teatro Nacional, diante de platéia e galeria lotadas, Levy foi pressionado para falar sobre o risco de impeachment e sobre as pedaladas fiscais condenadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Ele tentou assumir o papel de defensor do governo, e até de seu antecessor, enquanto o público gargalhava.

De volta ao Brasil, foi ao Congresso e tentou  convencer parlamentares a apoiar o ajuste das contas públicas e a aprovar a recriação da CPMF, a Contribuição Provisória para Movimentação Financeira. No dia seguinte, a Fitch anunciou o corte da nota de crédito soberano.

O País foi mantido no último nível do grau de investimento, no último nível antes do grau especulativo, e com perspectiva negativa. Tudo isso por decisões tomadas contra a opinião de Levy, como o envio, ao Congresso, de um projeto de Orçamento com déficit primário de R$ 32 bilhões. No mesmo dia ainda vieram novas cargas do PT. Por que continuar?

Na sexta, o ministro foi de fato ao Alvorada,  onde participou de uma reunião com ministros da Junta de Orçamento. Havia, segundo informação extraoficial, tentado uma reunião privada com a presidente Dilma Rousseff, mas ela descartou esse encontro. À noite saiu a nota do ministério para desmentir o rumor da demissão. Que havia ocorrido naquela tarde?

Três grandes jornais contaram três histórias, ou, talvez, a mesma história vista de ângulos diferentes. O Estado de S. Paulo pôs o foco no ministro, já na chamada de capa: “Críticas de Lula e do PT fazem Levy pensar em deixar o governo”. O Globo destacou a reação da presidente: “Levy ameaça sair e irrita Planalto”. A Folha de S. Paulo deixou o assunto apenas numa página interna, sem menção na primeira. Os três coincidiram, no entanto, ao dar manchete com as contas no exterior e o agravamento da situação do presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

O Globo dedicou a capa do caderno de Economia à história da quase demissão de Levy. Como na chamada, a matéria mencionou o descontentamento do ministro e sua tentativa de uma reunião privada com a presidente, mas o foco foi mesmo a reação da cúpula.

Já no primeiro parágrafo, “fontes do Palácio do Planalto” descrevem a movimentação de Levy como tentativa de se fortalecer no governo. “A estratégia, segundo um auxiliar presidencial, foi vista como ‘desnecessária’ e inoportuna”, relata o jornal. O foco pouco varia até o fim do texto.

O Estadão centrou a história em Levy e em seu descontentamento  diante dos ataques de Lula e do partido. Também nesta cobertura as informações mais importantes são atribuídas a fontes sem identificação – mas, neste caso, vinculadas ao ministro da Fazenda. “O ministro Joaquim Levy disse a interlocutores que pretende deixar o cargo no fim do ano, caso o ‘fogo amigo’continue. Levy está irritado com as críticas feitas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo PT. Em conversas reservadas, ele avalia que os ataques prejudicam até mesmo a aprovação do ajuste fiscal pelo Congresso”.

A reportagem menciona a reunião com os demais membros da Junta Orçamentária – a presidente Dilma Rousseff, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, e o chefe da Casa Civil, Jacques Wagner. Não se tratou, segundo auxiliares da presidente mencionados no texto, da entrega do cargo, nem houve conversa isolada. A matéria se distingue principalmente pela indicação de um prazo: demissão até o fim do ano, se o fogo amigo continuar. O prazo pode até parecer engraçado, mas compatível com o comportamento de Levy no governo Dilma.

A Folha deu menos destaque ao assunto, confinado numa página interna, e o tratou como questão administrativa. Titulão da página 16  do primeiro caderno: “Após críticas, Levy se reúne com Dilma para assegurar ajuste fiscal”. Só isso? Segundo a matéria, Levy conversou com a presidente no Palácio da Alvorada “e saiu do encontro com a certeza de que o governo vai fazer o necessário para obter um superávit (receita menos despesas) de 0,7% do PIB no Orçamento de 2016”.

Há até uma referência ao desconforto do ministro por causa das críticas, mas o assunto da reunião é liquidado com uma declaração entre aspas. “A presidente está comprometida com o ajuste fiscal, com um orçamento de 2016 robusto e bem arrumado, com receitas firmes e gastos ajustados”, disse Levy à Folha, segundo a reportagem. Palavras complementares do ministro: “Essa é a orientação dela e vamos seguir nessa linha”. Pequena dúvida: se Levy tivesse ido ao Palácio com a disposição de reclamar do fogo amigo e o tivessem convencido a se acomodar, ele daria uma declaração diferente, ao sair?

Lucrando com pixulecos

Impossível acompanhar a crise econômica sem levar em conta a crise política, Os jornais ainda tentam manter as coberturas separadas, no dia a dia, mas isso parece cada vez mais difícil. O melhor exemplo da combinação entre negócios empresariais e imbroglio político talvez tenha sido, até agora, uma reportagem publicada no Globo na segunda-feira 12/10. A matéria saiu no caderno de Economia com o título: “Crise política infla lucros de fabricantes de pixulecos”. As indústrias de infláveis têm recebido boas encomendas, apesar do mau estado da economia.

O primeiro pixuleco, um bonecão do ex-presidente Lula vestido de presidiário, abriu caminho a um mercado muito especial. Grandes e minipixulecos têm sido encomendados. Um pato de 12 metros de altura foi usado na campanha “não vou pagar o pato”, lançada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contra a alta de impostos.

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Rolf Kuntz é é colunista do jornal O Estado de São Paulo e professor de Filosofia Política, na USP.

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