Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CRISE NA IMPRENSA > Elo entre o passado e o futuro

Jornalismo demitido

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 23/10/2017 na edição 963

Jornalista Ricardo Kotscho. (Foto: Agência Brasil)

Há alguns dias chamou a atenção a divulgação de um texto do jornalista Ricardo Kotscho sobre uma situação inusitada em décadas de carreira: pela primeira vez, ele estava sem emprego fixo. Eliane Brum saiu em lúcida defesa do colega num post no Facebook argumentando que não se tratava de um caso isolado e observando que, como repórter, Kotscho contou parte da história mais recente do Brasil e está entre os mais preparados para entender a dureza do tempo presente.

A atual crise que conjuga aspectos macroeconômicos com mudança nos modelos de negócio de mídia tem se revelado perversa para os jornalistas mais experientes. A justificativa, muitas vezes, está nos salários e Eliane Brum observa que, salvo raras exceções, os valores não são tão altos. Jornalismo continua sendo uma profissão mal remunerada.

Essa realidade tem provocado a quebra de uma relação histórica na prática jornalística: a convivência de jornalistas mais experientes com jovens. “Parte da crise da imprensa e de seu caminho rumo à irrelevância se dá pela quebra da cadeia de transmissão do conhecimento dentro das redações. A crise ao mesmo tempo causa e é causada por essa quebra da cadeia de transmissão do conhecimento dos mais velhos e experientes para os mais jovens e inexperientes. Não há curso de jornalismo que substitua isso. Infelizmente, não é um caso isolado. Vários colegas que têm feito um trabalho relevante têm sido demitidos nos últimos tempos. E é um sinal muito preocupante esse enfraquecimento da imprensa e a demissão dos mais críticos num momento tão delicado e decisivo do país”, escreveu Brum.

Um outro acontecimento recente também aparece como enfraquecimento do jornalismo diante do atual contexto político e econômico. A demissão do jovem repórter da Folha de S. Paulo, Diego Bargas, após uma matéria sobre o novo filme de Danilo Gentili, foi tema da coluna da ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, no domingo seguinte. Seguem alguns trechos da coluna contextualizando o fato.

“Na sexta-feira, 13 de outubro, a Ilustrada dedicou uma página ao novo filme de Gentili – ‘Como se Tornar o Pior Aluno da Escola’. Sob o título ‘Comédia juvenil ri de bullying e pedofilia’, a reportagem em questão é descritiva. Ao final, cita que ‘gerou comentários’ a cena em que um dos personagens pede a adolescentes que o masturbem. O texto registra que Gentili não quis responder a uma pergunta sobre piadas com pedofilia.

Na mesma página da Ilustrada, a crítica feita por outra profissional (Marina Galeano) avaliava o filme como ruim: ‘Vale qualquer coisa para transgredir e tentar arrancar risadas da plateia’, definiu. Em seguida, exemplifica: ‘diálogos chulos; enxurrada de palavrões; cenas escatológicas; piadas sobre minorias, religião e até pedofilia’.

A crítica era mais dura com o filme do que o texto de apresentação. Às 10h14 do dia da publicação, Gentili iniciou no Twitter uma espécie de cyberbullying: ‘Matéria mente. Postarei em breve vídeo da entrevista na íntegra (eu filmei). Pesquisem DIEGO BARGAS. Qual a chance de fazer matéria isenta?’.

Às 11h05, divulgou o vídeo com a íntegra da entrevista e, às 13h14, reproduziu postagens antigas do repórter no Facebook, que Gentili classifica como petistas. Não havia mentira alguma do repórter, mas Bargas se viu no furacão das redes sociais. Trancou suas contas no Facebook e no Twitter e avisou seu chefe direto sobre o que estava acontecendo.

Algumas horas depois, a Folha colocava seus advogados à disposição para defender Bargas do cyberbullying, mas lhe comunicava que estava sendo demitido do jornal por desrespeitar a orientação reiterada de ‘evitar manifestações político-partidárias nas redes sociais. Ao demitir o repórter após o apresentador de TV pedir sua cabeça, o jornal deu um péssimo exemplo de falta de apoio a um profissional da casa e incentivou outros entrevistados a jogarem jornalistas aos leões toda vez que se sentirem ofendidos por críticas a seus trabalhos’, apontou Julio Adamor Cruz Neto.

O editor-executivo Sérgio Dávila explica que os jornalistas da Folha devem evitar manifestar posições político-partidárias, que tendem a reduzir a credibilidade do jornalista e a da Folha – que tem o apartidarismo como princípio editorial –, e emitir juízos que comprometam a independência de seu trabalho. Dávila salientou que Gentili nunca falou com ninguém do comando do jornal sobre o caso.

A justificativa para o desligamento de um repórter exige coerência daqui para a frente. A postagem dos profissionais da casa em redes sociais ficará sob escrutínio.

Coincidentemente no mesmo 13 de outubro, o jornal “The New York Times” divulgou a atualização das diretrizes de conduta de seus profissionais nas redes sociais. As orientações estão em linha com aquelas traçadas pela Folha.

A Folha deveria ter analisado com mais discernimento os posts e ter ouvido as justificativas do repórter. Poderia ter optado por advertência profissional, espécie de alerta para as responsabilidades de cada um. As falhas técnicas do jornalista deveriam ser enfrentadas. Se não corrigidas ou minoradas em tempo razoável, a demissão poderia vir a ser a solução natural. Mas o ataque sofrido pelo profissional que atuava em nome da Folha não poderia ter sido tratado com naturalidade, sem resposta firme.

Da forma como procedeu, uma onda de insegurança se ampliou entre profissionais e leitores. Qual o respaldo que os jornalistas obtêm no exercício do seu trabalho? Qual o limite entre cobrança pública legítima e o cyberbullying? São questões que permanecem em aberto.”

A intersecção entre a perda de transmissibilidade nas práticas jornalísticas e a demissão do jovem repórter da Folha no contexto como seu deu sinalizam algum esvaziamento do jornalismo por dentro das estruturas. Para além dos aspectos corporativos da profissão, a perda de autonomia e o silenciamento dos profissionais mais experientes causam prejuízos à sociedade, como conclui Eliane Brum: “nunca se precisou tanto de jornalismo de qualidade na história recente como agora, neste momento em que o Brasil inventou a democracia sem povo”.

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