Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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DIáLOGO COM LEITORES > Hora de começar a explicar

O choro das viúvas do juiz Sérgio Moro nas redações é ensurdecedor

Por Carlos Wagner em 06/11/2018 na edição 1012

Publicado originalmente no blog Histórias Mal Contadas.

Com o seu trabalho na Lava Jato o juiz Moro ganhou o respeito das redações dos jornais que agora vão ter explicar a sua ida para o governo que disputou as eleições com o seu preso mais ilustre: o Lula. (Foto: Assessoria de Imprensa da Justiça Federal)

Há uma antiga brincadeira entre os repórteres esportivos. Eles chamam de “viúvas” os colegas que admiram um jogador de futebol e que, quando ele sai do time, ficam inconsoláveis. Com o passar dos anos, esse conceito acabou se espalhando por todos os setores das redações. E, como se fosse uma luva, a palavra “viúvas” se encaixa a um enorme contingente de jornalistas que se sentiram abandonados quando o juiz federal Sérgio Moro disse “sim” e aceitou o convite do presidente da República eleito, Jair Bolsonaro (PSL – RJ), para ser o ministro da Justiça e Segurança Pública. Pelo acordo feito entre o juiz e o presidente eleito, ele será indicado no futuro a ocupar o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Moro deve pedir demissão do cargo de juiz federal nos próximos dias.

Por que ele deixa “viúvas” nas redações? Ele é o juiz que se tornou símbolo da Operação Lava Jato, que ao redor do mundo virou exemplo de combate à corrupção por levar para a cadeia empresários, ex-presidente da República, senadores, deputados e autoridades da Justiça. A Lava Jato foi construída por Moro inspirado da Operação Mãos Limpas (1990) na Itália. Discreto, contundente e estratégico na condução dos processos, Moro virou uma figura hollywoodiana nas redações.

Antes de seguir contando a história. Tenho 40 anos de profissão, sendo que 30 e poucos vividos dentro de redação. E faz parte da cultura dos jornalistas simplificar o mundo classificando os seus personagens como bandidos ou mocinhos — uma herança deixada pela cultura dos antigos filmes de bangue-bangue. Sempre que um personagem não obedece ao roteiro do bangue-bangue, nós temos dificuldades de explicar a situação ao nosso leitor. Como é o caso do juiz Moro. Para começo de conversa. Ele não infringiu alguma das leis brasileiras, aceitando o convite do Bolsonaro. E também é do seu livre arbítrio fazer o que bem entende com o patrimônio político ganho pelo seu trabalho na Operação Lava Jato. E não deve explicação para nós, jornalistas, pela sua opção: ele não pediu para ser transformado em herói. O que aconteceu foi por conta das redações.

Esse é o contexto. Agora o que nós, repórteres, temos que esclarecer ao nosso leitor. Moro condenou em primeira instância o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT – SP) por corrupção e lavagem de dinheiro. A condenação foi confirmada, e a pena aumentada para 12 anos e um mês em segunda instância. Lula foi preso, pela Lei da Ficha Limpa, impedido de concorrer na eleição – na ocasião, ele estava em primeiro lugar nas pesquisas para a presidência da República. A prisão do Lula beneficiou seu adversário Bolsonaro. Fernando Haddad (PT – SP) substituiu Lula na disputa. E a poucos dias da votação do primeiro turno, Moro retirou o sigilo de parte da delação premiada de Antonio Palocci, ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff (PT – RS). Palocci está preso preventivamente desde 2016. E os trechos da sua delação divulgados se transformaram em um transtorno para Haddad e um benefício para o presidente eleito. Resumindo a história. Moro prende o maior adversário do presidente eleito e, depois, exonera-se do cargo e vira ministro de Bolsonaro. Cabe a nós, repórteres, de maneira simples e direta, explicar toda essa história ao nosso leitor. A maior fonte de informações é o processo feito contra Lula. Em algum lugar dele, existem pistas que nos levariam a entender o que aconteceu.

Existe outro fato sobre a ida de Moro para o ministério do presidente eleito que não tem nada a ver com a Lava Jato. Bolsonaro é capitão da reserva do Exército. No Brasil, e outros lugares do mundo, como nos Estados Unidos, militares da reserva ocupam cargos no legislativo e no executivo. O presidente eleito também é descrito como homem de extrema direita. Não é problema, porque a Constituição garante a liberdade política. A questão é outra. Durante a carreira de 26 anos no legislativo, o presidente eleito se tornou conhecido atacando as minorias — negros, índios e LGBT. E também foi um ferrenho defensor das ideias do Golpe Militar de 1964 — na ocasião, as Forças Armadas, apoiadas por civis e pelos Estados Unidos, derrubaram o governo e ficaram no poder até 1985. Ele defende o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (falecido em 2015), o homem que montou o aparato de tortura no regime militar.

Aqui entra a questão. Durante o Regime Militar (1964 1985), Moro era um guri no interior do Paraná — ele nasceu em 1972 e, quando entrou na carreira de magistrado, em 1996, o Brasil já era um país com a democracia consolidada. Mas Moro é juiz federal e tem uma carreira dedicada à defesa das leis. Bolsonaro fez carreira pregando o desrespeito às leis. Dentro dessa ótica dos fatos, não dá para entender o que aconteceu. Afinal de contas, trata-se de duas visões a respeito às leis opostas. Portanto, meus colegas jornalistas, está na hora de tirar o luto e começar a explicar a história para os nossos leitores.

***

Carlos Wagner é jornalista.

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