Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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CRISE NA IMPRENSA > Período de transição

Ecossistemas midiáticos: inovar ou declinar e morrer

Por Rosental Calmon Alves em 19/11/2019 na edição 1064

(Foto: Unsplash – Andrew Neel)

Foi aqui no Rio de Janeiro, minha cidade natal, que há quase trinta anos comecei minha carreira do jornalismo digital.

Em 1991, lancei o primeiro serviço de notícias por computador, um projeto pré-web, que antecipava para 1.300 operadores da Bolsa de Valores do Rio o que ia sair no jornal no dia seguinte.

E, em 1995, lançamos o Jornal do Brasil Online, o primeiro jornal brasileiro e um dos primeiros na América Latina a ter uma edição na web.

Nestes últimos 25 anos, me tornei uma espécie de evangelizador digital, percorrendo redações e diretorias de meios de comunicação, universidades e empresas pelo mundo afora, alertando quem quisesse me ouvir sobre os efeitos avassaladores da revolução digital que estavam por vir.

Eu até inventei a palavra “midiacídio”, em 1999, para definir o que eu considerava inevitável: a morte do ecossistema midiático da era industrial, para dar lugar a um novo ecossistema.

Midiacídio era um contraponto à teoria de Roger Fidler sobre “mediamorfose”, uma adaptação superficial nos meios de comunicação existentes cada vez que aparecia um meio novo. Isso funcionou no século XX, mas eu argumentava que não funcionaria no século XXI.

Duas décadas depois de propor essa ideia, acho que a destruição do ecossistema midiático industrial vai de vento em popa, enquanto vemos emergir um novo e ainda indefinido ecossistema digital.

Não estou mais falando do que vai acontecer, mas do que já está acontecendo.

O novo ecossistema está aqui e é a cada dia mais radicalmente diferente do anterior. Somos a geração da transição, pois vivemos na ambiguidade dos dois ecossistemas. Um em decadência e o outro em ascendência.

O que estamos vendo nesta conferência mostra que as transformações nas empresas de mídia que optaram por sobreviver e prosperar no novo ecossistema são profundas e audaciosas. Às vezes radicais e extremamente arriscadas.

Inovar não é opcional para as empresas de mídia que querem transitar da era industrial à era digital. A única alternativa à inovação é a obsolescência, o declínio e a morte.

Apesar dos avanços, é imprescindível mudar a cultura das empresas tradicionais, assimilar a agilidade e a criatividade das startups: pensar “fora da caixa”, em busca de soluções inovadoras.

Em vez de otimizar o que já existe, é preciso começar do zero. Repensar cada aspecto das operações de mídia e buscar o novo a partir do foco nos usuários.

A inovação começa pelo reconhecimento das mudanças dos hábitos de consumo de notícias e informações, das mudanças de vida das pessoas, devido à revolução digital.

Só para citar o exemplo mais óbvio, não podemos deixar de reconhecer o fato de que o celular se transformou numa inseparável extensão de nosso corpo e nossa mente e nossa principal fonte de informação e interação com o resto do mundo.

Nesta época de transição, empresas vencedoras se tornam laboratórios midiáticos, capazes de reimaginar todas as suas atividades a partir da observação dos novos hábitos de consumo.

É preciso ter coragem de cortar o que não funciona mais nesse novo ecossistema e de experimentar produtos e serviços mais adequados à nova realidade. Como muitos que vocês estão fazendo e têm visto.

Pense grande, comece pequeno e escale rápido! Ou fracasse rápido!

Inovar é experimentar e aprender!

Estamos navegando por mares nunca dantes navegados, estamos criando o caminho enquanto caminhamos.

Essa é a cultura que levou pequenas e audaciosas startups tecnológicas a se tornarem vencedoras, gigantes e líderes neste século. Essa é a nova cultura da mídia que permitiu a muitas das empresas inovar.

Na era digital, o ciclo da experimentação é geralmente rápido, barato e uma forma de aprendizagem, na qual cada fracasso pode estar ajudando a abrir caminho para um futuro sucesso: fortalece, estimula e leva a uma nova tentativa.

As empresas tradicionais de mídia estão mais acostumadas a melhorar o produto e não a criar novos produtos. Por isso, não tem sido fácil mudar essa cultura em muitas delas. Mas é imperativo para sobreviver no novo ecossistema midiático.

Estamos passando da era dos meios de massa e para a era da massa de meios.

De um sistema midiático mídia-cêntrico, onde a comunicação emanava das organizações de mídia, estamos passando a outro, que há anos venho chamando de um sistema midiático “eu-cêntrico”.

Quero dizer com isso que, nesse ecossistema eu-cêntrico, eu, indivíduo (pessoa física), ou qualquer organização (pessoa jurídica), ganha capacidades e privilégios que eram exclusivos dos meios de comunicação de massa.

Isso não significa o fim dos meios de massa, mas sim que eles precisam se transformar para sobreviver na companhia da massa de meios e dos nativos digitais, muitos dos quais já nascem compatíveis com esse novo ambiente.

A crise da mídia que temos vivido no jornalismo é uma tempestade perfeita, uma combinação de fatores complicados.

De um lado, vê-se a ruptura dos modelos de negócios que sustentavam o jornalismo de qualidade. De outro lado, vê-se a “desintermediação”, o fenômeno que permite a políticos, governos, empresas de todo tipo a se transformarem em meios de comunicação.

As revoluções geralmente são seguidas de períodos de caos. Elas destroem mais rapidamente do que constroem. Estamos passando por esse tipo de caos revolucionário, cuja manifestação mais clara é a epidemia de desinformação e de uma espécie de cólera digital.

Essa epidemia só aumenta a responsabilidade dos meios de comunicação que fazem jornalismo sério e independente, baseado no profissionalismo, na ética e na disciplina da verificação. Sem esse tipo de jornalismo, não há democracia.

Salvar o jornalismo profissional, através da transformação profunda das empresas tradicionais e da criação de novas, nativas digitais, não é só uma responsabilidade empresarial. É sobretudo uma responsabilidade cívica que ganha ainda mais importância na conjuntura política de hoje.

Essa responsabilidade cívica torna-se ainda maior diante dos ataques sem precedentes históricos que o jornalismo vem sofrendo tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil e em outras partes do mundo.

Eu comecei no jornalismo aqui no Rio, há mais de meio século, aos 16 anos de idade, poucas semanas antes de a ditadura militar decretar o Ato Institucional Número Cinco. O AI-5, como é conhecido, decretado no dia 13 de dezembro de 1968, suspendia os direitos civis e estabelecia a censura.

Nos anos seguintes ao AI-5, vi a censura nas redações onde trabalhei, recebi pelo telefone e copiei em máquinas de escrever as notas de censura ditadas por agentes da Polícia Federal. Vi colegas jornalistas serem presos e levados aos porões de tortura.

Mas nem naquele pesadelo em que vivíamos no Brasil e que depois testemunhei como correspondente estrangeiro pela América Latina afora, eu vi uma campanha sistemática e sinistra para minar o jornalismo como instituição.

O que estamos vendo não é um ataque circunstancial contra esta ou aquela notícia, mas um ataque estrutural que tenta desmoralizar o papel que os jornalistas exercem numa democracia.

Ontem, a força bruta calava o jornalismo.

Hoje, vemos atuar um outro tipo de força bruta, possível graças à revolução digital, que usa a comunicação direta para atacar o jornalismo independente.

O objetivo, agora, é perigosamente genérico. Não é censurar isto ou aquilo, mas tentar convencer a população a não acreditar na verdade dos fatos, mas sim numa realidade alternativa que tentam impor.

Ao reinventar o jornalismo para adaptá-lo à era digital, precisamos responder a esses desafios com serenidade e energia. Não só através dos avanços tecnológicos e de novos modelos de sustentabilidade, mas também através da criação de um novo tipo de relacionamento com nossas audiências, que fomentem a confiança.

As audiências não são mais aquelas massas amorfas, quietas e distantes do século passado. São seres humanos em rede, inquietos e próximos, acostumados a um novo tipo de interação, de participação em suas atividades online.

Não basta mudar o posicionamento de marketing puramente comercial do passado (compre uma assinatura!) para o apelo à solidariedade (apoie o jornalismo independente! A democracia morre na escuridão!).

Nos dias de hoje, esse chamado à solidariedade ajuda, mas no longo prazo precisamos criar um jornalismo mais transparente, mais aberto e que busque levar o leitor a sentir confiança e pertencimento.

Quando o jornalismo online apareceu, uma das previsões mais comuns era a da personalização. Ou seja, em vez de falar com a massa, a organização jornalística se comunicaria comigo e abriria um diálogo comigo. A personalização está atrasada, mas vai chegar nos próximos anos.

Enquanto a personalização não chega, que tal me chamar pelo meu nome na newsletter que você me manda de manhã? Ou em qualquer comunicação que me enviar? Meu banco faz isso, minha linha aérea preferida faz isso, os sistemas de distribuição de e-mails que vocês usam permitem isso, mas raramente vejo isso no jornalismo.

Que tal explicar os bastidores de uma cobertura? Compartilhar os dilemas editoriais? Perguntar aos leitores se algum deles é especialista no tema que vocês estão cumprindo? Explicar como o jornalismo funciona?

Nesse novo ecossistema midiático, a evolução do jornalismo depende da inovação tecnológica, mas não podemos deixar de lado o aspecto humano. Temos que desbravar novas fronteiras no nosso relacionamento com as comunidades e as pessoas que servimos. Só assim vamos criar confiança e fidelização.

O texto acima foi apresentado no discurso de abertura da cerimônia de premiação da conferência Digital Media LATAM WAN-IFRA, realizada no Rio de Janeiro de 11 a 13 de novembro de 2019.

***

Rosental Calmon Alves é um jornalista brasileiro que há 23 anos emigrou para os Estados Unidos para ser professor titular de jornalismo na Universidade do Texas, em Austin, onde ocupa a Cátedra Knight em Jornalismo e dirige o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas.

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