Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

DESENHOS FALADOS > AFEGANISTÃO-IRAQUE

As guerras dos EUA diante do ‘efeito al-Jazeera’

Por Jorge Arbach em 30/10/2006 na edição 405

Insurgentes islâmicos divulgam vídeos e áudios, espalham comunicados e mostram sua versão dos fatos usando ferramentas disponibilizadas de forma democrática na internet. É neste cenário que agora os Estados Unidos levam à frente sua luta contra o terrorismo. Para o professor americano James Der Derian, do Instituto Watson para Estudos Internacionais, da Brown University, a religião sectária está levando vantagem ao menos no campo da propaganda. Derian conversou com O Globo Online nesta semana, quando esteve no Brasil para participar do seminário ‘Terrorismo e relações internacionais: perspectivas e desafios para o século XXI’, organizado pelo Consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro e pela PUC-Rio.



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Durante a guerra no Líbano, Israel acusou a rede americana CNN de não mostrar imagens de vítimas israelenses. Ainda se espera uma cobertura imparcial da mídia numa época em que, com a ajuda da internet, há inúmeras fontes de informação?

James Der Derian – Durante a primeira Guerra do Golfo, as pessoas identificaram o que foi chamado de ‘efeito CNN’. Pela primeira vez, havia uma rede de notícias provendo, praticamente em tempo real, informações sobre o campo de batalha. Graças às novas tecnologias de então, foi possível ter uma perspectiva que não era estritamente a dos EUA. O chamado ‘efeito CNN’ está agora sendo substituído. Podemos falar do ‘efeito Al-Jazeera’. Uma rede de notícias está sendo usada para apresentar outro ponto de vista, a visão do Oriente Médio. As novas tecnologias permitem a proliferação de pontos de vistas. Então, quando Israel diz que sua visão não está sendo contemplada na CNN, acho que é uma falsa questão já que há todas estas outras formas de divulgação de notícias. Testemunhamos atualmente uma mídia global, num nível nunca visto antes.

Diante da disseminação de tecnologias como internet e celulares com câmeras, você acredita que a mídia cidadã tem o poder de compensar um possível desequilíbrio nesta cobertura jornalística?

JDD – Tem potencial, mas ainda não chegou a este ponto. Creio que já se identifica como um fenômeno muito importante. Várias pessoas chamam de mídia cidadã, eu chamo de ‘efeito Nokia’. É a idéia de que você pode enviar quase que instantaneamente para emissoras imagens do atentado de 7 de julho em Londres. A questão da qualidade impede que este fenômeno seja completo. Ainda queremos um meio de julgar a autenticidade, de saber se é uma fonte genuína ou não, se é realmente uma vítima no metrô ou outra coisa. O segundo provável obstáculo é o fato de não haver editores, que têm um papel importante. Apenas um bombardeio de imagens sem qualquer tipo de filtro leva a um excesso de informação. As pessoas acham que as imagens falam por si mesmas, mas elas não o fazem. Elas vêm com legendas.

Quando um vídeo da Al-Qaeda é divulgado num site, a mídia geralmente não identifica a fonte da informação. Mais uma vez, na era da internet, de fato funciona esconder das pessoas esse tipo de coisa?

JDD – Quem está sendo protegido? Esta é a questão. Hipoteticamente, num mundo perfeito, cada fonte tem um nome, cada pedaço de informação tem um autor, porque desta forma há uma contabilidade, há responsabilidade. Existe uma grande guerra na internet para fechar alguns sites de extremistas. Mas não acho que é fiel aos princípios democráticos. As pessoas deveriam julgar por si próprias o que é a informação, se é útil, falsa ou propaganda. Não quero que outra pessoa faça este julgamento por mim. De qualquer maneira, é fácil encontrar, é por isso que inventaram o Google.

A Al-Qaeda no Iraque…

JDD – Bem, não existe exatamente uma Al-Qaeda no Iraque. Há um grupo que opera usando este nome, mas não há evidências claras de que um se baseou no outro.

OK, extremistas no Iraque costumam usar sites americanos de compartilhamento de arquivos para divulgar vídeos e áudios. Você acha que o governo Bush está combatendo com afinco estaprática?

JDD – Certamente, existe um grande grupo dedicado à inspecionar estes sites, que são ao mesmo tempo um meio de divulgar a palavra da Jihad e de seu oponente entender suas fraquezas.

Mas estes vídeos de terroristas podem acabar ajudando de alguma forma o governo americano, uma vez que dão um rosto ao inimigo?

JDD – Muitos destes vídeos não têm como alvo o público americano, mas o do Oriente Médio. Então, sim, o público americano pode pensar que estas pessoas são más e loucas e se perguntar por que elas estão glorificando a decapitação de reféns. [Os vídeos] mostram a barbárie. Só que a Al-Qaeda já lançou um comunicado pedindo: ‘Parem com as decapitações, está dando publicidade negativa para nós’. Existe a percepção de que se atinge vários públicos.

Por que os americanos são tão desinformados sobre o que ocorre no mundo, apesar de a mídia ser tão poderosa no país? É uma questão cultural ou seria uma conseqüência do excesso de informação?

JDD – Tento evitar rótulos. Existe uma grande diversidade nos Estados Unidos. Muitas pessoas nos EUA são incrivelmente informadas sobre o Oriente Médio. E estão cada vez mais informadas porque reconhecem que fronteiras não barram as ameaças. Agora nós temos que estar mais informados.

Mas, e quanto ao mundo como um todo?

JDD – Sim, existiu um certo isolamento por muito tempo em relação ao resto do mundo, mas diria que isso mudou de várias maneiras, pelas imigrações, pela economia global. Com estas forças interdependentes e transnacionais, as pessoas estão buscando mais informações sobre o mundo.

As Forças Armadas americanas usam cada vez mais jogos de guerra para treinar seus soldados. Você acredita que corremos o risco de ter um Exército que acha que a realidade é, de certa forma, virtual?

JDD – É sempre um perigo, porque há um paradoxo. Quanto mais realista o treinamento parece ser, mais tendência o soldado tem de encarar a realidade como sendo a simulação. Mas o propósito por trás disso é o de que eles errem durante os exercícios de treinamento.

Você acha que casos como os abusos praticados por militares na prisão de Abu Graib podem ter alguma relação com o tipo de treinamento que eles têm?

JDD – Uma das coisas mais difíceis para um soldado é saber diferenciar o inimigo do amigo, o insurgente do civil. Ele precisa alternar entre ser um soldado treinado para matar o inimigo e ser um soldado sendo treinado para proteger os civis. Muitas vezes, precisa fazer esta mudança em segundos. Sinto muito por estes soldados. Tenho menos compaixão pelas pessoas que os colocam nesta posição. Muitas pessoas chamaram atenção para certos treinamentos, por exemplo, o dos pilotos. Eles simulam situações, incluindo algumas que envolvem níveis de tortura, como com água fervente. Alguns disseram que este treinamento se tornou a base das técnicas que foram usadas em Abu Graib e na prisão da Baía de Guantánamo. Neste sentido, há uma conexão.

Em outras guerras, os Estados Unidos usaram com eficiência a propaganda contra seus inimigos. Agora, apesar do combate ao terrorismo, mais e mais pessoas escolhem o martírio e não a liberdade. Será que a religião sectária está sabendo usar melhor a propaganda do que os EUA?

JDD – Acho que há uma tendência das burocracias – e o Departamento de Defesa é uma enorme burocracia – de reagir com lentidão. E a imaginação não é um dom associado a elas. Além disso, há evidências de que antes do 11 de setembro havia um site da Al-Qaeda. Agora, são centenas. Então, pode-se dizer que, neste ponto, a guerra tem sido boa para a Al-Qaeda. Devemos reconhecer que eles são mais fortes em relações às redes de comunicações, que muitas vezes favorecem o caráter descentralizado, flexível e não-hierárquico das células terroristas. Eles têm esta vantagem. De qualquer maneira, o Estado tem mais recursos, em termos de informática, capacidade de vigilância, entre outros.

Como você vê o futuro das guerras no Afeganistão e no Iraque?

JDD – A incursão no Afeganistão tem sido em grande parte bem-sucedida. Estamos entregando cada vez mais responsabilidades para o governo do país. Mas acho que a invasão do Iraque foi um erro. Disse isso no primeiro dia da invasão. A questão não é simplesmente os erros deste governo, mas os das agências de inteligência, do Congresso e da Academia. Considero que os prognósticos não são bons se continuar deste jeito.

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