Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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DESINFORMAçãO > O papel do leitor

Do que você duvidou hoje para ajudar a combater as fake news?

Por Hellen Bizerra em 21/08/2018 na edição 1001

Na era da “pós-verdade”, a luz do fim do túnel não é o desmantelamento coordenado de redes de mentira. A dúvida pode ser a ferramenta de combate a boatos mais eficiente de todas.

Há quatro anos faço parte de um time de jornalistas que se dedica a desmentir boatos da internet. Acredito que posso falar com propriedade que, em 2013, quando meu amigo Edgard Matsuki, criador e editor-chefe do Boatos.org, resolveu mergulhar de cabeça nesse projeto, ele jamais pensou que a web se transformaria nesse emaranhado de informações falsas que, hoje, são a verdade absoluta de milhares de pessoas. Eu certamente nem imaginava.

Em 2014, quando aderi ao projeto, embora mentiras online e correntes falsas já existissem nos Feed de Notícias e nas caixas de e-mail, termos como “fake news” e “pós-verdade” eram somente embriões na mente de pesquisadores. Agora, às vésperas de uma eleição presidencial, essas duas palavras estão resultando em uma força-tarefa inédita de comunicadores, veículos e instituições, criada exclusivamente para evitar que, a exemplo da eleição de Donald Trump nos EUA ou da aprovação do BREXIT no Reino Unido, o Brasil tropece em mentiras descaradas durante seu período eleitoral mais importante.

E acontecimentos recentes como o desmantelamento de uma rede de difusão de notícias falsas, que culminou na exclusão de dezenas de perfis e centenas de páginas do Facebook, não só assinala esta força-tarefa da qual comento, como nos expõe um fato que antes se parecia ignorar: a conta da mentirada na web, uma hora ou outra, chega para todos nós.

A verdade (vejam a ironia desse termo em um texto sobre notícias falsas) é que a engrenagem responsável pelo funcionamento das fake news na internet nunca foi ingênua, bem-intencionada ou mesmo apenas “liberdade expressão”. Trata-se de uma indústria complexa, financiada e estruturada que inclusive já foi esclarecida em excelentes matérias de investigação. Indico este material da Folha de S.Paulo, vale a leitura.

Quando então falamos de sistemas complexos, não dá para achar exagero ou perseguição que o próprio canal transmissor dos produtos desse esquema não tome uma atitude. A reação do Facebook que, claro, sabemos foi movida principalmente pela dor no bolso e pela crise de marca ligada aos milhões de dólares perdidos diante dos escândalos envolvendo a Cambridge Analytica, precisa servir de inspiração. O que temos feito para evitar difundir notícias falsas na internet? Estamos realmente preocupados com a procedência dos conteúdos que compartilhamos? Essas respostas, por si só, rendem uma tese de doutorado.

O que, de forma prática, pode ser respondido é que não é necessário desenvolver um novo algoritmo de computação, ser formado em Comunicação e/ou ser doutor em Jornalismo e Pós-Verdade (ou qualquer das pós-graduações que a nossa realidade permite despontar a cada dia) para identificar e evitar o compartilhamento de fake news. Os sinais são muito simples:

– Se a fonte não é confiável e conhecida, é provável que seja um boato;
– Se o discurso é alarmista e/ou extremamente partidário, é provável que seja boato;
– Se o texto pede para ser compartilhado de forma muito insistente, é provável que seja boato;
– Se com uma busca rápida, você não encontrar repercussões da informação em outros veículos de comunicação (jornais, portais de notícias de renome, revistas) é MUITO PROVÁVEL que seja boato.

Além dos sinais mencionados, a era da pós-verdade também criou um nicho de comunicação que tem sido muito bem preenchido – a dos checadores de notícias falsas. O número de boas iniciativas dedicadas a esse propósito é crescente e já existem tantos canais que dá para escolher: Boatos.org, Agência Lupa, editorias especiais em jornais como Extra, Folha de S.Paulo, isso para citar alguns.

A ignorância das pessoas tem sido indiscutivelmente utilizada para criar discussões, polaridades e até mesmo “verdades” que nunca existiram. No entanto, chegamos a um ponto crítico e de ruptura, onde não há mais espaço para agir sem duvidar. Mentiras na internet são um desserviço, denigrem e infelizmente até matam. Já temos tristes casos que ilustram isso. Todos temos responsabilidade sobre aquilo que compartilhamos e divulgamos na internet. É preciso duvidar, porque a dúvida é o início do verdadeiro combate às mentiras.

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Hellen Bizerra é jornalista formada na Universidade Estadual de Ponta Grossa e repórter do site Boatos.org. Atualmente, atua como analista de comunicação.

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