Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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CRISE NA IMPRENSA > Saídas possíveis

Jornalismo na veia: três respostas para um crime

Por Norma Couri em 02/07/2019 na edição 1044

Para quem ainda duvida, o jornalismo tem saída? Tem, e a carreira vale a pena, respondendo à pergunta de pais que insistem em transformar em opacos administradores de empresas uma geração que talvez sonhasse em ser jornalista. O que não deixa de ser um assassinato, suicídio ou crime contra a profissão.

A primeira saída

(Foto: Divulgação)

Foi dada pelo jornalista Rogério Christofoletti no recém lançado A crise do jornalismo tem solução? (Estação das Letras e Cores). O livro começa com uma pergunta e os cinco capítulos têm perguntas:

1- A crise é apenas financeira?
2- O fim está próximo?
3- É possível ainda acreditar nos jornalistas?
4- O jornalismo ainda é importante?
5- Onde é a saída?

Os fantasmas voltam à sala para nos assombrar. A assustadora realidade das demissões que contabilizaram 1200 profissionais no Brasil no ano de 2016 não estancou o fenômeno do voo rasante de um pássaro pelas redações. De 2012 a 2018, mais de 2300 jornalistas foram atingidos pelo passaralho e as demissões em empresas de mídia nesse período somavam 7800. Se o próprio autor reconhece essa catástrofe aumentada pelo fechamento das empresas, registrando uma taxa de mortalidade de 35% em 100 revistas – só a outrora gloriosa editora Abril fechou nove revistas e demitiu mais de 500 profissionais -, onde está a saída?

“A primeira vocação jornalística é um compromisso com o tempo presente”, afirma Christofoletti. Informações reforçam estados emocionais reconfortantes para os humanos. E pertencimento tem a ver com identidade. Ou seja, entender o que se passa é um fator de sobrevivência. “Estamos mesmo dispostos a abrir mão da informação jornalística?”, ele pergunta.

A queda de circulação da mídia impressa (de 7,2 milhões nos anos 1990 para 5,66 milhões oito anos depois), a queda da audiência nas rádios e TVs, as novas tecnologias, o streaming, o podcast, a internet, a euforia de cada um criar seu próprio jornal, o sumiço dos grandes anunciantes – seriam esses males terminais? Especialistas determinaram o fim do jornalismo entre 2020 e 2043. Digamos que, de todas as profissões, nenhuma foi atingida tão duramente pela crise econômica causada pela tecnologia quanto o jornalismo.

Mas no excelente O mundo da escrita, que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, Martin Puchner afirma: “é a educação, não a tecnologia, que vai assegurar o futuro da literatura”. E do jornalismo. No meio do caos, jornalistas criaram coletivos enquanto donos de jornais foram buscar o antídoto no próprio veneno, captando assinaturas digitais, como o The New York Times.

A receita é simples:

1. Independente do suporte, o que importa é fazer bom jornalismo, o que nem sempre acontece nas invasões bárbaras onde todo-mundo-se-julga-jornalista. Jornalismo tem regras, segue princípios éticos e requer muita cultura e conhecimento que inexistem no arsenal de faculdades particulares criadas para despejar hordas de profissionais num mercado despedaçado. Um jornal tem credibilidade porque veicula informações em que as pessoas acreditam.

2. Que cada um se proteja de plataformas gigantes como o Google, que comprou o YouTube, e o Facebook, que abocanhou o Whatsapp. O Big Brother mora ali.

3. Assimilem a crise econômica, tecnológica e de modelo, o suicídio de propagandas facilitando a venda de notícias a preços baixos. Para sanar a erosão da credibilidade, Christofoletti cita José Manuel Burgueño: ”lutar pela qualidade do produto, buscando a verdade com a máxima honestidade possível, com humildade e transparência, reconhecendo e sanando erros e se mantendo independente”. O admirável mundo novo do jornalismo requer “reinvenção e inovação”: oferecer às audiências mais do que elas desejam receber, dizer às pessoas o que elas não querem ouvir. Num mundo saturado de mídia, ousar ser um produto de informação, educação e integração – alimentando o espírito crítico e enaltecendo a relação umbilical entre jornalismo e democracia.

A saída? Christofoletti diz simplesmente que o jornalista tem de ser, antes de tudo, um forte. São necessárias resistência, resiliência, capacidade de adaptação, tenacidade, criatividade para sobreviver e imaginar caminhos.

O cenário não encoraja. A crise do jornalismo também é política. No Brasil, onde o ecossistema é preponderantemente comercial, Christofoletti descreve clãs contaminando o ambiente com vícios familiares, predatórios e refratários à inovação na gestão. Tudo acontecendo num mercado com grande apetite por lucros, regulamentação complacente e esquálida contrapartida social.

A saída está na legitimidade dos jornalistas e no absoluto domínio da prática jornalística. Isso se lançarmos mão da governança, que se deixa ficar à cargo dos proprietários e gestores, e nos ocuparmos dos aspectos financeiros que garantam a sustentabilidade do negócio. Christofoletti insiste que jornalistas têm de fazer o que não gostam, passar a se preocupar com engajamento e circulação. Um exemplo é o jornal britânico The Guardian, mantido pela Fundação Scott Trust com acionistas diversificados – mas sempre renovados, para não viciar.

“As fundações que sustentam veículos noticiosos são orientadas por um espírito público (ou cívico), bem distinto da agressividade das empresas de mercado, ávidas por resultados contábeis positivos e lucratividade a todo custo”.

O jornalismo tupiniquim pode se espelhar no The Guardian, mas precisa criar novo cenário; o nosso é bem distinto do britânico. Como? Captando o apoio do público, elegendo políticos de outra natureza e minando o egoísmo das elites.

Christofoletti encoraja: “democracia e jornalismo são imperfeitos e limitados, mas ainda não inventamos sistemas alternativos que os substituam”. A crise do jornalismo afeta a todos. Coragem e mãos à obra.

(Em tempo: o livro de Christofoletti é dedicado a Jânio de Freitas, “bússola profissional e ética”, e a Alberto Dines, “otimista como muitos, crítico como poucos, jornalista como nenhum”.)

A segunda saída

(Foto: Divulgação)

Nirlando Beirão escreveu um dos melhores livros lançados recentemente no Brasil, Meus começos e meu fim (Companhia das Letras). Jornalista de peso, ele conta que foi seduzido pela profissão “pela mais frívola das razões: a vaidade”. E fez o caminho de todo jornalista que se preza, “daí em diante transitei por toda publicação que se possa imaginar”, lastimando o fim de algumas em que trabalhou. O primeiro emprego em 1967, Última Hora, depois Jornal da Tarde, O Jornal, Jornal da República, Senhor, Bravo, República, Wish Report… também as revistas Veja e Playboy, onde fui sua colega.

Ele ensina: “o leitor tem toda a razão em ignorar o trombetear enfatuado de um editorial que pretende endireitar o mundo e repreender a humanidade. Adoro o jornalismo tido como desimportante, o jornalismo pop, das franjas, da periferia, que é de fato o que retrata nossa época. Um jornalismo que não amordace o sentimento de quem o faz”.

Nirlando conta a frustração de tentar em Paris, com amigos, entrevistar Samuel Becket, e, bem mais tarde, a indignação cívica que tomou conta dele quando os parlamentares votaram “em nome de Deus” pelo impeachment de Dilma, quando ele então recorreu à velha máxima “graças a Deus, sou ateu”.

Ateu, mas seus começos têm a ver com o avô Beirão, padre português que veio para Minas Gerais, onde foi pároco em Oliveira e se apaixonou pela jovem Esméria Miranda, sua avó. O casal fugiu, marcando o escândalo-mor da aldeola pacata – um tabu na família. Nirlando só descobriu o “pecado” muito mais tarde. “O padre e a moça romperam o lacre da hipocrisia.”

E seu fim? O “fim” do título tem a ver com a doença que descobriu em 2016, aos 67 anos: ELA, esclerose lateral amiotrófica, que está, como ele diz, enguiçando seu corpo, forçando a moradia no “país da doença” povoado por homens de branco, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas. “Degenerativa é a palavra que tira você para dançar – uma dança de medo”. Passou pela surpresa de ser, de repente, não apenas o jornalista que chega, mas o “cadeirante” que, na informação do motorista de táxi na entrada de um estádio de futebol, funciona como um abracadabra.

O bom humor de Nirlando entremeia a dor, chamando o andador de “minha Ferrari”, a cadeira de rodas elétrica de “minha viatura”, percorrendo a memória pelos bons livros que leu. “Ah! Tem um Salman Rushdie pela metade, que eu vinha trilhando antes, desde o tempo da normalidade, um Ian McEwan que me decepcionou mas do qual ainda não desisti…e aquele Orientalismo do palestino Edward Said, bíblia de tolerância e erudição que sempre tenho em mente reler, seja quando for”.

Nirlando fala da doença com naturalidade, os tremeliques por baixo da pele que visam bombardear o tônus muscular. E usa a ironia sempre que pode, como a piada que fez quando foi informado da fatalidade progressiva: “vou ficar como o [Stephen] Hawking só que sem saber nada de física nem de matemática”. Usou um vidro de cotonete como ampulheta, apostando que, quando os cotonetes acabassem, ele também acabaria.

Vai relatando a infância com os irmãos, a adolescência, as coberturas jornalísticas, o cotidiano de antes e depois, a perda gradativa das palavras, “a língua pesa duas toneladas”, e a covardia diante da mão que virou garra e da outra que, sobrecarregada, emite alertas.

E por que o excelente livro do Nirlando entrou aqui como a segunda saída para o jornalismo? Porque é com essa mão direita, “o único ítem da minha anatomia que não me traiu”, que ele escreve os artigos alentados na Carta Capital toda semana, além deste livro (é autor de vários outros). Ele sabe que “o ponto final está me aguardando, com ansiedade justificada”. Mas parar de escrever será “a mais fatal das minhas perdas, pior que a capacidade de amar”.

Este é o jornalista Nirlando Beirão, que relata os sonhos em que caminha alegremente pelas próprias pernas até que duvida e cai da bicicleta. E confessa: “tenho medo”. Mas segue citando a morte assistida da escritora francesa Anne Bert, que foi se matar na Bélgica (a França proíbe morte assistida) porque tinha ELA. “Vocês já ouviram falar aqui – ELA é minha companheira”. A curiosidade de Nirlando é saber como Anne conseguia escrever no final. Ditava? “Ou os dedos ainda tinham o poder de deslizar pelo teclado ardiloso?” Prefere pensar como Camus, “se há um problema filosófico realmente sério é o suicídio”. Logo conserta, “a ansiedade da sina degenerativa me faz pensar na minha – perdoem a insolência – posteridade…que legado terei deixado?”

No jornalismo, já deixou um belo legado. Desde que o livro saiu, Nirlando recebeu três críticas. Foi chamado de “craque, gênio” por Helio Gurovitz na Época, de “sujeito encantador, bom vivant elegante que se deslocava pela boemia jornalística com brilho e afabilidade” por Ivan Martins no Valor e seu livro foi considerado “no mínimo uma aula de como escrever bem” na opinião de Naief Haddad, da Folha. Ele se abriu sem rodeios na entrevista de quatro páginas na Carta Capital, A literatura ou a vida, onde relata essas memórias, à beira do abismo.

A terceira saída

(Foto: Divulgação)

A terceira saída acaba de acontecer pela a gloriosa vitória nas urnas da Chapa 2 da Associação Brasileira de Imprensa, ABI, Luta pela Democracia, que reuniu jornalistas do Brasil inteiro mas, principalmente, do Rio e São Paulo. A chapa ganhou com 221 votos contra 97 e 68 depositados nas duas chapas concorrentes, depois de amargar um embargo na primeira eleição e ver a urna acautelada por um desembargador carioca que aceitou uma ação injusta movida pela antiga diretoria.

Por que uma eleição na ABI é uma saída para a profissão? Porque os jornalistas, a maioria fora das redações, perceberam que era hora de lutar pela profissão subitamente transformada em Geni, chicoteada, desprezada, desprestigiada. Como informou a ombudsman da Folha de S.Paulo no domingo, 30 de junho, 59% dos brasileiros acreditam que jornais e revistas veiculem conteúdo falso (a pesquisa é da consultoria francesa Ipsos).

A ABI foi criada em 1908 para profissionalizar o jornalismo, um tempo, como diria Ruy Castro, em que o mundo girava a 78 rpm. A partir dos anos 1950, as redações foram adquirindo manuais, da metade do século XX em diante a profissão foi ganhando regras, respeito e estabilidade até os computadores entrarem no mercado em 1980 – o que foi bom, basta ver os números de vendas e publicações até o final dos anos 1990. E veio a crise. Mas nunca se imaginava que aconteceria o descrédito anunciado para a profissão.

Lutar pelo jornalismo em torno da Chapa 2 recém eleita na ABI voltará a nos dar orgulho. A proposta é buscar uma saída digna e reabilitadora – e quem não acredita, espere para ver. Uma das regras dessa profissão é nunca aceitar não como resposta e reagir contra o arbítrio. A ABI deu o primeiro passo para fazer do jornalismo uma profissão e agora pode voltar a ser uma entidade suprapartidária defendendo seus pares, veículos de comunicação, o patrimônio cultural, a democracia e a liberdade de imprensa. Garra, faro, resistência e criatividade nós temos de sobra. Chegou a hora desta geração de jornalistas mostrar seu valor.

***

Norma Couri é jornalista.

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