Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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CULTURA > Videoclipe

Emicida AmarElo: discurso, ideologia, poder

Por Wilton Garcia em 06/08/2019 na edição 1049

(Foto: Reprodução Youtube)

A desigualdade econômica, no Brasil, desenha amplo conjunto de problemas sociais com violentas disputas de discurso, ideologia e poder a partir da diversidade – diversus, em latim. Respeitar a diversidade é fundamental. Por isso, questiono: é possível uma sociedade sem ideologia?

Com direção de Sandiego Fernandes, música do rapper Emicida e participação das cantoras Majur e Pabllo Vittar, o videoclipe AmarElo (2019) tem se destacado como porta-voz legítimo da diversidade atualmente no canal Youtube, na internet.

Tal produção audiovisual começa com o depoimento dramático de um jovem suicida. É uma passagem que eleva ao extremo, de forma contundente, e abala o público pela dor e pela depressão.

Entretanto, há uma performance coletiva/colaborativa e jovial, ilustrando histórias de dificuldade e superação. Superar seria avançar as fronteiras para descobrir novas/outras oportunidades ou soluções. É tentar achar caminhos, rotas…

Diversus

A noção de diversidade (de classe, gênero, orientação sexual, raça, religião) escapa do controle hegemônico ao suscitar alternativas inimagináveis. E isso incomoda, por ressaltar o desconhecido – longe de um eixo central. A diversidade amplia a percepção da vida.

Divergir pode ser ameaçador se conferir instabilidade nos múltiplos elementos que se espalham pelas cenas fragmentadas – entrecortadas pela edição – em um videoclipe. Tal (in)completude constata-se por camadas na narrativa audiovisual, em que se estratifica o/a Outro/a como sujeito no mundo. Suas derivações criam situações complexas, metaforicamente, como extensões enunciativas da natureza humana.

Um novo sistema inteligível (re)equilibra variantes da diversidade e multiplica como contingências (des)dobradas de maneira exponencial. Isso reflete nas discussões teóricas, sociais e políticas no campo contemporâneo da comunicação e da cultura, por exemplo. Se uma experiência depende da produção de intensidade, as relações humanas equivalem-se à diversificação de processos comunicacionais, discursivos, os quais expõem novas formas de produção cultural.

Portanto, a linguagem da diversidade (como a do videoclipe) estimula o empoderamento e convoca o engajamento (engagé) para além de ativismo e/ou militância. Empoderar seria seguir firme, caminhar em determinada perspectiva. Na dinâmica capital, o empoderamento dessa diversidade conduz um discurso político com pautas vibrantes.

Mais que alegórica ou apelativa, a mensagem explosiva da diversidade aqui assina o protagonismo periférico na luta pela sobrevivência, sobretudo na internet. São desafios reflexivos que se desdobram na agenda atual.

Amarelo

Ao transversalizar ricas experimentações poéticas, a linguagem de AmarElo provoca reflexão profunda. A música Sujeito de Sorte (1976), de Belchior, foi sampleada.

Por certo, o vídeo empolga, mas também clama por debate: na urgência de quem tem pressa para combater uma realidade devastada por miséria, pobreza, desigualdade. Esse videoclipe sustenta a diversidade de vozes sobrepostas no rap (rhythm and poetry) de Emicida para se manifestar como resposta urgente ao sistema.

O efeito videográfico atualiza, de modo estratégico, a produção de conhecimento, subjetividade e informação. Nessas articulações radicais, interessa a produção de efeito circunstanciada pelo cenário da favela como produto cultural contemporâneo.

Ainda que, para Žižek (2017, p. 86), “na arte contemporânea frequentemente encontramos tentativas brutais de ‘voltar ao real’, lembrando ao espectador (ou leitor) que ele está percebendo uma ficção, para acordá-lo desse doce sonho”, observa-se, então uma atmosfera ficcional polêmica com a responsabilidade de impactar o público e criar visibilidade com um produto cultural bastante potente.

O audiovisual mostra uma resiliência estética, criativa e, ao mesmo tempo, propositiva que inscreve a condição adaptativa da diversidade. Sentir na pele dificuldade seria resistir às insurgências cotidianas a qualquer custo. Resistir faz parte do exercício impregnado na carne.

A experiência poética de negros e transexuais nesse audiovisual legitima um jeito diferente de resistir aos enfrentamentos de determinada realidade, distante de um ato de denúncia ou reivindicação de direitos, a prevalecer subversão e transgressão (FOUCAULT, 2011). Descortinar saberes compreende elementos estranhos e traz novidades ao vasculhar possibilidades singulares, como assumir afetos e sentimentos.

O videoclipe oferece um estímulo para buscar uma saída na vida, acreditando no futuro. Por isso, é providencial o cuidar de si (FOUCAULT, 2011). Obstinadamente, seria não se esconder nas desculpas. Nesse colapso, não falar de mágoas ou cicatrizes, mas ressaltar o que ainda resta de bom. Para além de um pedido de socorro, é uma estética da rebeldia para deixar de ser inválido: levantar a cabeça e ultrapassar as mazelas, pois perder não é opção, diz a trilha musical.

Das cores da bandeira brasileira (verde, amarelo, azul), amarelo é a cor para o sinal de atenção no trânsito e o vídeo demonstra um estado crítico, um estado de alerta. E a maneira de escrever o título desta obra (AmarElo) reúne duas palavras que tocam as relações humanas: o amor e o elo.

Da reflexão à crítica (e vice-versa), AmarElo provoca, sim, um enorme desejo de avançar na pauta do estado democrático de Direitos Humanos. A expectativa é gerar mais ações afirmativas para contestar o ultraconservadorismo (ultrapassado), incapaz de visualizar a liberdade de expressão das pessoas.

Indiscutivelmente, discurso, ideologia e poder são estratificações relevantes no modus operandi de existir – Ser/Estar sujeito em sua sujeição (inter)subjetiva. Quem te representa?

Desdobramento

O mercado-mídia no âmbito da diversidade, no Brasil, precisa pensar primeiro sobre a natureza humana; e não a ocupação de prestígios ou privilégios de poder. Ainda que se possa tratar de uma proposta de entretenimento no mundo capitalista (vide a produtora Laboratório Fantasma), torna-se imprescindível trabalhar, cada vez mais, a diversidade e reconhecer os direitos humanos, pois a dignidade entrelaça-se à solidariedade.

Por certo, a questão deste texto elege a diversidade a ser tangenciada como ideologia pela produção cultural do videoclipe. Por mim, o compromisso intelectual localiza detalhes de cena fragmentada pela diversidade que pulveriza modos de pensar e agir em retóricas de uma realidade brutal recorrente. Distante do senso comum, um fluxo de informações contemporâneas questiona a condição humana, cuja proposição forja uma intensidade diversus-differénce.

***

Wilton Garcia é artista visual, doutor em Comunicação (USP), pós-doutor em Multimeios (Unicamp), professor da Fatec Itaquaquecetuba/SP e do PPG em Comunicação e Cultura da Uniso.

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Referências

EMICIDA. AmarElo. Direção: Sandiego Fernandes. Produtora: Laboratório Fantasma, 2019. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=PTDgP3BDPIU>
FOUCAULT, M. A coragem da verdade. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
SIPIVAK, G. C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.
ŽIŽEK, S. Acontecimento: uma viagem filosófica através de um conceito. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

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