Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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CRISE NA IMPRENSA > Dois jornais a menos

Demissão em massa, fechamento do parque gráfico: a extinção dos diários A Gazeta e Notícia Agora no Espírito Santo

Por Priscila Bueker Sarmento em 13/08/2019 na edição 1050

Fundada em 1928, a edição impressa diária e matutina do jornal capixaba A Gazeta, que nasceu como jornal de anúncios imobiliários, deixará de circular em 29 de setembro de 2019 graças ao TDigital, projeto que, segundo a empresa, “está transformando o jornal A Gazeta para levá-lo para o futuro, minuciosamente pensado ao longo dos últimos dezoito meses”, mas que só se tornou público no último 31 de julho em seu site corporativo.

Prestes a completar 91 anos, o mais antigo jornal do Espírito Santo foi adquirido no final da década de 1940 pela família Lindemberg na figura do governador do estado na época, Carlos Lindemberg (Bourguignon, Rezende, Arruda, 2005), um dos nomes responsáveis, inclusive, por fundar o Partido Social Democrático (PSD), representante da oligarquia cafeeira.

Autointitulando-se o maior grupo de comunicação capixaba, a família Lindemberg é detentora, além dos jornais impressos, de um portal de notícias e outro de anúncios, oito rádios, uma empresa de soluções digitais, a Ative, e mais quatro emissoras de TV aberta afiliadas à Rede Globo, com dois portais de notícias locais (G1 Espírito Santo e o Globo Esporte Espírito Santo, também afiliados à Rede Globo). O padrão de concentração de propriedade (horizontal, vertical, cruzada, em cruz) reflete seu monopólio como “agente de legitimação” da construção hegemônica (LIMA, 2004).

Sem citar propriamente a expressão “crise” e com a justificativa de manter o negócio jornalístico “firme e relevante” num movimento mercadológico irreversível, transferindo quase a totalidade do conteúdo impresso para o digital, o anúncio da mudança por Lindemberg Neto — herdeiro do conglomerado que é a Rede Gazeta de Comunicação — veio na esteira da comparação da audiência de dois de seus veículos: o impresso A Gazeta e o portal Gazeta Online.

Filiado à Associação Nacional de Jornais (ANJ), que, entre 2012 e 2016, foi presidida pelo próprio Carlos Fernando (Café) Lindemberg Neto, e ao Instituto Verificador de Circulação (IVC), que classifica o impresso A Gazeta como voltado às classes AB, segundo Café, o jornal tem tiragem em torno de 10 mil exemplares durante os dias de semana, enquanto a média de visitantes únicos diários no site Gazeta Online passa de 140 mil — uma das razões que obriga, segundo o diretor-geral, a “aposentadoria” do antigo formato. Do quase centenário A Gazeta restará apenas um jornal semanal impresso que circulará aos sábados.

Para Christofoletti (2019), há uma diferença entre buscar equilíbrio de contas da empresa jornalística (sua viabilidade) e visar lucros e alta rentabilidade como com os produtos de diversão e entretenimento, por exemplo. Neste cenário de transformações do jornalismo, que advém também da crise estrutural do capital que é global, para o autor, as empresas jornalísticas devem observar aspectos públicos cívicos, sua atividade como função de agente da democracia, e não só aspectos mercantis na compensação de perdas financeiras. Neste caso, não só A Gazeta, mas o também jornal impresso Notícia Agora (NA!) — lançado em 2000 por A Gazeta e voltado às classes mais populares — já foi extinto (ou “descontinuado”, como preza a linguagem “elegante” dos gestores das empresas de comunicação) no último dia 2 de agosto.

Segundo a empresa, como o custo de sua operação tornou-se demasiadamente cara diante do pequeno número de assinantes, o NA! tornou-se inviável. “O projeto TDigital prioriza o modelo de assinaturas por conteúdo na internet, onde o NA! não tinha público cativo”, afirma o jornal em sua página corporativa, tentando formatar o perfil de sua “nova” audiência ao mesmo tempo que contrapõe: “Além disso, o público de notícias populares já migrou majoritariamente para a internet e consome notícias via celular”. A descontinuidade dos jornais impressos A Gazeta e NA! é justificada por Carlos Lindemberg Neto: “Vai liberar recursos essenciais da empresa para investirmos ainda mais em tecnologia de ponta, na modernização da nossa redação e em novos serviços digitais”, quando o atual Gazeta Online for substituído por um novo site que contará, segundo a empresa, com tecnologias inéditas.

(Foto: Reprodução)

Como a maioria das adaptações das empresas jornalísticas ao gosto do mercado, tais transformações estruturais vêm calcadas no enxugamento de custos, com demissões que apanharam a classe jornalística capixaba de surpresa. De acordo com o Sindijornalistas-ES, a direção do sindicato recebeu preocupada a informação da demissão de dezenove profissionais de jornalismo, de um total em torno de 200, pela Rede Gazeta, ainda no dia 31 de julho. Destes, inclusive, uma teria sido recém-contratada para o NA! três meses antes do anúncio oficial do fim da publicação. Quanto à nova reestruturação da redação Gazeta/CBN, a empresa publicou uma lista de editores, sem mencionar repórteres. Além desse passaralho inicial, há uma leva de trabalhadores administrativos a ser demitida, a partir de 29 de setembro, com o também fechamento do parque gráfico (impressão e distribuição) da empresa.

“Abundantes em muitas formas, os produtos jornalísticos perderam valor de mercado ao mesmo tempo em que viam escapar parte da qualidade. Para compensar perdas financeiras (ou manter patamares de lucratividade), organizações noticiosas cortaram custos, demitindo profissionais, comprimindo salários, enxugando equipes e extinguindo produtos. As equipes ficaram menores, afetando diretamente sua capacidades de cobertura. Diferente de outras indústrias, a jornalística — quando fareja dificuldades — não se põe a remar mais rápido e forte, mas fica à deriva, tentando se livrar do peso morto na embarcação. Pior: faz cortes na carne do jornalismo em nome da racionalidade administrativa, de resultados contábeis imediatos.” (CHRISTOFOLETTI, 2019, p.46)

Se, por um lado, há o frisson das novas plataformas digitais de A Gazeta, que, segundo a empresa, vão dispor de recursos quantitativos como ferramentas de medição de tráfego, hábitos de consumo dos internautas e performance das notícias (distribuição customizada), com atualização em tempo real, resultando em mais oportunidades de negócios para o conglomerado — tudo isso a troco da iniciada demissão em massa dos funcionários, seja da área administrativa ou da área-fim -, seu conteúdo (viés editorial), como não poderia deixar de ser como jornal dominante, continua a ancorar-se na matriz hegemônica de produção noticiosa/pensamento. De acordo com o diretor-geral: “Como você poderá ver, nosso formato muda, mas nosso compromisso com a credibilidade, não”; conforme se apresenta a empresa no seu próprio site corporativo, sob o manto positivista da isenção e da neutralidade, já por nós criticado em texto no Observatório da Imprensa (SARMENTO, 2019), nos parece que à parte da valorização do capital humano, assim pretende adequar-se aos “novos tempos futurísticos”, modernizando tecnologicamente seu negócio.

Jornalistas-políticos capixabas votam contra colegas trabalhadores

Conforme visto, a modernização tecnológica propicia — junto a outros fatores — uma nova configuração de produção da notícia no mundo imaterial da internet, gerando também demissão em massa de trabalhadores-jornalistas, aqueles jornalistas-funcionários-de-empresa (GROHMANN, 2016). Por curiosidade, ainda sobre o Espírito Santo, do grupo de deputados que se apresentam como jornalistas por formação (profissionais) e que votaram a favor da aprovação da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados Federal, no último dia 07 de agosto, dificultando o acesso das classes trabalhadoras à aposentadoria, há dois capixabas: João Batista Conti (Ted Conti), eleito pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), e Amaro Neto, eleito pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB).

Ambos estão afastados de suas funções para exercício do cargo político. Ted Conti foi apresentador da TV Gazeta — que faz parte do conglomerado já citado anteriormente — por 25 anos, enquanto Amaro Neto, a partir de 2009, apresentou o Balanço Geral, na TV Vitória, afiliada da Rede Record de Televisão, de acordo com Lima (2004) adquirida pela Igreja Universal do Reino de Deus, na década de 1990, com a entrada das “igrejas na mídia”. O voto favorável de Ted Conti, Inclusive, segundo Mortari (2019), contraria a própria orientação do seu partido socialista, que optou pelo “não” à proposta de emenda a Constituição 6/2019.

No governo de Jair Bolsonaro, que, quando não rechaça veementemente o papel público do jornalismo e a liberdade de imprensa, tenta utilizar a grande imprensa como palco de seus disparates antidemocráticos, num espetáculo performático individual (verdadeira “cortina de fumaça” que esconde retirada de direitos e desmonte do Estado), votos favoráveis de ambos os deputados capixabas pelo “fim da aposentadoria” afetam todos aqueles que vivem do trabalho, em especial os próprios jornalistas, que já sofrem com condições precarizadas, como baixos salários — em comparação a outros de nível superior —, contratos irregulares, a “pejotização” e a alta rotatividade (GROHMANN, 2016).

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Priscila Bueker Sarmento é jornalista, mestranda em Comunicação e Territorialidades da Universidade Federal do Espírito Santo e integrante do Núcleo de Pesquisa e Ação Observatório da Mídia: direitos humanos, políticas, sistemas e transparência (UFES/CNPq).

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REFERÊNCIAS

BOURGUIGNON, J; REZENDE, L; ARRUDA, P. A Gazeta: uma longa história de tradição e transformações. In: MARTINUZZO, José Antonio (org.) Impressões Capixabas: 165 anos de jornalismo no Espírito Santo. Vitória: Departamento da Imprensa Oficial do Espírito Santo, 2005.
CHRISTOFOLETTI, Rogério. A crise do jornalismo tem solução? Barueri, SP: Estação das Letras e Cores, 2019.
FACHETTI, Eduardo. Tire suas dúvidas sobre a transformação digital da Rede Gazeta. Rede Gazeta: Notícias. Por Lara Rosado – atualizado em 02/08/2019.
GROHMANN, Rafael do Nascimento. O trabalho do jornalista a partir dos processos comunicacionais e produtivos: dimensões teóricas em cenário de flexibilização e tensionamentos identitários. Revista Estudos em Jornalismo e Mídia, Vol.13, n, Janeiro a Junho, 2016.
LIMA, Venício A. Mídia: teoria e política. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo – 2. ed, 2004.
LINDEMBERG, Café. “A Gazeta já acompanha movimento feito por leitores”. Rede Gazeta: Notícias. Por Lara Rosado – atualizado em 31/07/2019.
ROSADO, Lara. Veja como vai funcionar a nova Redação A Gazeta/CBN: os jornalistas vão dividir espaço e funções com profissionais de marketing e analistas de dados para distribuir as notícias de forma mais eficiente. Rede Gazeta: Notícias. Atualizado em 02/08/2019.
SARMENTO, P. Desonesta, a imprensa brasileira já nasceu forjada nos interesses da elite. Observatório da Imprensa. São Paulo, 28/05/2019.
SINDIJORNALISTAS-ES. Rede Gazeta demite 19 jornalistas em reestruturação da empresa. Postado em 31/07/2019.
MORTARI, Marcos. Reforma da Previdência: veja como votou cada deputado no segundo turno. Infomoney: mercados, política. Publicado em 07/08/2019.

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