Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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CRISE NA IMPRENSA > À espera de um milagre

A morte do jornalismo

Por João Somma Neto em 25/06/2019 na edição 1043

(Foto: Pixabay)

Publicado originalmente no site objETHOS

Acontecimentos de importância significativa têm ocupado espaço volumoso e tempo considerável da mídia nacional, que leva ao conhecimento do público os escândalos do ambiente político por meio de material travestido de aparência jornalística.

Fatos envolvendo personalidades ligadas tanto ao governo quanto à oposição aparecem como protagonistas de espetáculos ligados à corrupção em um espaço temporal maior, surgem e dão origem a diversos tipos de produtos configurados e considerados como jornalísticos, cuja elaboração e veiculação podem ser atribuídas aos meios tradicionais integrantes da chamada grande imprensa, como também àqueles componentes do imenso circuito composto pelos mais diversificados elementos integrantes da web.

Por incrível que pareça, não são somente os ditos jornalões, revistas semanais de editoras de feições mais ou menos respeitáveis até outro dia ou os maiores conglomerados de TV e rádio, mas também portais de notícias, sites, blogs, páginas em redes sociais, canais de áudio e/ou vídeo em plataformas da internet e outros instrumentos de comunicação online, de matizes os mais variados dentro do espectro ideológico, que adotam metodologias senão idênticas, pelo menos muito parecidas como norteadoras do trabalho de busca, tratamento e difusão de informações. Basta uma olhada com maior cautela para esses materiais aparentemente jornalísticos para perceber que não se trata mais de jornalismo. Aquilo com que nos deparamos não passa de um arremedo, uma caricatura, uma tentativa enviesada de apresentar “fatos”, “notícias”, análises ou críticas, quase sempre eivadas por uma intenção de ataque ou contra-ataque a quem está no outro lado ou pensa diferente.

Esse cenário pode ser descrito como aquela situação em que, usando linguagem mais popular, o roto passa a apontar os defeitos do maltrapilho. Não parece haver, em geral, uma preocupação maior em apresentar peças jornalísticas mais elaboradas, observando os princípios que norteiam o trabalho jornalístico tanto no que concerne ao aspecto técnico como, principalmente. à observância dos valores éticos.

A atividade jornalística no Brasil, atualmente, por consequência dos procedimentos adotados, nos remete a um panorama bastante semelhante às narrativas expostas por Nick Davies em seu livro Vale tudo da notícia, obra em que são exibidas as piores mazelas do jornalismo britânico [¹].

Assim como aconteceu nos casos mostrados por Davies, o público está sendo “brindado” com uma enxurrada de notícias e ao mesmo tempo não se sabe exatamente como se forjaram essas matérias jornalísticas. Os escândalos políticos, e também os que envolvem personalidades famosas de outras áreas, são temas recorrentes e se banalizam a partir de um tipo de jornalismo ancorado ao que tudo indica em grampos, invasões de dispositivos eletrônicos de comunicação individual e privada, tráfico de influências, relação promíscua com fontes qualificadas e desqualificadas de informação, geralmente anônimas, pagamento pelo acesso a dados, espionagem em altos e baixos escalões.

Assuntos delicados deixaram de se abordados com o cuidado e responsabilidade que qualquer tema, sensível ou não, deveria receber por parte de jornalistas e empresas midiáticas. A investigação competente e necessária há algum tempo deixou de ser imperativa no jornalismo nacional, cedendo espaço para apurações rasas, sem consistência, baseadas com frequência em fonte única, sem busca de confirmação das informações obtidas, sem contextualização, resultando em um trabalho por vezes preguiçoso e sem o senso de comprometimento do jornalista profissional para com a sociedade.

Essa condição contemporânea do jornalismo é bem colocada por Kunczik em Conceitos de Jornalismo Norte e Sul, onde destaca que “o trabalho jornalístico ‘genuíno’, de investigação, de redação e de edição, praticamente já não existe na atualidade”. (Kunczik, 2001).

Ao refletir, com o intuito de avaliar criticamente, como está sendo exercido o ofício jornalístico, sobretudo em nosso país, chega-se à lamentável conclusão de que o jornalismo propriamente dito está morto. Foi assassinado por aqueles que deveriam zelar por sua vida, pelos profissionais dos veículos tradicionais, pelos que atuam alternativa e virtualmente com seus sites, blogs, fanpages, canais audiovisuais ou com que instrumento tecnológico for e mais ainda pelas grandes empresas de comunicação.

O coletivo jornalístico nacional está jogando no lixo, sem nenhuma possibilidade de reciclagem, todo o cabedal de princípios e pressupostos éticos e técnicos, os quais deveriam necessariamente servir de norte para o trabalho socialmente útil e responsável. Isso reflete diretamente no público, na sociedade, acarretando cada vez mais o decréscimo vertiginoso de credibilidade, desembocando no crescimento das fake news e boatos e provocando prejuízos sociais graves, quando não irreversíveis.

No ponto extremo, em analogia com o que acontece, talvez seja possível pensar em termos de um paralelo com alguns posicionamentos classificados por Kunczik como preconceitos. Um deles remete a considerações bastante desairosas, como, por exemplo:

“…é por isso que, atualmente, qualquer pessoa com formação média que se inicie na profissão de jornalista há de esquecer em dois ou três anos o pouco que sabia no começo. Ter-se-á destruído mental e moralmente e se tornará uma pessoa indiferente e frívola, que já não acredita em nada de grande nem se esforça para obtê-lo, dedicando-se unicamente ao poder da Camarilha. Por tudo isso, com poucas exceções, os profissionais competentes que trabalhavam no jornalismo foram-se retirando gradualmente e deixaram que ele se convertesse em um ponto de reunião de todas as mediocridades, de todas as existências arruinadas, de todos os desempregados e de todos os ignorantes que, incapazes de realizar algum trabalho verdadeiro, ainda encontram no jornalismo uma existência mais fácil e rentável do que em outra parte. (Ferdinand Lassale, em discurso de 1863, para a Allgemeiner Deutscher Arbeiterverein – Associação Geral dos Trabalhadores Alemães.)” (Kunczik 2001).

É claro que essa crítica contundente foi realizada em outro momento histórico, em outro país e em circunstâncias que circunscrevem uma exacerbação de visão negativa, mas ainda assim contribui para despertar a atenção à necessidade premente de se pensar no caminho no mínimo estranho e fora de um objetivo social maior que hoje percorre o jornalismo.

Toda ação jornalística, a princípio, teria obrigatoriamente que estar de acordo com os cânones estabelecidos pela Constituição federal no que se refere à garantia do direito de todo cidadão ao acesso à informação. Essa é, portanto, uma função basilar do jornalismo em nossa sociedade.

No entanto, o que ocorre frequentemente é o desvio proposital ou não dessa função basilar, quando o material jornalístico produzido tem em vista outros objetivos a fim de causar efeitos previamente idealizados. Nesse sentido, Kunczik cita Fritz Sãnger, ex-chefe de redação da Agência Alemã de Noticias. Segundo Sãnger, “as notícias que são formuladas visando aos seus efeitos – seja através da seleção de palavras, da troca da ordem dos acontecimentos ou da omissão de detalhes – são notícias manipuladas, quer dizer, falsas, e por isso inaceitáveis”. (Kunczik, 2001).

Essa manipulação está presente em geral de maneira camuflada, e não apenas envolvendo os elementos estruturais destacados na citação, mas incluindo vários outros, na grande maioria dos produtos jornalísticos direcionados ao público.

Uma noção elementar para se entender o processo de desvirtuamento que perpassa isso que agora é chamado de jornalismo nos é dada pelos autores Richard Rudin e Trevor Ibbotson em Introdução ao Jornalismo. Na definição por eles apresentada, “o jornalismo consiste, basicamente, em contextualizar (grifo meu) acontecimentos, ideias, informações e controvérsias”. (RUDIN e IBBOTSON, 2008). Entretanto, o que se constata é a total negligência com a necessidade de contextualização, pois, ao contrário, muitas vezes o material produzido é caracterizado pela descontextualização proposital, ou mesmo involuntária, que propicia a publicação de qualquer coisa, menos de produtos jornalísticos de qualidade. Além disso, é notória a ausência de controvérsias, fazendo com que possamos pressupor a nítida intenção de privilegiar exclusivamente um ponto de vista, e as matérias se configuram dentro de parâmetros do pensamento único, ou da célebre espiral do silêncio.

Daí não haver condições, a partir desse jornalismo praticado, de florescer o debate saudável, da proposição de argumentações mais ou menos lógicas, nem mesmo a disposição de se ouvir explanações construídas e apresentadas de forma democrática e respeitosa. Ao invés disso esse tipo de jornalismo fomenta o rancor, as avaliações odiosas, o apego incondicional à verdade de cada um, ou de cada grupo, ou de cada unidade sectária socialmente presente.

Desse modo, não há como desprezar o juízo, que pode ser questionável, de o jornalismo estar morto. Morto e insepulto, quem sabe tal e qual Lázaro na passagem bíblica, a esperar pelo milagre da ressurreição.

[¹] Ver Davies, Nick. Vale Tudo da Notícia. RJ: Intrínseca, 2016.

___

REFERÊNCIAS:
Davies, Nick. Vale Tudo da Notícia. RJ: Intrínseca, 2016.
Kunczic, Michael. Conceitos de Jornalismo Norte e Sul. SP: EDUSP, 2001.
Rudin, Richard e Ibbotson, Trevor. Introdução ao Jornalismo. SP: Roca, 2008.

***

João Somma Neto é professor do Curso de Jornalismo da UFPR e pesquisador associado do objETHOS.

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