Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CURADORIA DE NOTíCIAS > Entrevista com Carlos Castilho

A sociedade precisa, mais do que nunca, de informações confiáveis

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 08/08/2017 na edição 953
Carlos Castilho

O jornalista Carlos Castilho fala sobre os novos desafios para o jornalismo digital. (Foto: Arquivo Pessoal)

Carlos Albano Volkmer de Castilho está na estrada do jornalismo há 45 anos e é um desses raros profissionais que souberam se reinventar na transição para as plataformas digitais, trazendo na bagagem experiência em todos os meios e também uma carreira acadêmica na área. Já passou por agências de notícias, rádio, jornais, revistas, foi correspondente internacional e professor de jornalismo online. Ex-assessor da União Europeia para projetos de comunicação na América Central e também membro da diretoria do Observatório da Imprensa.

É graduado em mídias eletrônicas, com mestrado e doutorado pelo Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina. A sua tese foi sobre o papel da curadoria na promoção do fluxo de notícias e, atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado na UFSC sobre comunidades de prática em projetos jornalísticos. Desenvolve ainda projeto de estudo e apoio a jornais locais e comunitários. Em entrevista por e-mail ao Observatório da Imprensa, Carlos Castilho fala sobre a importância da ideia de curadoria como campo de transformação das práticas jornalísticas, das possibilidades para o jornalismo local e cobrança social por informações confiáveis, entre outros assuntos.

Pedro VaroniVocê acompanhou na prática – e também na teoria – a mudança de um jornalismo de tradição impressa para o formato digital. Quais são as principais transformações trazidas pela internet ao jornalismo?

Carlos Castilho – Mudou praticamente tudo. Eu comecei no jornalismo quando as agências de notícias ainda usavam o telégrafo. Isto foi em 1965. De lá até os anos 90 foram mudanças incrementais (telex, fax e correio eletrônico). A substituição das Olivettis e Remingtons pelo computador não chegou a alterar drasticamente as rotinas e normas do jornalismo. A grande revolução começou com a internet porque ela incorporou o leitor, o ouvinte, o telespectador e o internauta na produção e disseminação de notícias. Deixamos de ser a referência exclusiva em matéria de informação jornalística. A notícia não é mais uma commodity valorizada e com isto a imprensa perdeu receitas financeiras. A avalancha informativa e as redes sociais virtuais atropelaram a capacidade das redações processarem informações. O mundo do jornalismo virou um redemoinho permanente. Não acho isto ruim, mas não é fácil a nossa adaptação à fluidez das normas, rotinas, equipamentos, modelos de negócios, perspectivas e principalmente ao convívio com a diversidade de posicionamentos do público.

Há algo que se perdeu nas antigas práticas e que deveria ser retomado?

C.C. – Não há transição sem perdas. Esta é uma lei natural, porque a gente sempre considera perda, o desaparecimento de algo ou alguém com o qual, ou com quem, nos sentíamos seguros, confortáveis porque conhecíamos bem. A transição do modelo analógico para o digital no jornalismo implica o ingresso num território desconhecido, que precisa ser explorado, e consequentemente gera a inevitabilidade de erros e acertos. Nós não sabemos lidar com o erro, principalmente no jornalismo, porque ele é imediatamente associado a fracasso. Os teóricos sempre ensinaram que não há acerto sem erro prévio, mas na prática a cultura das redações só valorizava os acertos. Acho que a principal perda sofrida por nós jornalistas foi a da segurança no exercício da nossa profissão. Entramos numa era de inovação permanente e isto gera uma enorme instabilidade e incerteza profissionais.

Você pesquisou no seu doutorado o conceito de curadoria de notícias. Quais os principais sentidos desse termo?

C.C. – A curadoria de notícias é um dos novos campos de atividade profissional que foram criados com a universalização do uso da internet e da computação. Até a virada do século XXI nós, jornalistas, éramos todos curadores nas redações. Éramos quem separava o que considerávamos útil do inútil para o leitor, ouvinte ou telespectador. Os porteiros da notícia ou os gatekeepers. Mas isto mudou com a avalancha informativa. O volume de informações cresceu em tal magnitude que as redações se tornaram incapazes, materialmente, de lidar com tantos dados, fatos e eventos. Além disso, os interesses do público se diversificaram enormemente por causa da amplitude da oferta de notícias. Isto abriu espaço para o surgimento do fenômeno da curadoria de notícias e informações, algo novo no jornalismo e no nosso cotidiano. Na minha tese eu procuro alimentar o debate sobre os aspetos teóricos e práticos da curadoria de notícias porque ela tende a se transformar em algo incorporado ao nosso dia a dia, bem como o elemento chave na formação das comunidades de informação, grupos de indivíduos que se aglutinam em torno a um interesse comum para fazer a seleção das notícias que recebem. As comunidades de informação geralmente se formam em torno de um jornalista porque ele tem capacitação profissional para lidar com a informação, e fazer a contextualização e verificação de notícias falsas, meias verdades e marketing político. As pessoas comuns não tem tempo e nem treinamento para fazer isto.

Você acredita que existe espaço empreendedor no jornalismo brasileiro para a prática da curadoria de notícias? O que vem sendo feito de interessante?

C.C. – A curadoria de notícias, como uma atividade lucrativa, só funciona em nichos especializados de informação. São os profissionais conhecidos como information brokers, que buscam e selecionam dados, fatos e eventos de interesse para clientes geralmente do setor financeiro ou político. Mas no geral, a curadoria de notícias não é um negócio capaz de render um bom salário. Ela é parte de um processo e nisso ela é um dos itens da grande busca de novos modelos de negócio em curso, tanto entre as empresas jornalísticas, grandes e pequenas, como entre os empreendedores individuais. Ela precisa ser vista junto com outras funções novas no jornalismo, como treinamento de leitores para lidar com a informação, relacionamento com o público e reportagens com banco de dados, só para mencionar algumas.

O meio digital trouxe mais pluralidade de vozes ao jornalismo brasileiro? Existem setores tradicionalmente ausentes do debate que hoje estão representados?

C.C. – A diversificação do jornalismo brasileiro ainda é um sonho. Continuamos concentrados no eixo Rio/São Paulo/Brasília onde a pauta é determinada pelos tomadores de decisões e pelos lobbies políticos, sindicais e empresariais. O grande ausente é o jornalismo local, que ainda deve passar por uma grande transformação para deixar de ser um negócio de caciques políticos locais e empresários ególatras. A internet abriu um espaço inédito para o jornalismo local porque ele se transformará numa poderosa ferramenta de produção de conhecimento local, indispensável para a geração de capital social, a base dos mecanismos de inovação, sem os quais a economia digital patina.

O jornalismo digital já encontrou sua linguagem?

C.C. – Não. Está todo mundo buscando. O problema é que jornalistas e acadêmicos tendem a procurar sozinhos as novas fórmulas narrativas. Sem a interação com o leitor, sem o tal engajamento com o público, fica muito mais difícil. E nós ainda não sabemos direito como vai rolar esta relação com o leitor. Do ponto de vista técnico, já logramos alguns avanços bem importantes em matéria de narrativas multimídia não lineares. O The New York Times e o The Guardian são os que mais avançaram em técnica multimídia na produção de reportagens em ambiente digital, mas ainda não dominam plenamente a empatia narrativa.

Como você vê as possibilidades narrativas no jornalismo digital conjugando práticas de texto escrito, podcasts e formatos em vídeo?

C.C. – A narrativa multimídia não linear incorpora um grau muito maior de envolvimento do internauta porque lida com percepções auditivas, visuais e textuais. Elas permitem a imersão informativa do indivíduo num grau nunca alcançado pelos jornais, pelas rádios e pelos telejornais. É o futuro do jornalismo na internet, embora nem todas as notícias serão publicadas em formato multimídia. Não acho que o impresso acabará. Ele vai conviver com outros formatos narrativos. O problema da multimídia é que ela é bem mais cara do que os processos convencionais do jornalismo atual. Cara porque exige mão de obra. Você pode fazer uma grande reportagem com três ou quatro repórteres, mas um projeto multimídia simples requer no mínimo cinco pessoas especializadas em pelo menos três softwares básicos.

Se você fosse dono de um jornal local numa cidade média brasileira o que faria para ter um modelo de negócio sustentável?

C.C. – Um negócio jornalístico sustentável na internet requer antes de tudo um comprometimento com o público. Sem as pessoas, não adianta ter uma boa proposta jornalística, tecnologias adequadas e profissionais competentes. Quanto maior o conhecimento sobre o público alvo, maior a probabilidade do projeto dar certo. Mas é preciso pensar nas receitas e aí é também indispensável buscar uma relação entre jornalistas e publicitários, diferente da atual. Conteúdos e receitas precisam caminhar juntos sem que um se imponha ao outro. A integração entre ambos profissionais é muito complexa e precisa romper com uma série de preconceitos. É o que me ensinou o projeto que estou desenvolvendo para estudar obstáculos para a sobrevivência financeira de jornais locais e comunitários. O grande problema do jornalismo pós industrial não é mais a tecnologia mas sim como lidar com as mudanças de comportamentos e valores provocadas pelas tecnologias de informação e comunicação.

Quais seriam as recomendações para um jovem jornalista que está chegando ao mercado?

C.C. – Os empregos na imprensa convencional estão encolhendo continuamente. Assim o jeito é investir no jornalismo online. Uma estratégia seria primeiro conhecer o ambiente digital, as tecnologias disponíveis para um jornalista, criar uma rede de contatos (engajamento com o público) , buscar um nicho informativo onde a principal característica é a pessoa gostar muito do tema escolhido (é essencial gostar muito porque só assim será possível suportar o longo tempo até que o projeto chegue a uma maturação mínima capaz de gerar uma renda. Este é o principal fator de desistência) e desde o começo estar sempre com um olho na sustentabilidade financeira. A concorrência é feroz, o contexto noticioso é muito fluido, as tecnologias mudam constantemente por causa da inovação permanente e a margem de erro é alta. Mas não temos outra alternativa senão enfrentar tudo isto porque a sociedade precisa, hoje mais do que nunca, de informações confiáveis, relevantes, pertinentes e o mais exatas possíveis.

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