Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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CULTURA > Ponto de vista

Não fuja do spoiler! Notas sobre consumo de arte e mídias sociais

Por Marcos Filipe Zandonai em 14/01/2020 na edição 1070

(Foto: Equipe do Observatório da Imprensa)

A regra é lembrada a todo momento: “sem spoilers”, “não vai dar spoiler, hein!”, “aff, não estraga o filme!”. Pode ser que você ache banal eu querer problematizar esse assunto aqui. Provavelmente, vai pensar: lá vem mais um que quer bancar o questionador, “a destruidora”. Mas a discussão ganha um teor mais sério para quem, como eu, aposta no vigor da arte como desenrolar de potências que edifica a liberdade, o que se articula a educação, comunicação e cultura como formas de emancipação humana (e não submissão). E, com efeito, o enriquecimento de nossos padrões, referências e experiências perpassa questões como consumo de cultura, linguagem, leitura de textos audiovisuais, letramento e afins.

No livro Letramento literário, Rildo Cosson explica a opção pedagógica que consiste de realizar intervalos de leitura. Seriam momentos para, em situação escolar, os estudantes socializarem os resultados da leitura de um livro longo. O autor relata que essa abordagem encontra resistências do tipo “não me conte a história porque quero descobrir por mim mesmo”. A gente conhece bem isso, não é? Um risco, é claro.

Entretanto, Cosson esclarece que isso é pura falácia fabulística. Diz ele: “ao lermos um texto literário, obtemos muito mais que informações sobre a história narrada”. E isso porque, segundo o autor, a leitura do texto literário, incluindo saber seu final, é um acontecimento singular de envolvimento com a obra, coisa que não tem substituição, que não tem réplica, jamais pode ser transmitido a outra pessoa. Ainda contestando a tal falácia, ele continua: “é claro que revelar o culpado em uma história policial ou de suspense pode ser um incômodo para o leitor que esperava descobrir por si mesmo o desfecho, mas até autores desse tipo de narrativa sabem que além do que se conta, vale como se conta”.

Como a série é contada. Parece-me que essa dimensão tem sido deixada de lado, em nome da urgência-nossa-de-cada-dia. Como a urgência em ser fisgado já no início, em anúncios de vídeos do YouTube, ou a urgência de ser respondido instantaneamente no WhatsApp e também de dar conta de todos os recados, estímulos… Apreciar o percurso da trama e analisá-la (ver como ela se monta) é algo tão enriquecedor como saber o destino do mocinho e do vilão. Isso já tem até ditado por aí: o processo é tão ou mais legal que a chegada, algo assim. Afinal, ao ler um livro, você não vai direto para as últimas páginas para conhecer o final. “Como muitas pessoas, eu não vou para o fim do livro para ver quem morre ou o que acontece”, testemunha também Nicholas Christenfeld, um dos pesquisadores que mostrou que o spoiler não atrapalha o consumo das obras (ESTUDO, 2011).

À primeira instância, defendo, sim, essa pegada do “analisar”, do intelectualzão. Falar com os outros sobre a série permite que, cooperativamente, enxerguemos contradições na trama, estratégias para incutir ideologias etc. Isso já vale.

Saber de antemão a reviravolta de uma história não necessariamente estraga a experiência de assisti-la: é o que as ciências cognitivas (TOBIN, 2018) também apontam. Uma vez que descobrimos a moral, tal descobrimento afeta, sim, nossas convicções. Mas já é natural que façamos antecipações diante de qualquer coisa.

Na perspectiva de Tobin (2018), daria para dizer que a satisfação causada por uma reviravolta, em uma experiência sem spoiler, não é resultado só desse impacto-surpresa. O barato está também em poder “apreciar as partes anteriores da história à luz da reviravolta”. A informação excedente em/de uma parte redimensiona o sentido da outra parte e da totalidade. Isso torna possível que o espectador se delicie com pensamentos do tipo “isso era óbvio, caso se prestasse atenção”.

Para a pesquisadora (2018), se o espectador é conhecedor de pontos relevantes do enredo, segundo a maldição do conhecimento (as antecipações, muitas das quais naturais, que entram em jogo), essa maldição pode colaborar para uma forma específica de estesia e envolvimento (que nem sempre vivenciamos). Nessa forma, é como se as diferentes etapas da história parecessem “pressagiar o fim”. E é isso que pode fazer com que o texto consumido apresente-se como uma harmonia, uma unidade constituída de elementos internos que se relacionam coerentemente.

Acrescento que as etapas não ficariam à serviço apenas da elucidação sobre os acontecimentos da trama, mas estariam à serviço de um tipo de cognição, que liga o espectador aos mecanismos técnico-criativos, à tecnologia do autor, a outros motivos (inclusive à psicologia ou sociologia por detrás). Ora, o que os actantes de uma história executam guarda, em nível mais fundamental, cargas energéticas de estados passionais e de estilos de ser/fazer e tons de performance. Os blocos de informação da obra adquirem status de pontos de acesso a essas cargas ou disposições, e, por extensão, à escrita da vida, como reunião e operação de arquétipos, símbolos, rituais, máscaras, pincéis, quadrantes, tecnologias de estar e de se concatenar (com tais itens, e não outros… por que, afinal, com estes e não outros?…). Enfim, antecipação/retorno pode significar reflexão.

Minha argumentação vai andando mais.

Spoiler é, antes de tudo, ponto de vista. É a leitura que alguém fez, não “a” leitura. Ler não é captar o conteúdo pronto. E vale para leitura de telas a óleo, poemas, notícias… Ao comentar algo, estarei já intervindo no que enxergo como “o que aconteceu”. O acontecimento da trama é ressimbolizado, ressignificado, segundo minha bagagem prévia. Falo dela mas em nome de mim (da minha classe, da minha formação educacional), já que nenhuma fala é neutra.

Outro ponto é que falar sobre um enredo é a convocação para recriar esse mundo da ficção – com a sensação positiva que isso tem. É uma forma de ser mais gente! Ao repor em palavras a cena da ficção, o espectador re-encena sua(s) identidade(s), vislumbrando novas orientações para sua vida (decisões, desejos, opiniões etc.).

Note que estou na direção de afirmar que o spoiler é um bem a ser aproveitado. Mas concedo, caro leitor. Devo fazer alguma objeção, é claro. Há os chamados “spoilers-babacas”, sei bem disso, e aqueles vazamentos indesejáveis para qualquer produtor (problema ético). Houve um estudo cuja finalidade era averiguar se spoilers tinham mesmo a capacidade de diminuir o prazer de assistir uma obra (WEISBERGER, 2015). Ele mostrou que pessoas que recebiam spoiler no resumo da obra, mesmo não sabendo que se tratava de spoiler, passavam a enxergar essas histórias como pouco interessantes (WEISBERGER, 2015). Isso é ruim, concordo. Esse fato tem seu valor, mas só pode ser argumento inexorável para quem acha que compreender e apreciar o audiovisual – na condição de arte – significa processá-lo individualmente.

O fato é que só processamos um evento (filme, livro, série…) a partir e com a ajuda da cultura e da comunidade, de onde surgem: entusiasmo, práticas de microspoiler, interpretações sobre esse microspoiler (que podem ser diferentes entre quem o leu e quem o produziu) etc. A cultura das séries é hoje uma Social TV (MONTPETIT, 2008 apud VILELA, 2017): cascatas de conversação, discussão e compartilhamento de impressões e intertextualidades (nos gifs, músicas, posts de Facebook) (VILELA, 2017). Eu diria, aliás, que essas práticas são exigíveis pela ecologia dos meios digitais (PAVEAU, 2013). Nessa cibertelefilia (VILELA, 2017), o acesso e a memória das obras vêm de diferentes pontos e ajudam os usuários a conformar os produtos (revisão dos feitios da série ou filme).

Mas atenção para irresponsabilidades éticas (spoilers babacas), sim. Alertas de spoiler precisam acontecer. O que aponto, aqui, mais enfaticamente, é para distorções ou excessos dessa tensão em torno do spoiler, que é, antes de tudo, um ato de fala, na sua incompletude, acidentalidade e permeabilidade.

Assumindo essas questões sobre o funcionamento da linguagem, a questão é desenvolver a sensibilidade do diálogo e construir uma inteligência e uma afetividade que são somente aquelas possíveis a partir do encontro com a voz do outro. É um tipo de inteligência e afetividade que a gente não obtém em outra oportunidade. Ela provém de um contato único, dentre as várias opções e acidentes possíveis nos ambientes dos espectadores hiperconectados – agora, usuários-consumidores-produtores (convergência) (VILELA, 2017).

Trata-se de apostar em um saber-sentir que nasce tão-somente do instante único, de um determinado estágio do ele/ela (a pessoa que nos acompanha na série ou filme), um certo estágio do eu, num certo aqui e agora. Um momento que muitas vezes desperdiçamos. Desperdiçamos as fagulhas de emoção, hipótese, gargalhada, por causa das regras sobre “não atrapalhar o andamento” – que, no fundo, é aniquilar o humano.

Desperdiçamos por quê? Porque acelerados, consumistas, com pressa, implacáveis na nossa verdade sobre “como a cultura é hoje em dia”, sobre “ah, é óbvio que no final eles se casam”, porque intransigentes, porque esfomeados de conteúdo e formantes (show+show+séries+posts+tweet…) e paradoxalmente desnutridos de ideias que nos afoguem na humanidade, que retifiquem entendimentos e nos toquem a pele para nos tirar o ar (de autoridade, de certeza). Porque demasiado conteudistas, informativos e informados, legendados/rotulados (“ah, eu já sei que, na série X, todo mundo morre! não tem graça!”; “ah, The Witcher é o novo Game of Thrones“). Porque não nos permitimos ao delírio, ao cair em águas traiçoeiras. E aquela (inter-)figuração, que me liga à alteridade (às profundezas da significação e da trama) e me faz mais eu, e mais grupo, e mais pessoa histórica, fica para trás.

Veja que ser contagiado por spoilers pode até ter outro significado, o de reconhecer a experiência estética do companheiro como importante, reconhecer o objeto de arte como em construção. Não só como algo não acabado nos créditos finais, mas como permanente, inacabado, na vida das pessoas.

No modelo diacrônico e transnacional dessa cibertelefilia, o usuário consumidor teria vantagens, como ampliar seu aproveitamento da indústria de entretenimento, sendo apresentado a novas séries (a partir dos fóruns) em uma nova qualidade e, ainda, ampliar seus conhecimentos e argumentação nas conversações críticas. Cumpre lembrar que essa lógica nos dá maior poder, como partícipes do backchannel de mídias sociais (VILELA, 2017), hoje sustentáculo das séries. Comentários, críticas e previsões (elementos que mostram nossa sagacidade e senso crítico) desencadeariam revisão das produções, por exemplo, quando expressamos nosso sentimento em relação à diversidade social do elenco ou expressamos nosso aproveitamento dos easter eggs¹, fazendo, inclusive, com que os produtores criem elementos mais instigantes, atendam ao público.

Não se trata de aceitar, desordeiramente, o spoiler. A questão é que poderíamos ser mais cientes de como funciona a arte, sobre suas potencialidades (ainda mais hoje, nas mídias digitais), sobre sua incompletude, seus implícitos, aceitando melhor o que (nos) acontece e as bricolagens que poderiam resultar disso.

Não se trata de deixar estragar os planos de maratonada, não. Longe disso… A questão é não nos esquecermos de que a fábula nos constitui, as memórias, a emoção do acabar de ver, o abraço, coisas estas numa trama não palpável e cuja descrição nos escapa sempre. Pulsão. Com retornos a cada paragem dos anos que avançam. A certa altura da vida, uma nostalgia-sabor – potência da arte. Não sejamos chatos evitando spoilers equivale a não sejamos chatos evitando histórias repetidas da avó sobre seus tempos de juventude – receosos, nós, de uma lambuza de convivência.

Não abandonemos o tesouro da palavra. Ela é um bem na continuidade. Toda leitura de uma obra prevê um remexer-se nos arquivos, que aciona falas preexistentes, e, ao mesmo tempo, prevê uma revisão do presente. Por isso, a importância de expressá-la, retextualizá-la, mas na doçura, por sensibilidade a quem nos escuta.

O discurso do outro que procura dar conta da série pode ser o ponto de indagação sobre nossas verdades sobre a arte (ou aquela arte, em específico). A sua fala pode desencadear outras interrogações, inclusive depois de assistirmos à arte. Por que não produzir sentidos nesses vários tempos e espaços? O que há precisamente de insuportável a ponto de não viabilizar o acolhimento, a interpenetração, o desbravar de uma audiência customizada? Fazer(-se em) descaminhos, na leitura das artes, que é, artisticamente mesmo, atear assombros e surpresas. Através dos anteparos de um mundo que mecaniza, simplifica, naturaliza e impõe diretrizes, para enxergarmos isto e aquilo, isto ou aquilo, “artistar” (cutucar, perturbar, remexer-se), como defendo, é estar à espreita de outros sóis, ângulos, perspectivas.

¹ Easter eggs são segredos, pistas e códigos espargidos para a audiência que se propõe a decifrá-los e em relação aos sentidos/direções da trama, ou são informações extra, disponibilizadas na trilha sonora e em diferentes instâncias que promovem determinado jogo digital, filme ou série.

REFERÊNCIAS

-COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2006.
-ESTUDO nos EUA mostra que spoilers não estragam livros ou filmes. In: Exame. São Paulo,12 ago. 2011.
-PAVEAU, M.-A. Technodiscursivités natives sur Twitter. Une écologie du discours numérique, Epistémè 9, 2013, p. 139-176.
-TOBIN, V. Por que um ‘spoiler’ não estraga o filme: assim funciona a ciência da reviravolta na trama. El País, Madri, 26 mai. 2018.
-VILELA, M. D. A cultura das séries nas redes: a sinergia entre recursos narrativos e Social TV. In: BRESSAN JUNIOR, M. A.; VILELA, M. D. (org.). Redes e Convergências. 1. ed. Palhoça: Editora Unisul, 2017, p. 37-55.

***

Marcos Filipe Zandonai é licenciado em Letras (Português), mestre em Linguística Aplicada e graduando em Letras (Inglês). Tem experiência de pesquisa e extensão no campo da divulgação/midiatização da ciência. É professor de Língua Portuguesa e Língua Inglesa e revisor de textos.

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