Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DILEMAS CONTEMPORâNEOS > Memória Cotidiana

Os filhos da ditadura e a miséria das ruas

Por Alexandre Coslei em 07/12/2017 na edição 969

Texto publicado originalmente no blog Bem Blogado.

Um dia qualquer da década de 70, crepúsculo dos anos de chumbo. Sete horas da manhã e o apito agudo da fábrica da Brahma acordava parte da Tijuca, fazendo vibrar o colchão em que eu semeava sonhos, me despertando nos primeiros dias da minha adolescência para a rotina de estudante da rede pública.

Já no pátio da escola, nos colocavam em forma para cantar o hino nacional enquanto um dos colegas hasteava a bandeira. Tudo possuía uma ordem e a ordem emanava paz. Lembro-me de alunos amistosos e de ter somente professoras mulheres que nunca passaram nem perto de assuntos políticos. Havia aulas de música em que uma senhora, muito idosa, entoava um diapasão antes de reger o hino da bandeira. O hino da bandeira me comovia. Acredite, leitor sem fé, tínhamos até aula de religião (exclusivamente católica), em que a professora desenhava lindos painéis coloridos no quadro negro para ilustrar as parábolas que contava.

Diante da escola Laudimia Trotta, onde concluí o antigo curso primário, ficavam, lado a lado, duas áreas referenciais do bairro, a tal fábrica que citei e o 1º Batalhão da Polícia do Exército, o temido DOI-CODI. Da janela da sala de aula, eu seguia as hipnóticas caixas de cerveja subindo e descendo para um destino desconhecido. Ao lado, no quartel do exército, muitos destinos encontraram um ponto final sem que eu sequer imaginasse como. Olhando do século XXI para aqueles meus anos infantis, tenho a impressão de que vivíamos numa bolha, dentro dela estávamos envoltos num orgulho de ser brasileiro. Ame-o ou deixe-o, acredito que quase todos da minha geração, que foram crianças nos anos 70, ficaram marcados por um patriotismo artificial que fazia parte da propaganda da ditadura militar. Amávamos um país que não conhecíamos de fato.

Eu estudava meio período e na hora do almoço voltava caminhando para casa. No trajeto, cruzava, invariavelmente, com os operários da fábrica refastelados pelas calçadas, recostados debaixo da sombra das árvores, uniformes brancos, alguns um pouco sujos. Talvez, estivessem ali por não existir área de descanso ou de lazer no interior das instalações da Brahma. Qualquer mulher que passasse, carregava o olhar daqueles homens embrutecidos. Não sei se a convivência silenciosa e inocente com operários me influenciou em alguma coisa, o que sei é que aquelas imagens são quadros que nunca se desfizeram em minha memória.

É possível que todo aquele período de exceção, para os que passaram incólumes a ele, tenham realmente deixado um sentimento de nostalgia. O terror habitava os subterrâneos e a censura parecia natural para quem nasceu censurado. Morei numa rua de casarões e poucos prédios, ao lado de vizinhos generais. Todas as casas e apartamentos possuíam dependência de empregada, uma senzala da classe média. Empregadas domésticas dormiam no serviço, algumas moravam. Minha família, que não constava entre os abastados da área, teve empregadas que dormiam num cômodo improvisado na nossa casinha de vila. Hoje, quando me recordo delas pelo olhar da infância, percebo que nunca perguntei se tinham uma vida fora dali, se existiam para algo mais que não fosse nos servir. Quando a consciência de tudo o que estava errado brotou em mim?

Novelas ganharam a potência do ópio. Assisti a Irmãos Coragem, O Semideus, O Astro, Escrava Isaura, Dancin’ Days, Água Viva, Vale Tudo, entre outras. Estremeci com o assassinato de Salomão Hayala, Miguel Fragonard e Odete Roitman. Colunistas sociais, como Ibrahim Sued, nos ensinavam os primeiros passos do fascínio pela ostentação improdutiva do minúsculo círculo dos ricaços brasileiros. Alienávamo-nos. Tempos que nos incubaram como cínicos, como conservadores das desigualdades.

Ao entrar para a universidade pública, livre do jugo dos coturnos, testemunhei as primeiras assembleias de docentes que decidiam pela greve, muitos deles simpatizantes do PT. Sim, eu me sentia prejudicado pelas paralisações, foi só mais tarde que compreendi as reivindicações de uma classe que ainda precisa lutar contra a depreciação do ofício que exerce.

Libertar uma nação deve incluir primeiro libertar-se de si mesmo, por isso a educação é crucial nesse processo de emancipação. Professores e livros são armas contra a opressão das elites, não é à toa que aqui professores vão sendo relegados a uma espécie de subemprego e livros são vendidos a peso de ouro. A ignorância é a alma do status-quo.

Retirantes, de Candido Portinari

Obra “Retirantes”, do artista Candido Portinari, de 1944. Exposta no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

A despedida dos militares se fez numa dura transição, saímos da ilha da fantasia para o descobrimento de um país falido e faminto. A fome no Brasil é uma tragédia que escuto desde criança, tragédia repetida e tão distante da realidade da classe média que nos soa na mente apenas como a abstração da pintura Retirantes, de Candido Portinari. Sempre soubemos dos nossos horrores e sempre negamos todos eles, como viciados em narcóticos que fogem à própria realidade. A primeira vez que a miséria me chocou foi no início da redemocratização, durante o governo Sarney, quando vi famílias inteiras de mendigos ocupando a praça Saenz Peña. Como se o fim do regime militar revelasse o que se escondia debaixo do tapete. Com os anos, encontraram uma maneira para depurar o cenário, cercaram de grades as praças do Rio, confirmando nosso desejo de exclusão. Hoje, vivemos no futuro, na revolução digital, na propagação infinita da informação, mas ainda persistem os cidadãos que sentem mais repulsa pelos miseráveis do que pela miséria.

Não estranha testemunhar a popularidade do Lula, mesmo massacrado pela mídia e pela casta de inquisidores do Judiciário. Político de origem proletária, foi durante os seus dois governos que alimentaram a fome; que as dependências de empregada e as marquises se tornaram o Minha casa, minha vida; que as domésticas deixaram de ser criadas para terem carteira assinada e direitos trabalhistas; que escolas e universidades incluíram quem estava de fora; que as praças voltaram a ser abertas, sem grades e sem as colônias de miseráveis, que passaram a receber o mínimo de dignidade em programas como o Bolsa Família. A liberdade e a inclusão se tornaram debates proveitosos. Não, este não é um texto panfletário, é a constatação de como nossas elites são cruéis ao revogarem o mínimo de bem-estar social para favorecer um mercado financeiro sem rosto. São essas elites que nos impõem uma série de medidas pelo argumento antidemocrático de que precisa ser assim, mesmo que não seja popular. Guardam o ranço dos tiranos. Que adianta não ter inflação e jogar grandes contingentes na miséria? questionava Brizola. Retornamos à vergonha de ouvir bancos internacionais declararem como o Brasil deve ser, segundo a ótica deles. Lula nos fez superar o FMI e suas receitas desumanas, mas a direita a serviço dos rentistas nos devolve aos abutres.

Saio de casa e caminho pelas ruas da Tijuca. Novamente, me deparo com a miséria encolhida debaixo das marquises, nos bancos das praças, no relento das calçadas e com as mãos estendidas sob os semáforos. Agora, não os escondem mais debaixo do tapete, não precisam disso, para eles qualquer cova rasa é a solução definitiva.

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Alexandre Coslei é jornalista.

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