Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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DILEMAS CONTEMPORâNEOS > Sangue nos olhos e lágrimas no coração

Golden Shower como performance e os estereótipos sobre o Brasil

Por Vanete Santana Dezmann em 12/03/2019 na edição 1028

(Foto: Reprodução)

Hans Staden, um jovem de vinte e poucos anos que resolveu deixar Homberg, sua cidade natal, para conhecer as Índias Orientais, chegou a Lisboa, onde pretendia se juntar à tripulação de algum navio que fosse para aquela direção, em 1547. Como não restava nenhum, embarcou para a colônia portuguesa das Índias Ocidentais.

Após muitas aventuras e desventuras, que incluem nove meses de convivência com índios tupinambás na região onde hoje e encontra a cidade de Ubatuba, no litoral paulista, Staden retornou para o estado de Hesse e publicou um livrinho intitulado “História verídica e descrição de uma terra de selvagens nus e cruéis comedores de seres humanos situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hesse até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hesse, a conheceu por experiência própria e agora a traz a público com esta impressão”.

Ainda no século XVI, as aventuras de Staden já podiam ser lidas em francês, latim e holandês e se tornaram o primeiro best-seller de que se tem notícia neste e no Velho Mundo. Os registros de Staden, porém, serviram para que se criasse um imaginário surreal, de onde advêm preconceitos e estereótipos até hoje atribuídos a um país e a uma nação que sequer existiam àquela época.

Em uma rápida pesquisa em qualquer site de busca na internet pelos “top 10” dos estereótipos sobre o brasileiro, invariavelmente aparecerão os termos “carnaval”, “samba”, “mulher” e “futebol. Se usarmos o filtro “imagem”, o resultado apresentará fotos de destaques de escola de samba seminuas e mulheres com corpo escultural fotografadas de costas vestidas com biquíni fio-dental.

A mesma pesquisa, tendo a Itália como tema, apresenta “pizza”, “spaguetti”, monumentos arquitetônicos, obras literárias e óperas. Quando se trata da Alemanha, aparecem “cerveja”, “linguiças”, “Oktoberfest”, fotos de homens e mulheres vestidos – dos pés à cabeça – com trajes típicos da Bavária, “campeonato de corrida de automóveis”, “relógio cuco” e “bolo floresta negra”. Se substituirmos os termos de busca por “estereótipos mulher brasileira”, o primeiro resultado será “puta”. As imagens relacionadas ao termo de busca trarão fotos de “miss bumbum” e congêneres. Cá entre nós, brasileiros, nem é preciso fazer o teste para saber quais são os resultados.

Analisar como os relatos daquele jovem aventureiro sobre a terra de selvagens nus e canibais rodaram o mundo ao longo destes quase quinhentos anos e que caminhos trilharam até aflorarem no google – e em nossa mentalidade –, apresentando o Brasil como uma nação afeita à libertinagem, que teria no carnaval seu maior palco, resultaria em um tratado antropológico que demandaria décadas de pesquisa. Não é o caso aqui. Mas a coreografia “golden shower” do artista performático russo Fyodor Pavlov- Andreevich – que alegrou as ruas do Rio e que, segundo o Jornal O Globo, pretende apresentar o carnaval brasileiro em uma exposição na Gazelli Art House, em Londres, a partir de 23 de maio – reproduzindo a diversão carnavalesca que se tornou famosa a partir da recriminação desferida pelo twitter do presidente Jair Bolsonaro nos leva a refletir sobre como a libertinagem atribuída ao Brasil – e a brasileiros e brasileiras – estaria sendo retroalimentada.

Reduzindo o processo ao nível pré-primário, temos o “mundo ocidental” imaginando que o brasileiro típico é dado à libertinagem e espera que os “produtos culturais” brasileiros sejam por ela caracterizados. Sabedores disso, “produtores culturais” – atentem para a ausência de artigos definidos – oferecem “produtos culturais” genuinamente brasileiros caracterizados pela libertinagem e, assim, o mundo ocidental tem confirmada sua expectativa e a vida segue com tudo em seu devido lugar: selvagens lá, civilizados aqui.

Só para terminar, trago um relato pessoal. Comemorei o réveillon de 2000 em uma danceteria em Munique com um grupo de amigos alemães composto por rapazes e moças. A certa altura, uma das moças de nosso grupo subiu em uma mesa e ficou dançando libidinosamente. Eu comecei a olhar para os lados, assustada, temendo as eventuais investidas que eu sofreria por estar no mesmo grupo que ela. No dia seguinte, por telefone, relatei a cena, escandalizada, a um amigo alemão. Seu comentário, em tom de “é triste, mas é a realidade” foi simplesmente este: “Pois é… Se as alemãs agem assim, você pode imaginar como a mentalidade europeia acredita que as brasileiras agem.”.

Agradeço aos artistas performáticos russos que abrem mão de dançar a balalaika para reforçarem nosso estereótipo mundo afora. Agradeço especificamente aos brasileiros que aplaudem artistas performáticos russos para elevarem ao nível de arte seu modus-vivendi cotidiano por contribuírem para que eu siga sem saber se me alegro ou me preocupo diante da simpatia com que sou recebida por alguns aqui do outro lado do oceano ao ser apresentada como brasileira.

08/03/2019 – Dia Internacional da Mulher

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Vanete Santana-Dezmann tem bacharelado e licenciatura em Letras; mestrado e doutorado em Teorias de Tradução (Universidade Estadual de Campinas) e pós-doutorado em Tradução (Universidade de São Paulo). É professora de Tradução, Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Universidade Johannes Gutenberg, na Alemanha.

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