Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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CRISE NA IMPRENSA > Más notícias

Brasil é terreno fértil para fake news

Por Raul Galhardi em 20/08/2019 na edição 1051

(Foto: Reprodução Fake news, filter bubbles, post-truth and trust. Disponível em: <https://www.ipsos.com/sites/default/files/ct/news/documents/2018-08/fake_news-report.pdf>)

Publicado originalmente no Medium

O Brasil vive um paradoxo. Pesquisas recentes revelaram que nós somos a sociedade que mais acredita em notícias falsas, ao mesmo tempo em que somos o país que afirma se preocupar mais com o que é falso e verdadeiro dentre as informações que circulam na internet. De acordo com estudo realizado em 2018 pelo instituto Ipsos, intitulado “Fake news, filter bubbles, post-truth and trust”, 62% dos entrevistados no Brasil admitiram ter acreditado em notícias falsas até descobrirem que não eram verdade, valor muito acima da média mundial de 48%.

(Crédito: “Fake news, filter bubbles, post-truth and trust” / 2018. Disponível em <https://www.ipsos.com/sites/default/files/ct/news/documents/2018-08/fake_news-report.pdf>)

O levantamento também perguntou “por que as pessoas erram?”, referindo-se ao fato de se enganarem quanto à veracidade das notícias. Os indivíduos podiam escolher mais de uma resposta.

O resultado foi que 49% dos pesquisados brasileiros disseram que os políticos são a causa; 47% acreditaram que as mídias são culpadas; 37% afirmaram que a culpa é da visão torta e negativa das pessoas; 37% responsabilizaram as mídias sociais; 18% alegaram que isso acontece porque as pessoas são ruins com números e 14% disseram que muitas vezes são os números que estão errados, e não as opiniões das pessoas.

Outro relatório que possui informações para ajudar a explicar a situação nacional quanto às fake news é o “Reuters Institute Digital News Report 2019”. Segundo essa pesquisa, o WhatsApp se tornou a principal rede social de discussão e troca de notícias no país. 53% dos respondentes dizem usar o aplicativo como fonte de notícias, número bem superior se comparado a países como Reino Unido (9%), Austrália (6%), Canadá (4%) e Estados Unidos (4%).

(Crédito: “Reuters Institute Digital News Report 2019” / 2019 Disponível em <https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/2019-06/DNR_2019_FINAL_1.pdf>)

Esse levantamento revela que as pessoas, em países como o Brasil, possuem uma tendência maior em fazer parte de grupos de WhatsApp com muitos integrantes, inclusive com desconhecidos, uma tendência que reflete como os aplicativos de mensagem podem ser usados facilmente para compartilhar informações em larga escala, potencialmente encorajando a disseminação de desinformação.

No Brasil, 58% dos usuários do aplicativo fazem parte de grupos com desconhecidos, comparado com 12% no Reino Unido. Quase um quinto (18%) discute notícias e política em grupos públicos de WhatsApp, enquanto no Reino Unido este número é de apenas 2%, o que aumenta potencialmente a chance de informações falsas serem difundidas. Outra descoberta do estudo foi que pessoas que usam grupos de WhatsApp e Facebook confiam menos em notícias e possuem maior propensão a lerem sites partidários de notícias.

A pesquisa “Thousands of Small, Constant Rallies: A Large-Scale Analysis of Partisan WhatsApp Groups”, da Northwestern University, mostrou que sites conhecidos por espalhar desinformação estão entre aqueles que mais circularam nas eleições de 2018 em grupos de Whatsapp no país. O Jornal da Cidade Online, alinhado à direita, e o Plantão Brasil, à esquerda, foram dois dos veículos mais populares identificados no estudo.

Segundo o levantamento, realizado entre entre 1º de setembro e 1º de novembro de 2018 com 232 grupos de WhatsApp, os usuários de direita aparecem mais interligados entre si, compartilhando mais conteúdos multimídia (fotos, vídeos e áudios) do que os de esquerda. Também é perceptível a tendência entre esses grupos – notada ainda nos Estados Unidos – de consumo de informação por meio de canais do YouTube: 56,3% dos links compartilhados por grupos direitistas foram de vídeos da plataforma. Nos grupos de esquerda, os conteúdos de YouTube representaram 44,2% das mensagens no período analisado.

Já as publicações oriundas do Facebook e do Twitter são mais expressivas entre os esquerdistas, onde representam 20% e 6,2% das mensagens, respectivamente – na direita são 10,8% e 2%.

Por outro lado, um dado curioso que o estudo da Reuters traz diz respeito ao fato de que 85% dos brasileiros afirmam estar preocupados com a veracidade das notícias que circulam na internet. É o maior índice entre todos os países pesquisados e um número muito maior que a média dos países pesquisados (55%). No Reino Unido, por exemplo, este valor é de 70%, enquanto nos Estados Unidos chega a 67%. Na Alemanha, alcança 38% e, na Holanda, 31%.

(Crédito: “Reuters Institute Digital News Report 2019” / 2019 Disponível em <https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/2019-06/DNR_2019_FINAL_1.pdf>)

Uma consequência dessa preocupação parece resultar em uma maior afinidade com marcas de notícias confiáveis. Uma descoberta positiva do relatório de 2019 é que mais de um quarto (26%) do total de entrevistados começaram a acreditar em fontes de notícias com maior reputação – chegando a 36% no Brasil e 40% nos EUA. Outro um quarto (24%) disse que parou de usar fontes com reputações menos sólidas e quase um terço (29%) decidiu não publicar uma notícia potencialmente falsa. A interpretação de “confiável”, “acurada” e de outros termos subjetivos foi deixada a cargo dos entrevistados.

(Crédito: “Reuters Institute Digital News Report 2019” / 2019 Disponível em <https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/2019-06/DNR_2019_FINAL_1.pdf>)

O comportamento parece ter mudado mais em países onde a preocupação com a desinformação é maior. Quase dois terços (61%), no Brasil, disseram que decidiram não compartilhar em redes sociais informações potencialmente falsas. Na Holanda, o país com o menor nível de preocupação na pesquisa, esse valor é de apenas 13%. Já a mudança para utilização de fontes mais confiáveis apresentou um resultado menos uniforme, como pode ser visto no gráfico abaixo.

(Crédito: “Fake news, filter bubbles, post-truth and trust” / 2018. Disponível em: <https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/2019-06/DNR_2019_FINAL_1.pdf>)

Esse descompasso entre credulidade e desconfiança pode ser explicado possivelmente pelo baixo índice de media literacy (alfabetização midiática) dos brasileiros. Embora os números acima mostrem uma crescente preocupação com a veracidade das informações, ele ainda é insuficiente.

Sociedades como a americana, que tiveram uma formação social e política paralela à criação da imprensa, estão muito mais acostumadas a se informar por fontes jornalísticas e a distinguir o que é ou não verdadeiro e falso do que a brasileira, onde jornais e revistas nunca tiveram uma grande penetração na população, seja pelas próprias características da imprensa escrita, seja pela desigualdade da sociedade.

Confiança nas notícias cai no Brasil e no mundo
Outras informações trazidas pelo estudo da Reuters parecem indicar um aumento do ceticismo das populações pesquisadas em relação às mídias tradicionais. Em todos os países, o nível médio de confiança nas notícias em geral caiu 2 pontos percentuais (de 44% para 42%), inclusive em relação às mídias que as próprias pessoas afirmam usar para se informar (49%).
Na França, por exemplo, devido à cobertura do movimento dos Coletes Amarelos, a mídia sofreu ataques e seu índice de confiança caiu 11 pontos percentuais, para 24%. No Brasil, devido ao clima polarizado da eleição, o nível de confiança também caiu 11 pontos, chegando a 48%.

(Crédito: “Reuters Institute Digital News Report 2019” / 2019. Disponível em: <https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/2019-06/DNR_2019_FINAL_1.pdf>)

Mais pessoas disseram que passaram a evitar ativamente notícias (32%), o que representa um aumento de seis pontos percentuais em relação há dois anos, a última vez em que a pergunta havia sido feita. Entre os motivos estão o efeito negativo no humor (58%) ou a sensação de impotência para mudar os acontecimentos.

Para Frederic Filloux, editor do site Monday Note, as pessoas estão rejeitando o mundo mostrado pelo jornalismo. Em um artigo, ele elenca duas razões principais: as mídias estariam desconectadas da vida das pessoas e também simplificando demais as notícias.

Um exemplo disso pode ser visto no gráfico abaixo, que compara as causas de morte nos EUA em 2016, segundo dados públicos (1ª coluna à esquerda), com os termos buscados no Google (2ª coluna) e a porcentagem de cobertura da mídia das causas e termos (3ª e 4ª colunas).

(Crédito: OurWorldInData.org)

O que pode ser visto é um enorme abismo entre o que a mídia publica e a realidade e aquilo que o público deseja saber. Isso gera uma desconexão entre os veículos e o público.

Em relação à simplificação das notícias, Filloux afirma que as mídias são guiadas pelas expectativas de audiência e pela propagação das mídias sociais. É mais interessante ter como fonte de uma matéria sobre aquecimento global a líder ambientalista sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que está aparecendo em todos os jornais do mundo, do que o renomado climatologista de Oxford, Myles Allen.

“Enquanto o jornalismo deveria estar lidando com complexidades e nuances, nada parece melhor do que oferecer uma aproximação atraente associada à emoção. Melhor colocar um gilet jaune (colete amarelo) no palco – como as emissoras públicas e todos os canais franceses fizeram – do que um economista para explicar as desigualdades na França”, diz Filloux.

Enquanto isso, narrativas superficiais tornam mais difícil a profundidade do debate. É difícil para as pessoas assimilar informações complexas de especialistas, principalmente aquelas que trazem dados negativos. Os subprodutos dessa falta de substância são ansiedade, medo e culpa.

Soma-se a isso um excesso de notícias negativas permeando os jornais e noticiários gerando um sentimento de impotência nos leitores e espectadores e temos a fórmula que determina porque quase um terço dos entrevistados dizem estar evitando notícias. Por fim, conclui Filloux:
“Entre a promessa de um futuro sombrio (ambiental ou democrático) e o dedo sem fim apontando diretamente para o leitor, há motivos para deixar as notícias e ir à Netflix, ou ouvir ótimos podcasts enquanto bebe um gim. Ou escolher acreditar que a notícia não é real ou que não se aplica a você”.

***

Raul Galhardi é jornalista e mestre em modelos de negócio jornalísticos pela ESPM.

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