Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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DIáLOGO COM LEITORES >

A propósito da Nova Etapa

Por Carlos Castilho em 04/07/2015 na edição 857

Recebemos do leitor Luiz Claudio Cunha a seguinte mensagem que publicamos acompanhada de um comentário de Alberto Dines:

Grande Dines,

É simplesmente perturbadora a série de notícias que, desatento, só li ontem, relatando as turbulências no nosso bravo OBSERVATÓRIO.

Ainda mais assustadora pela inesperada defecção de Luiz Egypto e Luciano Martins Costa, com quem compartilho minha angústia de jornalista, leitor, colaborador e admirador de todos vocês e de meu site favorito.

Confesso que, lendo e relendo, ainda não consegui entender bem a razão dessas perdas, de repercussão inevitável para todos nós. 

Percebo que o OI foi atingido pela crista mais violenta da crise que assola a imprensa, mas não compreendi como a velha e simplista receita de demitir jornalista, que todos condenamos na mídia tradicional, pode resolver os problemas de uma estrutura enxuta como parece ser o caso do OBSERVATÓRIO.

Minha aflição aumentou pela incapacidade de mostrar meu sentimento de desamparo no próprio site, já que o sistema de comentários só admite mensagens via Facebook, Yahoo. AOL e Hotmail. Como detesto coisas como Facebook e Twitter, que não uso, e não sou usuário dos outros três, meu acesso pelo velho e bom Gmail ficou impossível. Só por isso escrevo direto a vocês, para expressar o que sinto.

A inspiradora liderança do Dines, somada ao talento do Luiz e do Luciano, transformaram o OI num remanso de bom senso e de inteligência neste oceano de intolerância crescente e de mediocridade galopante que hoje caracterizam a mídia e seus principais personagens.

A reflexão madura, o contraponto de posições consistentes, o sereno debate democrático e o conhecimento acumulado de tantos jornalistas e especialistas em comunicação fizeram do OI um ponto de parada obrigatório para entender melhor a balbúrdia e o ruído que hoje congestionam o mundo da comunicação.

Num cenário deprimido pelo tiroteio de xingamentos e baixarias que marcam os comentários anônimos tolerados com indulgência por todos os blogs e portais, o OBSERVATÓRIO impunha respeito e qualidade ao debate pelo simples e óbvio requisito da identificação precisa do comentarista, com nome e sobrenome para assumir suas opiniões com educação e serenidade.

Numa imprensa reduzido ao tosco Fla-Flu de torcidas organizadas em torno dos dois partidos que dividem o poder no País há duas décadas, os jornalistas abdicaram da serenidade para vestir a camiseta de hooligans petistas ou tucanos, que se xingam e se ofendem em coros ensandecidos para destacar as falcatruas alheias, minimizando as próprias roubalheiras.

Jornalistas de simpatias tucanas investem contra a corrupção petista, esquecidos dos malfeitos praticados por seus ícones do PSDB. Jornalistas de amores petistas atacam a corrupção tucana, tolerantes com as tungas cometidas por seus ídolos do PT. 

Nessa guerra interminável, a imprensa cada vez mais partidarizada, em suas várias plataformas, se afasta do jornalismo para o abraço de urso do facciosismo, que tenta convencer o distinto público mais pela força do adjetivo do que pelo substantivo, mais pelo peso da opinião induzida do que pela informação produzida.

A partidarização acentuada da imprensa e de parte influente de seus profissionais, hoje rebaixados a golpistas ou governistas, acantonados em sites direitistas ou esquerdistas, em blogs ‘sujinhos’ ou ‘limpinhos’, em espaços que podem ser o black hole da sensatez ou o big bang da intolerância. 

São mundos e universos do pensamento único. Não há lugar para o contraditório, que permite o debate e estimula a inteligência.

Impõe-se o pensamento único onde só os simpatizantes de um lado e outro são aceitos para reproduzir, bovinamente, a reação de manada de uma multidão mesmerizada, radicalizada, black blocs do teclado, todos corajosamente protegidos pela máscara do anonimato, que dilui responsabilidade e dissemina mediocridade.

Contra tudo isso, Dines, felizmente, temos o bravo OBSERVATÓRIO, que precisa de vida longa para nos ajudar a sobreviver a essa tragédia desses tempos muito estranhos, em que muitos imbecis pedem a volta da ditadura, outros tantos estúpidos clamam pela morte de um apresentador de TV pelo simples fato de ter entrevistado a presidente da República…

Precisamos do OBSERVATÓRIO, Dines, e necessitamos ao nosso lado de gente da qualidade de Luiz Egypto e Luciano Martins Costa, velhos amigos e parceiros.

Do xará, a quem sempre tratei respeitosamente como Faraó, guardo a lembrança de velho colaborador do OI que sou e que sempre tive meus textos trabalhados com esmero, atenção e talento pelo Luiz, que melhorava a apresentação, a forma e a qualidade do produto final, numa edição à altura do leitor exigente do OBSERVATÓRIO.  

Poucas vezes, nestes 40 anos de profissão, fui tão bem tratado por um editor tão qualificado e talentoso como Luiz Egypto.

Dines, meu caro, desculpe o longo desabafo. Mas ele expressa meu desconcerto e meu desassossego com o vagalhão que arrastou meus amigos Luiz e Luciano e que, espero, não ameace a navegação segura do OI. 

O site, graças à pluralidade e à qualidade que trazem a grife de Alberto Dines, é uma nau essencial para todos nós, jornalistas, que ainda acreditamos numa segura travessia até mares menos revoltos.

Espero continuar tendo o acesso e o espaço qualificado do OBSERVATÓRIO, sempre que cometer meus textos. 

Mas, confesso, sentirei uma enorme saudade do bom e velho Faraó, que resume como ninguém o paradigma de qualidade e reflexão que este OBSERVATÓRIO conquistou, merecidamente, nos corações e mentes dos jornalistas.

Velho Faraó, grande Luciano, um baita abraço deste gaúcho perdido no Planalto Central.

Dines, um forte abraço,

Comentário de Alberto Dines a propósito da mensagem enviada pelo leitor Luiz Claudio Cunha:

Caro Luiz

O Instituto Projor (que administra os Observatórios da Imprensa) não demitiu ninguém. Não tem funcionários, apenas colaboradores. Os que dependiam exclusivamente desta fonte de renda (pouquíssimos, por sinal) foram mantidos. No caso do Editor-Chefe, Luiz Egypto Cerqueira, seu afastamento (para este observador especialmente doloroso) tem a ver com a decepção em assistir ao enxugamento do jornal ao qual dedicou tanto empenho ao longo de tantos anos.

Os demais colaboradores foram consultados sobre a possibilidade de continuar escrevendo e receber o pró-labore posteriormente. A maioria continuou, caso deste observador. Para Luciano Martins, editor da versão radiofônica (cujos artigos eram reaproveitados em nosso site), estudava-se uma solução alternativa ainda não abandonada.

O Projor é uma entidade não-lucrativa, suas despesas são cobertas por doações e apoios institucionais (sempre identificados no cabeçalho da homepage), pelas taxas de administração de outros projetos (como o GPI, Grande Pequena Imprensa) e licenciamento da marca. A suspensão simultânea de dois apoios e os dramáticos efeitos do ajuste fiscal do governo no principal parceiro foram responsáveis por um inesperado tsunami que abalou um prudente planejamento financeiro mantido ao longo de dezenove anos.

A perspectiva da normalização de receitas garantidas por contrato somada ao esforço para ativar novos projetos nos animam a imaginar que logo estaremos em condição de saldar a “dívida” com os colaboradores que conseguiram aguentar o tranco.

Este observador não têm função alguma no Instituto Projor é apenas um de seus fundadores e não pretende abandonar o barco. A não ser que seja forçado pelos fados.

Este comentário é fruto da obrigação de assegurar a total transparência de qualquer atividade jornalística e motivado pela solidária e emocionada manifestação do companheiro Luiz Claudio Cunha. O apresentador e editor-responsável da versão televisiva do “Observatório da Imprensa” não poderia manter-se alheio ou silenciar sobre o que se passa na mais antigo projeto de monitoramento da imprensa no Brasil e quiçá na América Latina.

Alberto Dines

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